Teresópolis guarda tesouros da culinária russa

Fruto de história de amizade, restaurante fluminense foi criado por casal de russos Foto: Tasso Leal

Fruto de história de amizade, restaurante fluminense foi criado por casal de russos Foto: Tasso Leal

Fruto de história de amizade, restaurante fluminense foi criado por casal de russos e repassado a brasileiros que seguem sua tradição à risca.

Quem passa pela casa de muros altos em uma rua estreita de Teresópolis, no Rio de Janeiro, não imagina que ali funcione um restaurante de culinária russa.

Aberto em 1964, o Dona Irene começou como uma prova de amizade. Em 1951, o casal de imigrantes russos Mikhail Flegontovich Smolianikoff e Eupraxia Wladimirovna chegou ao Brasil após uma longa trajetória.

Mikhail era oficial da guarda militar russa e teve que fugir do país com a chegada da revolução. Junto com a mulher e os filhos, mudou-se para a China. Quando o governo chinês começou a expulsar estrangeiros do país, na década de 1950, decidiram ir para o Brasil.

O casal se estabeleceu primeiro no Paraná e, mais tarde, mudou-se para a cidade de Teresópolis, no Rio de Janeiro. Ali conheceram José e Maria Emília Hisbello, vizinhos que se tornaram amigos.

Cearense, José Hisbello se mudou para o Rio de Janeiro ainda jovem, falava russo e começou a ajudar o casal de imigrantes a se adaptar ao país.

“Sempre gostei do idioma russo e já falava a língua quando eles chegaram à cidade, por isso era um dos poucos com quem Mikhail e Eupraxia conseguiam se comunicar. Então comecei a ajudá-los a se adaptar ao país. Com nomes difíceis de ser pronunciados por brasileiros, eles acabaram conhecidos como Miguel e Irene”, conta José.

José e Maria (na foto) assumiram o restaurante em 1986, quando Irene e Miguel, já idosos, o deixaram Foto: Tasso Leal

Os dois russos trabalhavam em lavouras da região e, para complementar a pouca renda, Irene vendia pirojki, pequenos pastéis de carne cuja receita trouxe da Rússia. Fã das guloseimas, o engenheiro José Hisbello começou a vendê-los no trabalho para ajudar o casal.

“Os dois já tinham bastante idade para continuar trabalhando na lavoura. Foi então que tive a ideia de montar um restaurante que pudesse garantir uma vida melhor para eles.”

Batizado de Dona Irene, o restaurante começou de maneira bem simples, em uma pequena casa comprada por Hisbello, com espaço para atender no máximo 20 pessoas. Ali, Irene preparava pratos como o frango à kiev, peito de frango recheado com molho de manteiga, e o varênique, espécie de ravióli russo recheado com batatas e ervas.

“Para divulgar o restaurante, o José convidava os colegas de trabalho para comer de graça e pagava as refeições do próprio bolso. Ele vivia distribuindo folhetos na empresa, e os colegas até achavam graça”, recorda Maria Emília. 

Irene e Miguel administraram o restaurante até 1986, quando, já idosos, deixaram que José e sua esposa assumissem o comando do negócio.

Maria Emília aprendeu a preparar os pratos típicos da Rússia com a amiga Irene e ainda hoje, aos 79 anos, é a responsável pela cozinha.

Seu marido, aos 84 anos, atua como um simpático anfitrião, sempre disposto a conversar com os clientes que vêm de diversos lugares para provar o banquete russo preparado por Maria Emília.

Organizada à moda dos tsares russos, a refeição é dividida em quatro etapas. Na primeira, são servidas cerca de dez pequenas entradas, que incluem arenque defumado, salada de alho-poró, patê de berinjela e pães variados.

Logo no início da refeição também é possível provar uma dose de vodca artesanal, o "samagon", produzido no próprio restaurante seguindo uma receita de Miguel.

Após as entradas é servido o borsch, sopa de beterraba muito tradicional na Rússia e no Leste Europeu. Em seguida é a vez dos pirojki, produzidos da mesma maneira que Irene fazia há 50 anos.

A terceira etapa é reservada para o prato principal, com opções como o croquete pojárski, almôndega de frango com queijo gorgonzola ou manteiga, e o já conhecido e amado pelos brasileiros estrogonofe.

O frango à kieve os varêniques também continuam no cardápio.

Foto: Tasso Leal

"As receitas são as mesmas desde a inauguração, dona Irene dizia que se a pessoa volta é porque gostou e não vai querer encontrar algo diferente”, explica Maria Emília.

A refeição é encerrada com diversas opções de sobremesas, chá e café. O menu completo custa R$ 110 por pessoa e não inclui bebidas.

Mudança

Até 1998 o restaurante continuou funcionando na pequena casa que foi de Miguel e Irene, quando foi transferido para um espaço maior, com capacidade para cerca de cem pessoas.

Miguel não chegou a conhecer o novo local, pois morreu em 1994, aos cem anos de idade. Viúva, Irene se mudou para os Estados Unidos, onde foi viver com a filha e morreu aos 95 anos, em 2006.

Em uma das visitas que fez ao Brasil depois que se mudou, ela pôde ver as mudanças feitas no restaurante que leva seu nome.

“No começo as toalhas eram de plástico e os copos feitos com vidros de geleia, tudo extremamente simples. Quando dona Irene veio para o Brasil e viu as toalhas de tecido, os copos e pratos novos, ela disse para mim: ‘Eu sabia que você iria cuidar do restaurante e deixá-lo bem melhor’”, recorda Maria Emilia.

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