“Tropas soviéticas deram um futuro à Alemanha”, diz historiador alemão

Parzinger foi agraciado com a Ordem da Amizade Foto: AFP/East News

Parzinger foi agraciado com a Ordem da Amizade Foto: AFP/East News

Hermann Parzinger fala sobre a complexidade das relações russo-alemãs no século 20 e o papel da consciência no desenrolar dos fatos.

“Encontrar pontos de contato, e não pecar contra a verdade”. Este é o mantra defendido pelo professor Hermann Parzinger, presidente da Fundação da Herança Cultural Prussiana, uma das principais organizações culturais alemãs que coopera ativamente com a União de Museus da Rússia.

Mas Parzinger é também um dos maiores especialistas em arqueologia da Europa e fez contribuições inestimáveis ao estudo dos povos antigos da Rússia. Em 2001, descobriu o túmulo de um rei cita em Kurgan, do qual extraíram cerca de 6.000 artigos de ouro, e conquistou fama mundial.

Rossiyskaya Gazeta: As histórias unem os povos ou criam confrontação na sociedade?

Hermann Parzinger: Qualquer história é capaz de unir o povo, se não for desfigurada pela propaganda ou não for uma ferramenta nas mãos dos políticos. A política pode arrebatar do um ou outro fato do contexto histórico. Mesmo assim, a sociedade que mais se protege da manipulação é aquela que atenta cuidadosamente ao passado e não só folheia as suas páginas desagradáveis.

RG: A Alemanha ainda está muito atenta ao seu passado...

Orgulho russo

Pelas proeminentes descobertas científicas e ativa participação no desenvolvimento das relações culturais e científicas russo-alemãs, Parzinger foi agraciado com a Ordem da Amizade, a mais alta condecoração da Rússia concedida a estrangeiros.

HP: É importante conhecer a história não só como uma lista de acontecimentos. No século 20, perdemos duas guerras mundiais e era necessário responder a muitas perguntas. Por que essa guerra começou, por que nós nos tornamos uma nação de agressores, por que nós não percebemos onde nos levaria Hitler? Por que os alemães se calavam quando os nazistas cometiam crimes em território ocupado? Não é possível responder a essas questões “por cima”. Para todos os alemães, essas questões eram muito pessoais. Eu as fiz aos meus pais.

RG: E o que eles responderam?

HP: Disseram apenas: “Nós não sabíamos. Não acreditávamos que isso poderia ocorrer e pensávamos que fosse uma propaganda antialemã”. A ignorância ou a falta de vontade de saber a verdade eram evidentes diante dos fatos. Mas o mais importante é que agora não sejam esquecidos.

RG: E como conseguir isso?

HP: Não se separando do passado. Na Alemanha, existem memoriais no lugar dos campos de concentração. Museus podem fazem muito pela história e podem evidenciar assuntos apolíticos e pontos sensíveis da história que deram origem à guerra.

RG: O que une a memória de russos e alemães?

HP: Tragédia, apesar de olharmos para ela sob diferentes pontos de vista. Para a URSS, é possível medi-la pela perda de mais de 27 milhões de vidas. Para nós, alemães, não só a com as perdas humanas, mas pela consciência de que nós fomos os agressores. Ao que me parece, também nos une o entendimento de que a URSS, com ajuda dos aliados da coalizão antinazismo, libertou os alemães do fascismo, aquilo que eles mesmos não puderam. De certo modo, Tropas soviéticas deram um futuro à Alemanha.

RG: Os aliados que entraram na guerra no fim das atividades militares e destruíram algumas cidades são tidos pela consciência da massa alemã como libertadores, enquanto as tropas soviéticas, que suportaram os monstruosos encargos de quatro anos de guerra, são vistas como conquistadoras e tiranas. Por quê?

HP: Infelizmente, pela consciência coletiva, vocês pareciam ainda pior. A questão não está só na propaganda sobre os bárbaros russos nem na lavagem cerebral da Alemanha Ocidental. Claro que os soldados soviéticos entraram nas cidades da Alemanha com disposição diversa dos aliados; no fronte leste, a guerra foi outra, sem precedentes em crueldade. Muitos dos seus soldados perderam parentes, de maneira que o endurecimento deles é compreensível. E os alemães o tinham por pena, punição. Mas depois surgiu o Muro de Berlim, o regime comunista da Alemanha Oriental, os acontecimentos no Leste Europeu de 1956 e 1968... Mas ninguém nunca contestou o papel da URSS na vitória sobre a Alemanha nazista.

 

Publicado originalmente pela Rossiyskaya Gazeta

 

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