A faceta refinada e rabugenta do autor de “Lolita”

“Nabokov é não apenas um grande escritor, mas também um leitor refinado e um professor notável" Foto: Photoshot / LegionMedia

“Nabokov é não apenas um grande escritor, mas também um leitor refinado e um professor notável" Foto: Photoshot / LegionMedia

Lançamento de títulos pelo selo Três Estrelas reunirá aulas do escritor russo Vladímir Nabokov.

Especializado em livros de não ficção e de divulgação científica, o selo Três Estrelas, da editora Publifolha, promete o lançamento de dois livros que reúnem aulas do escritor, professor e tradutor Vladímir Nabokov (1899-1977). Nascido na Rússia, ele tem entre seus romances mais conhecidos “Lolita” (1955), mais tarde adaptado para o cinema por Stanley Kubrick.

As aulas de Nabokov abrangem a literatura russa e mundial e foram ministradas no exílio nos EUA, onde o russo viveu a partir dos anos 1940. "Lectures on Russian Literature" ("Lições de Literatura Russa") já está traduzido e será lançado no início do segundo semestre de 2014, disse à Gazeta Russa o editor do Três Estrelas, Alcino Leite Neto. Já "Lectures on Literature" ("Lições de Literatura") tem lançamento previsto para o final de 2014 ou início de 2015.

“Nabokov é não apenas um grande escritor, mas também um leitor refinado e um professor notável. É uma delícia de ler. Creio que sua maior contribuição é a liberdade intelectual, política e moral com que analisa os autores e as obras. Esses livros trazem as lições de um homem livre para leitores que apreciam a liberdade”, explica Leite Neto.

Segundo ele, as ilustrações serão as mesmas da edição americana, com manuscritos e desenhos de Nabokov, mas o acréscimo de eventuais prefácios, posfácios e análises críticas ainda passarão por uma avaliação editorial.

As traduções estão a cargo do embaixador aposentado Jorio Dauster, que já verteu para o português várias obras de Nabokov, inclusive “Lolita”, “Fogo Pálido” e “Ada ou Ardor - Crônica de uma Família”. A Gazeta Russa entrevistou o tradutor com exclusividade:

Jorio Dauster, que já verteu para o português várias obras de Nabokov e está encarregado da tradução das novas obras

Gazeta Russa: O que leva a um interesse pela não ficção de Nabokov na atualidade?

Jorio Dauster: Nascido na Rússia, em berço de ouro, Nabokov escapou da Revolução bolchevique para se exilar na Alemanha, de onde novamente teve de fugir quando o nazismo passou a ameaçar até mesmo sua mulher judia.

Ele chegou aos Estados Unidos no início da década de 1940 sem um tostão e as aulas de literatura que deu em Wellesley e Cornell foram seu ganha-pão até 1958, quando o sucesso de “Lolita” lhe garantiu a independência financeira e permitiu o retorno à Europa.

Como não acredito que Nabokov tivesse uma vocação genuína para o magistério, somente graças a seus infortúnios pessoais temos a chance extraordinária de conhecer as opiniões de um dos maiores autores do século 20, sobre seus antecessores. O que surpreende é o leitor brasileiro ter sido obrigado a esperar tanto tempo para desfrutar tamanho prazer.

GR: Na sua opinião, os livros deixam transparecer uma faceta mais teórica no romancista russo?

JD: As lições de Nabokov nada têm de “teórico”, pois seu ensinamento básico é o de que a literatura precisa apenas estimular o senso estético do leitor para ser boa, não devendo jamais servir como veículo para a divulgação de “ideias” ou “mensagens”. A maioria dos tradutores é desancada sem dó nem piedade [por ele], e os alunos são instados a jamais se identificarem com qualquer personagem.

GR: O leitor brasileiro pode esperar uma leitura acessível, então?

JD: As “Lições” não são destinadas a especialistas pois foram dadas a jovens norte-americanos cujo nível cultural era em geral muito precário. Lê-las representa um ganho para qualquer pessoa que sinta prazer na leitura e queira desenvolver sua sensibilidade com respeito a algumas obras muito famosas. É como visitar um museu tendo como cicerone um grande pintor.

GR: A convivência nos ambientes culturais dos EUA influenciou Nabokov?

JD: Ele se encantou com muitas facetas da cultura norte-americana, mas, tendo chegado aos EUA com quase 50 anos, já tinha a cultura cristalizada de um europeu altamente sofisticado e extremamente opiniático. Que eu saiba, ele só teve uma relação mais íntima com Edmund Wilson – e essa acabou em briga feia devido às críticas do ensaísta à  tradução feita por Nabokov do grande poema “Evguêni Onéguin”, de Púchkin.

GR: O que o surpreendeu mais nas análises de Nabokov?

JR: Ele toma posições claras, positivas ou negativas, com relação a cada autor. Em matéria de prosa, lista como seus autores favoritos, em ordem decrescente, Tólstoi, Gógol, Tchekhov e Turguêniev. E, numa típica tirada nabokoviana, diz que, como isso se parece muito com dar notas aos alunos, tem certeza de que Dostoiévski estará esperando do lado de fora do escritório para reclamar de sua má nota. O leitor brasileiro desejará estabelecer sua própria ordem, que não precisa se parecer com a do rabugento professor.

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