Livro traz panorama do pensamento russo no século 19

 “Quem deve aprender a escrever com quem, as crianças camponesas conosco ou nós com as crianças camponesas?”, diz Tolstói Foto: Vostock Photo

“Quem deve aprender a escrever com quem, as crianças camponesas conosco ou nós com as crianças camponesas?”, diz Tolstói Foto: Vostock Photo

Ensaios clássicos sobre literatura, cultura e sociedade russa são reunidos pela primeira vez em tradução direta do russo em antologia lançada pela Editora 34.

Empenhado na educação popular, Lev Tolstói hesita: “Quem deve aprender a escrever com quem, as crianças camponesas conosco ou nós com as crianças camponesas?”. O leitor logo notará que se trata de uma pergunta retórica. A experiência na escola que fundara em sua propriedade, Iásnaia Poliana, deixou convicto o autor de “Guerra e Paz”: só seria preciso fornecer material às crianças e inseri-las no processo criativo, não havia o que ensinar, elas iriam produzir de forma autônoma suas próprias belezas.

O ensaio de Tolstói, pontuado de exemplos recolhidos das salas de aula, é um dos 22 textos sobre literatura, cultura e sociedade russas do século 19 que fazem parte da “Antologia do pensamento crítico russo (1802-1901)”, que acaba de ser lançada no Brasil pela Editora 34. Trata-se da primeira obra desse tipo trazida aos leitores brasileiros com traduções direta do idioma original.

Além de Tolstói, figuram no volume outros mestres já conhecidos dos leitores brasileiros. O primeiro é Aleksandr Púchkin, com seu “Da insignificância da literatura russa”. No livro, ele próprio é objeto de análise de Nikolai Gógol, no ensaio “Algumas palavras sobre Púchkin”, e de Fiódor Dostoiévksi, no artigo “Púchkin”.

Gogól também é o tema de duas reflexões: “Algumas palavras sobre o poema de Gogól”, de Konstantin Aksákov, e “Carta a Nikolai Vassílievitch Gógol”, de Vissarion Bielínski. Em “O que é oblomovismo?”, Nikolai Dobroliúbov se dedica a estudar a famosa síndrome-personagem de Ivan Gontchárov (seu “Oblomov” recebeu edição recente pela Cosac Naify).

A literatura russa do século 19 deve muito ao ensaísmo, como explica o organizador da antologia, Bruno Barretto Gomide, na longa apresentação que abre a obra. “No jogo entre pensamento e ficção, difícil saber quem abastece quem. O crítico literário nada devia ao escritor; por vezes, aquele gozava de maior primazia, voz autorizada a interpretar a história e cultura russas.” Como lembra Gomide, “grandes nomes da literatura se dedicaram ao ensaio filosófico e social, nomes do ensaísmo que fizeram prosa e poesia”.

Boa parte dos autores reunidos na antologia ainda não foram “descobertos” no Brasil, apesar do peso que tiveram e ainda têm na vida intelectual da Rússia. Atuaram em campos como os da crítica literária, filosofia e história e representam as mais diversas correntes de pensamento. Assinam os ensaios ocidentalistas, eslavófilos, populistas, estetas, marxistas. Entre eles, nomes como Nikolai Karamzin, um renovador da historiografia russa no século 19, Vissarion Bielínski, esteio da critica literária russa à época, Vladímir Soloviov, filósofo de fim-de-século de grande impacto, Nikolai Fiódorov, pensador da cultura vital na Rússia, ainda que desconhecido fora das fronteiras, e Gueorgui Plekhánov, um dos primeiros críticos a tentar sistematizar a estética marxista.

Embora a literatura russa do século 19 se renove nas prateleiras brasileiras, pouco se difundiu por aqui da história das ideias da Rússia no mesmo período, como avalia o organizador do livro. Entre suas preocupações, estava a de reunir desde clássicos que costumam ser incluídos em coletâneas semelhantes até outros textos igualmente relevantes, porém menos presentes. Os temas de discussão giram em torno de identidade nacional, a função das ideias estrangeiras, o progresso e o atraso, o Estado e o povo, o papel do intelectual, a relação da arte e da sociedade. “Na primeira metade do século, há dúvidas atrozes sobre o que é a Rússia e a cultura que lhe corresponde, a viabilidade de um sistema literário próprio. Na segunda metade, aumentam os encaminhamentos políticos”, acrescenta.

Gomide, é professor de literatura russa na USP e coordena a pós-graduação e trouxe para a empreitada tradutores que fizeram parte de suas turmas: Cecília Rosas, Denise Sales, Ekaterina Vólkova Américo, Graziela Schneider, Mário Ramos, Renata Esteves, Sonia Branco e Yulia Mikaelyan. É de sua autoria o amplo estudo “Da estepe à caatinga: o romance russo no Brasil (1887-1936)”, publicado pela Edusp, e a organização da “Nova Antologia do conto russo (1792-1998)”, pela Editora 34.

Ao leitor brasileiro, a coletânea pode contribuir para “estabelecer paralelos entre os dilemas e projetos existentes nos contextos socioculturais russos e brasileiros”, observa o organizador. “A valoração das heranças ibérica e bizantina e a avaliação do peso da escravidão e da servidão são problemas que figurarão em inúmeros ensaios brasileiros e russos.” Gomide também acredita que o leitor verá muitas diferenças, “como o espaço que o pensamento religioso ocupa na tradição critica russa e o papel da intelligentsia de um modo mais potente que na tradição intelectual brasileira”.

 

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