Uma voz à oposição

Foto: RIA Nóvosti

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Unindo composição e voz, cantautores russos deram origem a movimento cultural contra o regime soviético.

Os cantautores, neologismo proveniente da união das palavras cantor e autor, começaram a ganhar popularidade na URSS ainda no início dos anos 1950. Mas, ao contrário dos demais países que também tinham seu próprios representantes, esse gênero musical foi desenvolvido na União Soviética por estudantes que cursavam Biologia, Física e História.

Música com oficiais russos vira febre na internet

 

As canções geralmente tinham por tema o romantismo da vida e sua beleza, que não eram fáceis de descortinar nas complexas condições da sociedade soviética. Bulát Okudjava, cujos primeiros discos foram produzidos em Paris, era a expressão maior destes valores. No total, escreveu e interpretou mais de 200 músicas ao longo da carreira.

Logo esse tipo de música cativou os círculos estudantis, tornou-se parte integrante do cotidiano dos intelectuais soviéticos e elemento indispensável dos que se entregavam a grandes caminhadas e gostavam de se sentar à fogueira. Ganhou tanta popularidade que, em várias cidades do país, surgiram clubes de amadores que cantavam tais canções.

Paralelamente, corriam rumores de que alguns agentes da KGB incentivavam a fundação dos clubes para justamente controlar os entusiasmos juvenis. Mas anos 1960 surgiram cantautores que deixavam transparecer críticas ao regime vigente, afastando algumas dessas suspeitas.

Aleksandr Galitch, por exemplo, iniciou sua carreira na década de 1950 como dramaturgo de talento, porém, mais tarde, optou por escrever canções politicamente mordazes. Proibido de atuar em público, seus textos foram excluídos das coletâneas, ficou impedido de gravar discos e a mídia foi colocada contra ele. Em 1974, foi privado da cidadania soviética e se viu forçado a viver no exterior, onde morreu em 1977.

Outro cantautor e ativista pelos direitos humanos, Iuli Kim, se viu compelido a publicar suas obras sob pseudônimo até 1985. Em seus relatórios oficiais, a KGB o referia como “guitarrista”. Seus textos eram sátiras abertas à sociedade soviética, algumas das canções falavam claramente de dissidentes, tribunais e buscas.

Muitos famosos cantautores da velha geração já não estão entre nós, mas suas canções continuam gozando de grande popularidade.

Ídolo da música popular russa, Vladímir Vissótski era poeta com um violão

 

Iúri Vizbor, um dos fundadores do gênero, deixou mais de 300 canções, ainda que tenha falecido cedo. Há quem acrescente a este rol o nome de Vladímir Vissótski, embora ele próprio se não considerasse cantautor. Foi um ator profissional muito requisitado, e também o mais popular intérprete das suas canções na URSS.

 

Ao redor do mundo

Histórias desse tipo aconteciam também em outros países. A popularidade dos cantautores se relacionava com movimentos sociopolíticos juvenis das décadas de 1960 e 70. Nos países socialistas, como na URSS, canções do gênero se ouviam apenas em gravações caseiras e apresentações clandestinas em apartamentos.

Na Alemanha, Itália e França, as músicas baladas eram legais do ponto de vista jurídico, embora sem espaço na TV e rádio por conta de seu conteúdo social. No Brasil, diversos intérpretes enfrentaram a resistência dos ditaduras e acharam meios para driblar a censura imposta pelo governo.

Nos EUA, essas canções começaram a se associar aos movimentos pelos direitos dos negros e de outras minorias sociais, graças a intérpretes como Joan Baez, Pete Seeger e Bob Dylan.

 

 

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