Moda para esquentar o corpo (e o status)

Casacos com adornos de pedras e fios de ouro reforçavam posição social na Idade Média Foto: Getty Images/Fotobank

Casacos com adornos de pedras e fios de ouro reforçavam posição social na Idade Média Foto: Getty Images/Fotobank

Inverno na Rússia é sinônimo de termômetros marcando - 20ºC, neve sob os pés, narizes vermelhos e, é claro, casacos de pele – a única forma segura de se proteger do frio. Mas a história mostra que casaco de pele russo é tão importante para se proteger do frio quanto para manter a imagem de poder.

Há muito tempo o casaco de pele deixou de ser apenas uma fonte de calor e se tornou um verdadeiro fenômeno cultural na Rússia, com suas sutilezas sociais e de estilo, além de possuir uma rica história.

Os sobretudos de pele eram um componente indispensável do guarda-roupa desde os tempos antigos. O traje mais comum era o "kojukh", um casaco que chegava até os calcanhares e era confeccionado a partir da pele de nove ovelhas. A “dokha”, uma espécie de casaco feito de pele de potros ou de bezerros, também era bastante comum no passado, assim como o “tulup”, feito com pele de lebre ou carneiro.

O preço das peles sempre foi alto, contudo. Esses objetos eram frequentemente usados como moeda para o pagamento de mercadorias valiosas. Por isso, não era raro as famílias pobres possuírem apenas um “tulup” para o uso de todos e que era repassado por herança.

Fonte: A. Sverdlov/RIA Nóvosti

Na Rússia medieval, os príncipes e boiardos (elite social da época) tinham verdadeiras coleções de luxuosos casacos de pele confeccionados com raposa, raposa-do-ártico ou de zibelina. A partir do século 15, os casacos de pele começaram a receber bordados com fios de ouro ou pedras preciosas. Era comum "passear” com os casacos, mesmo no verão ou ao receber visitas em casa, apenas para demonstrar status.

Além disso, a realeza tinha necessariamente que possuir uma grande quantidade de artigos confeccionados com pele, pois eram o trajes usados em ocasiões solenes, como a subida ao trono, caçadas e festas. 

Foto: RIA Nóvosti

Influência europeia

Os casacos de pele ganharam novos cortes à medida que foram se popularizando como um item de moda. Os modelos trespassados, com costas e abas retas, mangas longas e retas e gola aberta foram ganhando popularidade até que, no século 19, surgiram os casacos de pele acinturados. Independentemente do corte, os casacos de pele eram fechados da direita para a esquerda por botões ou ganchos.

Entre o último trimestre do século19 e o início do século 20, muitas aldeias russas aderiram à moda dos casacos de pele com cintura destacável, apenas nas costas ou em toda a sua volta, com pregas próximas à cintura. A interação com a Europa Ocidental foi também aprimorando o casaco de pele russo, tornando-o mais elegante.

Foto: ITAR-TASS

Pele na URSS

Ao contrário do que era de se esperar, a produção de casacos de pele durante o período soviético não diminuiu, mas pelo contrário. Havia grandes fazendas de produção de peles e empreendimentos especializados na reprodução de animais em cativeiro. Em substituição aos alfaiates caseiros, brotaram fábricas de peles, que produziam  quantidades limitadas.

Uma das maiores indústrias, na cidade Tchita, no Extremo Oriente russo, operava basicamente para atender às necessidades do exército soviético. Por causa das forças envolvidas na Segunda Guerra Mundial, essa fabrica trabalhou ininterruptamente entre os anos de 1941 e 1945. Há quem diga que o “tulup” russo teve contribuição igual ao equipamento militar para a vitória soviética.

 

Foto: Vladimir Vyatkin/RIA Nóvosti

Com a queda da União Soviética, o casaco de pele reconquistou a sua relevância tanto como sinal de status, como símbolo do estilo burguês readquirido e da feminilidade.

 

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