Ópera de Dmítri Chostakovitch estreia em NY

Já nessa semana os espectadores terão prazer de assistir o resultado de mais uma transformação de uma grande obra literária num grande espetáculo.

O libreto da primeira opera do Dmitri Chostakovitch, famoso compositor russo do século XX, não apenas baseia-se na novela satírica de Nikolai Gogol, grande escritor russo que viveu no século XIX, mas inclui quase todos os detalhes da sua trama fantástica que se envolve em torno do major Kovaliov, um funcionário público de médio escalão e morador de São Petersburgo, que, ao acordar um dia, percebe a ausência do próprio nariz. O protagonista logo descobre que esta parte importante da sua face atingiu o tamanho de uma pessoa adulta, veste um uniforme de funcionário de escalão mais alto, vive a vida própria e não deseja manter nenhum contato com o seu antigo proprietário. A situação extraordinária possui apenas uma saída: o nariz deverá ser capturado e devolvido no seu lugar antigo para que não sejam afetados o crescimento profissional do major e seus planos para um bom casamento. Além dos leitores da obra literária, os espectadores teatrais também terão chance de observar o absurdo e a fantasmagoria da trama, assim como os seus eventos cômicos e trágicos ao mesmo tempo.

Tanto o autor de "O Nariz", quanto o compositor da opera, criaram as suas respectivas obras no auge da sua juventude. Nikolai Gogol terminou a novela em questão na década de 30 do século XIX, aos seus 23-24 anos de idade, enquanto a opera do compositor Chostakovitch ficou pronta em 1928, aos seus 22 anos. Talvez esta seja uma explicação do caráter extraordinário desta história ousada que deu origem a uma versão dinâmica do palco. No entanto, no momento de criação de "O Nariz", ambos os autores já foram conhecidos pelo público em geral: o jovem compositor havia conquistado a fama internacional pela sua Sinfonia n.º 1, enquanto o escritor havia demonstrado o seu talento através de uma coleção de histórias curtas "Noites na Granja próximo a Dikanka" baseadas nos contos do povo ucraniano.

Desde o dia da sua publicação em 1836, "O Nariz" percorreu um longo caminho até ser aceito pelos leitores contemporâneos. Apesar das múltiplas críticas que obrigaram o seu autor, Nikolai Gogol, a alterar algumas partes do livro, a obra foi aprovada por Aleksandr Puchkin, um grande poeta russo, e publicada na revista Sovremennik fundada por ele. Até o presente momento, a novela conseguiu conquistar o reconhecimento dos leitores, virou uma peça de teatro, foi minuciosamente analisada pelos críticos literários que ficaram impressionados com o talento do Gogol e compararam-o com Franz Kafka, além de ser adaptada para o cinema. No centro de São Petersburgo foi instalado um monumento em homenagem ao nariz do major Kovaliov e criado um prêmio literário "Nariz" no ano de 200o aniversário do Nikolai Gogol.

The Nose: Gallop (Interlude) by Shostakovich. Source: Youtube / Metropolitan Opera

No entanto, a opera do Chostakovitch baseada na novela não teve a mesma sorte: após a estreia em 1930 e apenas 16 demonstrações, já no ano seguinte ela foi retirada da programação e informalmente proibida devido à realização de uma campanha contra o formalismo incluída na agenda da União Soviética daquela época. A obra voltou aos palcos apenas em 1974.

Quase um século separa a obra literária e a sua adaptação teatral. Mas a escolha de uma novela escrita por Gogol para uma adaptação musical do Chostakovitch não nos surpreende. O compositor é um grande fã do escritor, o fato comprovado por uma grande quantidade de trechos das obras do Gogol, tais como "Almas mortas", citadas não apenas no livro das memórias do compositor, mas também nas suas entrevistas e até incluídas no libreto de "O Nariz" criado em colaboração com Evguêni Zamiatin, autor do romance distópico "Nós", e outros dois escritores.

Nas páginas dos jornais soviéticos, o próprio Chostakovitch deixou o seguinte comentário referente à sua obra: "O contraste entre a ação cômica e som grave da orquestra sinfônica permite criar o principal efeito teatral. A presente técnica me parece adequada, pois o próprio Gogol descreve os acontecimentos absurdos da trama com um tom expressamente sério..." No seu livro de memórias, Chostakovitch admitiu que a sua adaptação de "O Nariz" não foi destinada a ser "uma comédia". Em sua opinião, a história é extremamente trágica, pois uma perseguição policial não pode ser considerada algo divertido. O texto da obra diz: "Os policiais estão por toda parte, ninguém pisa, nem deixa um pedaço de papel cair sem a sua supervisão". O próprio Chostakovitch, testemunha da Revolução Vermelha, possui certo receio em relação à multidão de pessoas, onde "cada indivíduo é um pouco esquisito, mas gente boa. Mas todos juntos é uma multidão violenta". Além disso, o compositor não considera engraçada a imagem do próprio Nariz: "Sem nariz ninguém é considerado uma pessoa, no entanto, um nariz é capaz de não apenas virar gente, mas ocupar um cargo importante. Não há nenhum exagero nisso, a história é completamente real".


Foto: Press photo

No processo de criação do libreto em questão, Chostakovitch conheceu Vsevolod Meyerhold, famoso diretor e inovador, e foi convidado para trabalhar no seu teatro em Moscou como responsável pelo acompanhamento musical de suas peças e compositor exclusivo. Como Chostakovitch ficou hospedado no seu apartamento, talvez a proximidade ao mundo teatral e às ideias geradas pelo diretor tenha contribuído à "igualdade dos elementos de ação e música, onde não existe a dominação de nenhum dos dois" que, segundo o compositor, é uma das principais características da sua opera. Desta forma, conclui ele, "eu tentei criar uma combinação de música e apresentação teatral".

O papel principal do espetáculo do William Kentridge a ser apresentado no palco da Metropolitan Opera foi atribuído ao barítono brasileiro Paulo Szot que conquistou os espectadores e críticos ainda em 2010 no mesmo lugar e com a mesma parte, a primeira da sua carreira. Pavel Smelikov, um dos mais jovens representantes do Teatro Mariinski de São Petersburgo, será o regente da orquestra sinfônica.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.