Sôtchi-2014 relembra as raízes das vitórias olímpicas

Foto: Konstantín Salomatin / Russki Reporter

Foto: Konstantín Salomatin / Russki Reporter

Nas Olimpíadas de Inverno de Sôtchi, os atletas russos vêm disputando por medalhas em jogos modernos, ainda que nem sempre tão comuns. Mas o sucesso nos esportes pode ser em parte explicado pela forte tradição do país. A Gazeta Russa apresenta a história das tradicionais atividades esportivas ao ar livre na Rússia.

Alguns anos atrás, um amigo foi para os EUA, onde se juntou com outros russos para alugar uma casa. Todos vinham de diferentes regiões da Rússia, mas, juntos, costumavam se entreter com um jogo bem conhecido de todos: “facas”, que pressupõe enfiar uma faca na terra para “cortar” uma parte do território do adversário. A polícia, que chegou a chamado dos vizinhos, logo percebeu a natureza pacífica do jogo e até aprendeu a brincar. A verdade é que “facas” tem suas raízes em um jogo obsoleto de “svaika”, bastante popular na Rússia pré-revolucionária.

Svaika: fim de uma era

Foto: Divulgação

Em um das epopeias antigas da Rússia, o jogo de svaika foi usado como metáfora de uma relação sexual – o que não é coincidência. O símbolo de um dos mais antigos cultos religiosos de todo o mundo, Sivaism, é um “lingam”: uma combinação de anel (símbolo feminino) e haste (símbolo masculino), os mesmos objetos usados no svaika, e que, obviamente, tem raízes profundas no período pré-cristão.

O jogo era muito popular entre todos os russos, fossem camponeses ou membros da nobreza. Até mesmo jovens príncipes, criados no confinamento de residências reais, conheciam suas regras simples. O jogo também está ligado a uma grande virada na história da Rússia.

O último filho de Ivan, o Terrível, o príncipe Dmítri, era fraco e sofria de epilepsia. Quando seu irmão mais velho, Fiódor, assumiu o trono, Dmítri foi enviado para a cidade de Uglich a fim de protegê-lo das preocupações da vida da corte na capital. Em 1591, quando ele tinha apenas 9 anos, o atestado de sua morte chegou a Moscou.

Nele constava que Dmítri teria se ferido com uma haste de svaika, após ter uma convulsão durante um jogo. Mas os boatos garantiam que Dmítri havia sido assassinado por boiardos, que não queriam que o jovem governasse o país. Seja verdade ou não, a morte de Dmítri marcou o início de uma crise dinástica e o Tempo de Dificuldades para a Rússia, que terminou com outra dinastia, os Romanov, subindo ao poder.

Mas o que aconteceu com o svaika? Após a Revolução de 1917 e a abdicação do último tsar, o esporte foi lentamente substituído pelo jogo de facas.

Lapta: análogo do críquete

Foto: Divulgação

O svaika era basicamente um jogo de lazer, mas, para jogar lapta, era preciso estar fisicamente apto. O lapta, um jogo de taco e bola muito semelhante ao críquete e beisebol, requer duas equipes: uma que lança a bola com um bastão de madeira, e a outra que tenta pegá-la, enquanto contém os membros da equipe adversária.  

Uma importante vantagem do lapta é o seu baixo custo: tudo que se precisa é de um bastão de madeira e uma bola. Segundo o escritor russo Aleksandr Kuprin, o lapta “requer sagacidade, respiração profunda, espírito de equipe, atenção, desenvoltura, velocidade, precisão, firmeza de tiro e profunda confiança de que não será derrotado. Esse jogo não é para preguiçosos ou covardes”. 

Entretanto, a origem do lapta é incerta, e não há qualquer sinal do esporte na Rússia antes de Pedro, o Grande, que introduziu o lapta no Exército russo ainda no início do século 18. Mas será que Pedro visitou a Inglaterra durante suas viagens à Europa e pegou emprestada a ideia do jogo de críquete? Nunca saberemos, mas a iniciativa de Pedro teve consequências duradouras: como meio de exercício físico, o lapta foi usado no serviço militar até o século 20, quando se tornou popular por todo o país.

Competições oficiais foram realizadas por um curto período de tempo na década de 1950, mas, desde então, o lapta se tornou um dos jogos favoritos das crianças nas regiões provincianas do país, onde passou a ser jogado nas zonas periféricas. Na década de 1980, por exemplo, na cidade russa de Tambov, o lapta era muito popular entre as crianças da periferia, mas os pequenos do centro da cidade sequer sabiam do que se tratava.

Foi somente na década de 1990 que acabou sendo estabelecida a Federação Russa de Lapta. Atualmente, a maioria das regiões do país sediam campeonatos do esporte, embora outro jogo tradicional tenha ganhado cara nova recentemente: o gorodki.

Gorodki: entre o povo e a nobreza

Foto: ITAR-TASS

De todos os jogos russos, o gorodki é o mais autêntico, com alguns análogos em outras culturas. O objetivo do jogo é derrubar os conjuntos de pinos de madeira dispostos em vários padrões, lançando um bastão contra eles.

É provável que o jogo tenha sido inventado no século 18 pelo próprio povo russo. Em 1805, o artista alemão Christian Geissler escreveu que o gorodki “só era conhecido na Rússia, porque requer uma força considerável. É jogado por pessoas fortes e resistentes que vivem nesse país severo”. Os estrangeiros também comentavam que, após o fim do jogo, os membros da equipe vencedora geralmente montavam nas costas dos perdedores – um hábito que desapareceu no final do século 19.

 

Os verdadeiros tsares do esporte

Antecipando exposição nas Olímpiadas de Sôtchi, Gazeta Russa apresenta os hobbies favoritos dos tsares russos:

O gorodki era muito popular entre as pessoas comuns nas cidadezinhas e aldeias, mas evitado pela nobreza, exceto quando estavam em serviço militar. O escritor e conde Lev Tolstói chegou a descrever si mesmo e seus companheiros da nobreza jogando gorodki no acampamento do Exército no Cáucaso.  

 

Mas, quando os soviéticos chegaram ao poder, a nobreza ficou de lado, e o gorodki ganhou destaque como jogo dos camponeses e proletários. Muitos líderes bolcheviques demonstraram sua paixão pelo gorodki. Em seus últimos anos da vida, Vladímir Lênin costumava jogar por algumas horas todas as noites, mas Iossef Stálin era ainda mais fã da modalidade.  

“Bilhar, boliche e gorodki – tudo que exigia olhar afiado costumava atrair o papai”, escreveu Svetlana Alliluieva, filha de Stálin. Sua casa de campo era equipada com uma quadra de gorodki, e ele geralmente praticava com os seus guardas. “Stálin era o melhor jogador de gorodki”, descreveu Evguêni Katzman, artista que o visitou em sua datcha. “Quando ele apontava com um bastão, o seu rosto se tornava particularmente enérgico e expressivo, como se estivesse lutando por sua opinião em um congresso do partido.”

 

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