O sucesso das nobres exiladas russas no mundo da moda parisiense

Max Factor, "o pai dos cosméticos modernos”, fundador da marca gigante entre os cosméticos, também tem as suas origens no Império Russo. Foto: Getty Images / Fotobank

Max Factor, "o pai dos cosméticos modernos”, fundador da marca gigante entre os cosméticos, também tem as suas origens no Império Russo. Foto: Getty Images / Fotobank

A história da "expansão" russa no mercado de moda europeu começou com o colapso do Império Russo. Centenas de representantes da elite russa tiveram que assumir o status de refugiados. A maioria das refugiadas eram mulheres com brilhante formação, maneiras refinadas, habilidades em trabalhos manuais desenvolvidas desde a infância e um bom gosto impecável.

Desde janeiro, o mundo da moda está acompanhando atentamente o que acontece nas passarelas e nos bastidores das semanas de moda. Os profissionais da moda, os apreciadores do belo e as “it girls”de todo o mundo estão incluindo New York, Londres, Milão e Paris em suas agendas. Não são todos os que sabem da existência da Semana de Moda de Moscou, mesmo entre os representantes da indústria de moda. Mas houve um tempo em que os mestres russos vestiam os dândis do velho e do novo mundo.

A história da "expansão" russa no mercado de moda europeu começou com o colapso do Império Russo. Centenas de representantes da elite russa tiveram que assumir o status de refugiados. A maioria das refugiadas eram mulheres com brilhante formação, maneiras refinadas, habilidades em trabalhos manuais desenvolvidas desde a infância e um bom gosto impecável.

Sobre elas a revista parisiense "Rússia Ilustrada” escreveu: “Uma imigrante russa entrou nesta cidade a um passo tímido: em outros tempos a sua mãe e avó se vestiam com os modelos de Charles Frederick Worth (considerado o pai da alta-costura e dos desfiles de moda com modelos) e Paul Poiret (renomado designer de moda francês), enquanto que essa jovem mulher russa acabou de escapar do inferno da revolução e da guerra civil, Ela entrou na capital da elegância feminina e bateu às portas da luxuosa Maison de Haute Couture. Então, as portas maciças se abriram diante dela e ela conquistou todos os corações.”

Ralph Lauren  Foto: Getty Images / Fotobank

A propósito, precisamente graças a essas damas que a profissão de manequim adquiriu o prestígio e o brilho com os quais se destaca hoje. Nobres e elegantes, elas falavam vários idiomas e, com facilidade, podiam dar explicações a qualquer pessoa sobre modelos, características do tecido, corte ou acabamento do traje.

Mas era difícil ganhar a vida apenas com demonstração. Foi quando entraram em cena as habilidades artísticas. Os imigrantes não reclamavam e não ficavam se lamentando por causa das riquezas perdidas. Príncipes e condes ordenhavam vacas, aravam a terra e giravam o volante de um táxi, sem considerar isso uma ofensa à própria dignidade. Mas foi precisamente na indústria da moda que eles conquistaram os maiores sucessos.

Revolução 

A Revolução Russa provocou uma forte reação no mundo da moda. Com satisfação, as fashionistas europeias começaram a se vestir com os trajes “à la russe”, com os característicos “kokoshniks” (tradicionais adornos femininos de cabeça), peles e golas de boiardo (título atribuído aos membros da aristocracia russa do século 10 ao 17). No início dos anos 1920, Paul Poiret, Coco Chanel e muitos outros apresentavam coleções nesse estilo. As imigrantes russas, que desde a infância aprenderam a lidar com trabalhos manuais, eram bastante requisitadas. As princesas e condessas começaram a produzir ativamente acessórios e tecidos bordados, bijuterias, roupas e artigos de decoração de interiores de acordo com a estética eslava.

As aristocratas se especializaram basicamente em bordados e realizavam o trabalho com tanta maestria que recebiam encomendas até das mais importantes casas de moda. A grã-duquesa Maria Pavlovna foi quem alcançou o maior sucesso, pois fundou a Casa dos Bordados Kitmir e firmou um contrato exclusivo com Chanel para o desenvolvimento e elaboração dos bordados das coleções de sua Casa de Modas. O que mais toca é que a grã-duquesa não só realizava pessoalmente a parte dura de tornar realidade os pedidos (por vezes até passava a noite no chão do estúdio dormindo sobre o seu casaco de pele), mas também empregava as suas ex-compatriotas para apoiá-las financeiramente. Uma revista francesa escreveu na época: "Seria difícil exagerar a coragem com que as damas da alta sociedade russa, exiladas de sua terra natal, se puseram a trabalhar."

Irina Golitsina (esq.), fundadora da casa de moda Golitsin Foto: Getty Images / Fotobank

O artesanato não era um ofício apenas das bordadeiras. Ex-oficiais do exército branco inauguraram em Paris uma oficina de fabricação de calçados “artísticos” femininos, que rapidamente entraram na moda e até mesmo foram apresentados na Exposição Internacional de Artes Decorativas no Grand Palais, em 1925.

Domínio russo

As coisas aconteceram de tal maneira que a maioria das Casas de Moda desse período (mais de vinte) foram fundadas por aristocratas russas. Maria Putiatin fundou a empresa Chapka (Chapéu), que foi tão bem sucedida que rapidamente expandiu, com a criação de uma filial em Londres. A condessa Orlova-Davidova fundou a Casa Russa de Modas no Boulevard Malesherbes, especializando-se em tricô e estampas de tecidos de lã e de seda feitas à mão, que as famosas Casas de Moda parisienses encomendavam para as suas coleções. E Anna Vorontsova-Dashkova, nascida princesa Tchavtchavadze, foi a fundadora da Casa de Moda Imedi, que vestia a elite francesa, britânica e holandesa, bem como as novas milionárias americanas. 

