A celebração da Maslenitsa, o Carnaval russo, cem anos atrás

Blini, blini e mais blini! Foto: ITAR-TASS

Blini, blini e mais blini! Foto: ITAR-TASS

Festa sempre foi marcada pela a tradicional e “ritual” falta de moderação no que diz respeito a comer e beber, reproduzida em ensaio humorístico publicado pelo "Moskóvskie Vedomosti" há cem anos.

Na Rússia, a Maslenitsa (Carnaval) era celebrada por cada família, da mais pobre, que poupava dinheiro o ano inteiro para comemorar o feriado da primavera e da fertilidade, até a família imperial, que de bom grado participava de eventos de patinação no gelo, bailes e outros divertimentos da alta sociedade. Apesar da celebração na aldeia ser muito diferente da celebração na cidade, uma coisa elas tinham em comum: a tradicional e “ritual” falta de moderação no que diz respeito a comer e beber. Cem anos atrás, o jornal "Moskovskie Vedomosti" publicou um ensaio humorístico sobre a semana da Maslenitsa em Moscou, que a Gazeta Russa traz com exclusividade. 

A grande Maslenitsa, primeiro dia

Em alguns lugares, os blini são assados. Às vezes, eles saem “embolotados”. A tintura “Nejinskaia” (brandy produzido a partir de frutos da sorveira) tem uma ação muito eficaz contra as “bolotas”. Tanto os de direita quanto os de extrema esquerda comem os bloni. Depois de terem consumido as primeiras panquecas, as pessoas levantam-se e oscilam um pouco: não se sabe se devido à falta de costume ou se foi a sorva que “deixou as pernas um tantinho mais pesadas”.

Segundo dia

As circunstâncias são graves. Estão sendo assados blíni de trigo, trigo sarraceno e "meio a meio", com “pripiok” (blíni em duas camadas com recheio no meio) ou simples. Com indignação, as donas de casa adquiriram diferentes variedades de salmão e, com maldições, o caviar preto prensado. Porém, com o caviar em grãos, elas podem apenas sonhar. Todos os progressistas servem o caviar vermelho (de salmão). O peixe “inconnu” obviamente faz parte de uma conspiração insidiosa e “não se deixa pescar”.

Os gastrônomos chamam o salmão do rio Don de "Conselheiro de Estado” (a quarta categoria mais elevada na hierarquia dos cargos do serviço público da Rússia czarista) e os blíni nos quais ele está presente, de "blíni com general". Em nome da sobriedade, inicia-se a aniquilação unânime dos destilados, do amargo licor inglês, da “travinka”, da “zubrovka”, da “polinovka” (tinturas ou extratos alcoólicos obtidos a partir da adição de ervas ou bagas à vodca) e da “smorodinaia potchka” (bebida feita com brotos de groselha). Nas ruas começam a aparecer sujeitos pensativos, de olhos enevoados, mas que caminham ainda com firmeza.

Terceiro e quarto dias

Blini, blini e mais blini. Distúrbios gástricos atingem a todos sem exceção. Surge uma enorme demanda pelos medicamentos indispensáveis nesses casos: conhaque Shustov, Madeira (vinho) da cidade de Kashin e “brikalovka” (aguardente de baixa qualidade) de toda a Rússia. Os nacionalistas saboreiam uísque e Porter inglês. Encabeçados pelo seu presidente, enquanto comiam blini, todos os membros de uma associação provincial de sobriedade se embebedaram. F. I. Rodichev (então político, deputado da Duma do Estado) e o cocheiro de um dignitário fizeram uma “competição”: quem comerá um número maior de blínis e beberá mais vodca? O senhor Rodichev venceu. Assim, V. A. Maklakov (advogado e político), que havia feito uma grande aposta no cocheiro, perdeu todos os seus honorários recebidos pelos processos do caso Beilis, dos intendentes e dos dentistas (processos judiciais de grande repercussão na Rússia pré-revolucionária).

Na Rússia, a Maslenitsa (Carnaval) era celebrada por cada família Foto: arquivo pessoal

O cheiro dos blíni já está começando a agir sobre os nervos. Em uma rua aconteceu um conflito entre um grupo de intelectuais. Supunha-se que era um combate entre os da direita e os da esquerda, mas revelou-se que os combatentes eram apartidários bêbados. Os medicamentos das adegas e lojas de vinhos deixaram de ser eficazes. Gradualmente, as pessoas começaram a mudar para as gotas de hortelã e bicarbonato de sódio.

Quinto e sexto dias

Uma paródia bem sucedida do pandemônio babilônico: os homens começam a se comunicar em línguas incompreensíveis; o deus Baco confundiu as línguas, vendo que a pirâmide dos blíni consumidos poderia exceder a duas torres semelhantes à Torre de Babel.

Alguns moradores nem conseguem pronunciar "papai" e "mamãe"; outros somente movem os lábios, como os peixes. Os blíni continuam a ser consumidos. As pessoas sábias, mirando com os olhos sagazes o futuro tenebroso, temem a fome. As bebidas alcoólicas continuam a ser ingeridas. Por alguma razão, os restaurantes onde estão sendo consumidos os blíni lembram navios de passageiros que balançam no mar agitado. Nas ruas podemos encontrar corpos em diferentes estágios: os que mal se movem, os que oscilam, os que estão se esticando, os “mortos” e os que estão dormindo a sono solto.

Nas casas, continuam os banquetes com uma variedade de discursos. O peso nos estômagos afetou fortemente as cabeças. Os oradores confundem os eventos e os nomes em suas falas.

Sétimo dia e (felizmente) o último

Os fogos se extinguem, as flores perdem as pétalas. As flores das festanças dos blíni. A orgia foi substituída pela dieta. Os blíni suscitam a ideia de uma vingança sangrenta. Muitos começaram a ter comportamento violento devido ao ódio para com os protagonistas da comilança. Assim, a partir do protocolo de um superintendente de polícia letrado, podemos ver que no restaurante Iagodka (pequena baga) um progressivo comerciante que, aparentemente, ao condenar a gula russa e pregar o ascetismo rigoroso, quebra as garrafas no chão e “lança ovas” para todos os lados. Provavelmente, neste ponto, o responsável pela elaboração do protocolo foi excessivamente lacônico e, por isso, não devemos pensar que o progressivo comerciante foi confundido com um esturjão cheio de ovas.

A Maslinitsa se encerra com suspiros pesarosos e orações penitentes:

“Dê-me repolho em conserva. E salmoura de pepino (métodos caseiros para curar a ressaca).”

 

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