Reveses marcam história do movimento hippie russo

Em 1971, existiam em Moscou cerca de 1.000 hippies Foto: Lev Nossov/RIA Nóvosti

Em 1971, existiam em Moscou cerca de 1.000 hippies Foto: Lev Nossov/RIA Nóvosti

No dia 28 de maio de 1971, indivíduos com roupa civil se apresentado como membros da KGB e mostrado as respectivas identificações propuseram realizar um protesto contra a Guerra do Vietnã em frente da embaixada dos EUA com a ajuda dos hippies para o dia 1º de junho. Mas a história não era bem essa.

Para se convencer da existência de hippies russos é preciso ir ao parque Tsaritsino no dia 1º de junho. Todos os anos, hippies de Moscou se reúnem debaixo de um grande pinheiro solitário, que por algum motivo todo mundo chama de carvalho. É esta a maneira de eles prestarem sua homenagem às vítimas de eventos que ocorreram mais de 40 anos atrás.

Em 1971, existiam em Moscou cerca de 1.000 hippies. O grupo se reunia em determinados pontos: no "manicômio" perto do antigo edifício da MGU (Universidade Estadual de Moscou), no "quadrado" em frente à atual prefeitura, perto do monumento a Iúri Dolgorúki, ou no "cano" da passagem subterrânea da rua Gorkovo (atual rua Tverskáia).

Século 21

Com a desintegração da União Soviética, o sistema saiu do mundo real para o virtual e passou a existir na estreita área dos fóruns online, nas páginas das redes sociais Vkontakte e Facebook. Este é um mundo único, aberto a todos, mas quase inacessível para aqueles que não precisam dele. Nos dias de hoje, os hippies já quase não se distinguem da multidão urbana comum. Em Moscou, de acordo com estimativas aproximadas, existem cerca de 1.000 hippies. Em todo o país eles são cerca de 5.000. Mas não é possível fazer o cálculo exato. Além daqueles que se assumem abertamente como hippies, há todo um exército de pessoas que, sem pensar nisso, são verdadeiros hippies.

No dia 28 de maio daquele ano passaram por esses pontos indivíduos se apresentado membros da KGB com roupa civil mostrado as respectivas identificações. Os homens propuseram realizar um protesto contra a Guerra do Vietnã em frente da embaixada dos EUA. Explicaram-lhes que pessoas inteligentes no poder lhes pediam ajuda para combater o mal mundial. Ficou então combinado que no dia 1º de junho os hippies de Moscou se reuniriam nos pontos com cartazes com slogans antibélicos e que as pessoas em trajes civis garantiriam o transporte dos primeiros e a organização do protesto.

Na manhã do dia 1º, todos estavam no local combinado. Os ônibus chegaram, e os hippies, confiando nos organizadores, entraram. Depois disso, todo o “underground” de Moscou foi levado para delegacias de polícia.

Os seus nomes foram registrados em um livro, na capa do qual estava escrito em letras grandes "HIPPIES". As autoridades trataram de estragar metódica e consistentemente a vida a todos que entraram nessa lista. Dos 500 detidos, cerca de metade foi enviada para servir na fronteira com a China e cerca de cem foram internados em manicômios. Várias dezenas deles foram presos sob acusações diversas. Dois acabaram morrendo no exército, outros dois, no manicômio. Dois se enforcaram. Os sobreviventes acabaram sendo colocados na rua com um “atestado de restrição” (uma espécie de “certificado negativo” que fechava as portas do funcionalismo público ao seu portador, deixando-o “social e profissionalmente marcado”).

Seria de esperar que a história terminasse por aqui. Mas não terminou.

Dmítri Akhtiíski, filósofo, antigo professor da Universidade Estatal Russa de Ciências Humanas, que se mudou recentemente para Nova York, conta:

“Os hippies são um fenômeno da cultura ocidental e quem se liga a eles se torna ocidental, mesmo quando venera o Oriente. Pessoalmente, os hippies não têm nenhum nome especial para se denominar. Se você perguntar a um dos nossos hippies quem ele é, ele responderá: ‘Um ser humano’. Se você for mais específico e perguntar se ele é hippie, ele vai negar. Os atributos são coisas puramente exteriores. Nem todos os hippies gostam de jogar os mesmos jogos e dar nas vistas. Mas, regra geral, acaba sempre havendo um sinal exterior, como o cabelo. Ele é para mim como uma medalha –a memória da resistência não violenta à polícia, aos arruaceiros, à sociedade civil. Ocorreu de eu ir a encontros de terno e gravata. Mas eu dava as aulas sempre de jeans rasgados e pulseirinhas de macramé.”

O perfumista e especialista em poesia e filosofia da Era de Prata Andrêi Oleinikov chegou ao "quadrado" no início de 1970. Tinha 17 anos. Era um jovem típico de boa família, da clássica intelligentsia russa, com o discurso rico e bem articulado de um aristocrata e com entonações no estilo das peças de Tchekhov. Com o seu discurso inteligente se entrelaçava de modo fácil e elegante à gíria hippie.

Andrêi Oleinikov Foto: Konstantin Salomátin/SaltImages

“Eu e um amigo decidimos passar por uma espécie de ritual de iniciação”,  diz  Oleinikov. “Era necessário se opor à realidade circundante. Tiramos os sapatos e caminhamos descalços pela rua. Evidentemente fomos detidos pela polícia, levados para a delegacia e depois, inesperadamente, nos libertaram. Vestidos com os nossos farrapos extravagantes, fomos assistir nessa noite a um concerto de órgão na sala Tchaikovski. Eram aventuras magníficas.”

Sistema

Um dos maiores mitos dos hippies é o do Sistema. Acredita-se que no final dos anos 60 ele foi criado por um tal de Solnichko (de nome verdadeiro Iúri Burrakov). Cronologicamente falando existiram três Sistemas. O primeiro, que durou até o início da década de 1970, foi o Sistema das grandes bebedeiras e pouca cultura. O seguinte, que se formou no final de 1970, era constituído por grupos mais intelectuais e se desintegrou sob a forte influência da religião ortodoxa. O último se formou em meados dos anos 1980, mas também acabou com a Ortodoxia, que salvava de todos os excessos da liberdade –drogas, solidão– e, ao mesmo tempo, da própria liberdade em si.

As conversas nos encontros de grupos eram compostas por dramas e martírios: havia aquele que se atirou da janela, o outro que morreu no manicômio ou aquele terceiro que morreu de overdose. Há ainda o famoso hippie Krasnochtan, que acabou virando sem-teto e foi espancado em uma das travessas da rua Arbat. Volódia Psalomchik virou traficante de cocaína: como resultado levou 33 facadas e morreu no local. Já Ian Smertnik pirou de vez: molhou o seu amigo com gasolina e lhe jogou um fósforo. Foi preso e morreu na prisão.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

 

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