Em Londres, operava a Casa de Moda Russa Paul Care, fundada pela princesa Lobanova-Rostovskaia.

Nessa história há também episódios de sucesso mais duradouros. Por exemplo, na década de 1920, os pais de um dos clássicos atuais da moda americana, Ralph Lauren, foram da Rússia para os EUA juntamente com seus pais. Até os 16 anos, o lendário empresário da moda usou o sobrenome paterno, Lifschitz. Felizmente, para o grande número de fãs do seu bom gosto, este oriundo da Rússia acabou se revelando um verdadeiro homem de negócios. Tendo começado com a venda de gravatas que "pareciam caras, mas custavam pouco” e um escritório sem janelas (mas no Empire State Building), Ralph Lauren hoje dirige o seu próprio império de moda e participa constantemente das Semanas de Moda de Nova York.

Ou, por exemplo, Max Factor (Maximilian Factorovich), "o pai dos cosméticos modernos”, fundador da marca gigante entre os cosméticos, "um empresário americano de origem judaica", mas que também tem as suas origens no Império Russo. Abriu a sua primeira loja de produtos cosméticos em Riazan (uma pequena cidade na parte central da Rússia), depois trabalhou em Odessa e Nikolaev. Hoje uma das estrelas da calçada da fama de Hollywood leva o seu nome. 

Irina and Felix Iussupov Foto: RIA Nóvosti

Outra história de incrível sucesso aconteceu na Itália, onde Irina Borisovna Golitsina, uma menina educada nas melhores tradições aristocráticas russas, proveniente de uma família de emigrantes da primeira onda (que deixaram a URSS no início da década de 1920) detentores de títulos, tornou-se a “principessa” do Olimpo da moda italiana. A sua Casa de Modas Galitzine encontra-se no mesmo nível das casas de mestres como Gianni Versace, John Galliano e Yves Saint Laurent. E é a ela que nós devemos o surgimento, em 1963, do famoso pijama palazzo (um conjunto formado por uma túnica abotoada nas costas e calças estreitas encurtadas). O seu encontro com a futura profissão lembra a história de Cinderela. A jovem lady, que, ao contrário de Cinderela, havia recebido excelente formação em casa, sendo educada em um ambiente artístico e aristocrático, foi convidada para um baile. Não havia fadas conhecidas por perto na ocasião e Iren (como Irina era chamada) costurou o próprio vestido, que agradou a muitos.

"Eu me inscrevi em cursos de pintura e desenho e ficava sonhando sobre as páginas da revista ‘Vogue’", escreveu em suas memórias. Depois, veio o trabalho no pequeno atelier das irmãs Fontana, que em pouco tempo não apenas se tornou famoso, como também incluiu na lista de clientes nomes como Audrey Hepburn, Jacqueline Kennedy, Elizabeth Taylor e Ava Gardner. Em 1959, surgiu a primeira coleção independente de Iren Golitsina, que trouxe para a autora um prêmio americano e o título de Designer de Moda do Ano. Mas a verdadeira fama veio em 1963. De acordo com as suas memórias, a sala onde se realizava o desfile da coleção estava superlotada, testemunhas dizem que havia espectadores sentados até mesmo sobre os braços das poltronas. Assim começou a grande história da frágil princesa russa que ao voltar à Rússia, já na idade madura (após a desagregação da URSS), escreveu que “finalmente havia encontrado o seu lar”. 

Um lugar especial entre casas de moda russas bem sucedidas é ocupado pela IRFE (o nome é formado pelas iniciais dos fundadores, Irina e Felix Iussupov). A origem dos proprietários por si só já vale muito. A princesa Irina, nascida Romanova, era sobrinha do czar Nikolai 2º e neta favorita do czar Aleksandr 3º. O seu marido, o príncipe Felix Iusupov, era descendente de uma das famílias mais antigas e mais ricas da Rússia czarista. Eles incorporaram todo o seu brilho e sofisticação nos modelos.

A revista francesa “Vogue” escreveu sobre a primeira coleção da casa: "Diante de vocês está uma coleção que ao mesmo tempo é uma seleção, pois não inclui nem um modelo mal sucedido.” A aristocracia da marca trouxe-lhe um enorme sucesso, filiais foram abertas na Normandia, em Berlim e em Londres. Além disso, uma linha revolucionária de perfumes foi lançada pela Casa IRFE. Perfumes de quatro categorias eram produzidos em tiragens limitadas: Blondepara as loiras, Brunettepara as morenas, Titiane para as ruivas e Grey para as mulheres de idade. No entanto, em 1931, sete anos após a sua inauguração, a casa foi fechada devido à concorrência crescente.

Derrocada

O mesmo destino se abateu sobre a maioria das outras casas de moda russas de Paris. Intelectuais e completamente desprovidos de perspicácia comercial, os nobres russos criavam coisas maravilhosas, mas não sabiam, absolutamente, como lutar por um lugar ao sol. E isso foi uma pena. Seria interessante observar como nas passarelas da Semana de Moda em Paris, 25 casas de moda russas, com quase 100 anos de história, apresentariam as suas coleções.

Em 2006, Olga Sorokina, uma parisiense de origem russa, reviveu a marca IRFE, que agora está representada em mais de 20 países ao redor do mundo e já apresentou a coleção Primavera-Verão 2014 na Semana de Moda de Paris.

 

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