Grupo de arte de São Petersburgo recria pintura clássica

Foto: RIA Nóvosti

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A ideia por trás da recriação da pintura “Ivan, o Terrível, e o Seu Filho Ivan” pelo grupo Mitki é que presentear Ivan com um novo filho no lugar do que ele teria supostamente matado curaria as feridas da sociedade russa acerca do tema.

O czar Ivan, o Terrível, está ajoelhado num tapete persa. Uma multidão vestida com camisolas de marinheiro entra em seus aposentos. Trazem um nenê de fralda, que entregam ao czar. Trata-se do quadro intitulado “Os Mitki Dão a Ivan, o Terrível, um Novo Filho”, obra de um grupo de arte Mitki, criado em de São Petersburgo nos anos 1980. A ideia por trás da pintura é que presentear Ivan com um novo filho no lugar do que ele teria supostamente matado curaria a as feridas da sociedade russa acerca do tema. 

A união artística Mitkí reúne artistas que vestem camisolas de marinheiro, propagam uma forma contempladora e benevolente de encarar o mundo e “não querem vencer ninguém”, segundo o lema do grupo. A filosofia destes artistas é partilhada por muitas estrelas russas: escritores, músicos e até por Valentina Matvienko, a presidente do Soviete da Federação (câmara alta do Parlamento da Federação da Rússia).

Quando era governadora de São Petersburgo, Matvienko costumava passar pelo atelier dos Mitki envergando também uma camisola de marinheiro. O movimento foi batizado com o nome de um dos seus fundadores, o artista Dmítri Chaguin, sendo Mitki o diminutivo plural de Dmítri.

Os Mitkí possuem uma rica experiência como pacificadores. Dois dos seus quadros fariam inveja a qualquer especialista em regularização de situações conflituosas. Um se chama “Os Mitki Oferecem Suas Orelhas a Van Gogh”; outro, “Os Mitki Tiram a Pistola a Maiakóvski”. Como se sabe, Van Gogh cortou uma orelha de propósito, enquanto o poeta russo Vladímir Maiakóvski se suicidou com um tiro de pistola. Desta vez, os Mitkí decidiram dar outro filho a Ivan, o Terrível, em substituição ao que foi assassinado. Para que todos se sintam bem.

O czar Ivan é uma figura profundamente contraditória da história da Rússia. Uns o consideram muito cruel e o acusam de cometer crimes contra o próprio povo; outros, acham que ele foi um grande monarca, que alargou o território do país. Se quisermos entrar em paralelismos históricos, o mais parecido com ele será Henrique 8º, da Inglaterra. Parte pró-ocidental da sociedade russa encara Ivan, o Terrível, de forma extremamente negativa, enquanto os conservadores e fundamentalistas ortodoxos o colocam num pedestal.

Entre outras crueldades, a lenda lhe atribui o assassinato do próprio filho. Centenas de anos depois –na segunda metade do século 19– Iliá Repin, corifeu da pintura realista russa, resolveu transpor esse drama para a tela.

No quadro de Répin, “Ivan, o Terrível, e o Seu Filho Ivan”, o czar está abraçando seu descendente ensanguentado depois de lhe ter batido no osso temporal com algo pesado, comprido e afiado. O rosto do czar deixa transparecer horror pelo que fez, arrependimento e esta interrogação: “E agora, quem me sucederá no trono?”

O imperador Aleksandr 3º, contemporâneo do pintor, não gostou nada do quadro. Para ele, além de representar seu antepassado de forma pouco abonatória, a obra de Répin relatava uma falsidade histórica. Claro que no final do século 19 não era possível provar que a morte do filho do czar teve outra causa, mas a intuição não enganou o imperador. Em 1963, os túmulos do czar e do filho foram abertos para uma perícia, a qual concluiu que os restos mortais do último continham substâncias tóxicas como arsênico, mercúrio e chumbo em doses 33 vezes superior à normal, a real causa da sua morte.

Em 1885, Aleksandr 3º proibiu que o quadro fosse exposto, mas mudou de opinião três meses depois, pois os ventos do liberalismo tinham chegado à Rússia. Em 1913, a obra-prima de Répin foi vandalizada por Abram Balachóv, pintor de ícones dos velhos crentes. Este deu três facadas no quadro, dois golpes mais do que a lenda diz ter dado o czar em seu filho. Se fala que Khruslov, conservador da Galeria Tretiakóv, se jogou na frente de um trem quando soube o que acontecera ao quadro.

Nos dias de hoje, a história da referida obra de Repin teve um seguimento inesperado. Em outubro deste ano, Vassíli Boiko-Velíki, um empresário de confissão ortodoxa, exigiu que o quadro fosse retirado da exposição na Galeria Tretiakov, para não conspurcar as mentes da juventude. Boiko-Velíki, líder do movimento social religioso Grande Rússia, escreveu uma carta aberta nesse sentido ao ministro da Cultura e à diretora da galeria. O empresário, proprietário de uma fábrica de laticínios, exige que todos os empregados sejam batizados, estudem bases da cultura ortodoxa, e despede quem não acate sua ordem de se casar pela igreja o mais rapidamente possível.

Claro que a resposta de Irina Lebedeva, diretora da galeria, foi negativa. Ninguém tirará o quadro da parede em que esteve dezenas de anos. Sobre o assunto, Vladímir Medínski, ministro da Cultura, afirmou: “Espero que a carta tenha sido uma brincadeira. No entanto, se falar a verdade, há brincadeiras que não têm graça nenhuma”.

Os Mitki resolveram responder à brincadeira sem graça com outra bem engraçada. Não se sabe se Boiko-Velíki compreenderá, mas pelo menos esta foi com boas intenções.   

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