A história dos trajes dos combatentes da Revolução de 1918

Aspecto dos membros do Exército Vermelho era muito colorido e nada uniformizado Foto: ITAR-TASS

Aspecto dos membros do Exército Vermelho era muito colorido e nada uniformizado Foto: ITAR-TASS

O que se vestia na Rússia que derrubou o czarismo e ardia nas chamas da guerra civil? Algo selvagem, eclético e belo.

Uns caminhavam com entusiasmo para o comunismo; outros choravam o passado. Ambos estavam desenraizados do modo de vida antigo, ainda que o novo não se tivesse estabelecido.

O aspeto dos combatentes do Exército Vermelho, de operários e camponeses, constituído em fevereiro de 1918, era muito colorido e nada uniformizado. Os que se alistavam sob as bandeiras vermelhas faziam-no com as roupas que vestiam no dia em que a guerra os apanhou.

O novo poder não tinha dinheiro nem possibilidade de dar aos militares fardas decentes. Os soldados do Exército Vermelho se vestiam como civis, com uma banda vermelha na manga, ou simplesmente envergavam roupa avermelhada.

Foto: Víktor Bulla

Um testemunho dessa época: “Passou agora mesmo a cavalaria vestida de vermelho dos pés à cabeça e calçada de polainas brancas, parecendo mais uma exército de índios do que o novo Exército Vermelho.”

Era raro encontrar duas pessoas vestidas da mesma maneira. Um usava capote militar e gorro de pele cossaco, culote vermelho e revólver “nagant” ao cinto; outro vestia casaco de cabedal coçado, camisola de marinheiro, calças de boca-de-sino, como era usado na marinha, e boina sem fitas.

Algumas unidades usavam uniformes czaristas oriundos dos armazéns capturados. Por isso, os uniformes da cavalaria revolucionária eram os mesmos dos esquadrões dos hussardos czaristas, fato que, por vezes, dava origem a perigosas confusões.

A Guarda Branca também parecia mais um grupo de bandidos do que representantes do exército imperial. As fardas eram gastas e até as platinas tinham que ser desenhadas nos capotes. Os camponeses ricos, tão odiados pelos comunistas, trajavam camiseiros de aldeão, calças largas, botas de feltro e casaco de pele.

Foto: RIA Nóvosti

O novo poder tinha consciência de que tanto o exército como todo o país precisava de um símbolo, de um “sinal de marca”. Em 1918, foi aberto concurso para o melhor desenho das fardas do exército e da marinha. Deste modo, o Exército Vermelho foi brindado com um uniforme que se tornou lendário: pontiagudo gorro de feltro, chamado “bogatirka”, já que representava capacetes estilizados dos antigos guerreiros russos, os “bogatir”, camiseiros e capotes compridos de lapelas e canhões das mangas virados, como os atiradores militares dos tempos anteriores a Pedro 1º.

Os historiadores, porém, dão outra versão. Segundo eles, aqueles uniformes, da autoria dos famosos pintores Vassnetsóv e Korovin, estavam nos depósitos militares, prontos para usar, quando os “vermelhos” se apoderaram deles.

Os uniformes haviam sido encomendados pelo imperador para a parada que  deveria ter sido realizada em Berlim em 1917 para comemorar a vitória dos exércitos aliados, nos quais se incluía o czarista, sobre a Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Isso parece ser verdade, já que Vasnetsóv se inspirou nos antigos guerreiros russos tanto em seus quadros como em seus cartazes patrióticos da Primeira Guerra Mundial.

A cavalaria vermelha de Budióni foi a primeira a receber os novos uniformes, daí o novo nome do gorro pontiagudo: “budiónovka”.

Foto: ITAR-TASS

Em vez da águia bicéfala, os gorros ostentavam estrelas de cinco pontas de várias cores, correspondendo cada uma a sua arma: azuis – cavalaria; azuis claras – aviação; cor-de-laranja – artilharia, e assim por diante. Foi deste modo que o exército surgiu de aspecto civilizado e até com certo estilo, tendo a “budiónovka” como seu símbolo.

A “budiónovka” tem tanta originalidade que até hoje há quem a use para acompanhar roupa e calçado civil: botas de lona, blusa à Tolstoi e calças de ganga. Seja em sinal de nostalgia patriótica, seja em sinal de protesto contra a sociedade de consumo.     

 

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