Moscou ganha pintura de dupla de grafiteiros brasileiros

Artista dá últimos retoques no enorme mural de um edifício no centro de Moscou Foto: AFP / East News

Artista dá últimos retoques no enorme mural de um edifício no centro de Moscou Foto: AFP / East News

A pintura “A Bailarina” é uma homenagem a Máia Plissétskaia, um dos principais nomes do balé russo.

Parte do festival A Melhor Cidade da Terra, em Moscou, e como apoio do Museu de Street Art de São Petersburgo e do estúdio da arte de rua Novatek Art, em Moscou, os grafiteiro brasileiros Eduardo Kobra e Agnaldo Brito, do Studio Kobra, desenharam um enorme grafite em uma das principais ruas de Moscou, nos arredores do Teatro Bolshoi. A pintura “A Bailarina” é uma homenagem a Máia Plissétskaia, um dos principais nomes do balé russo.

Em entrevista à Gazeta Russa, Kobra falou sobre sua técnica de desenho, seu processo de trabalho e como ele escolhe as personagens para suas imagens.

Gazeta Russa - Por que você escolheu uma bailarina como um símbolo e associação, ligada à Rússia?

Eduardo Kobra - O meu trabalho tem como base imagens históricas e personalidades icônicas. Então, em cada lugar por onde nós passamos, eu procuro fazer uma pesquisa com imagens. Dentro dessa pesquisa eu procuro encontrar imagens que contenham a história do lugar, personalidades da história do lugar. Eu não poderia pintar qualquer coisa simplesmente pela plástica ou simplesmente pela importância, eu também pinto porque eu gosto. Decido por determinada imagem por se tratar de uma imagem que de certa forma tem a ver com o meu universo, com as coisas de que eu gosto.

Ao chegar aqui, fomos a algumas bibliotecas e livrarias. Comecei a ver muitas coisas. Eu não trouxe uma imagem pronta do Brasil para cá. A minha primeira ideia era fazer uma pintura sobre Ana Pavlova. Depois fiquei entre Pavlova e Plisetskaia. Por causa do formato e das proporções do muro eu encontrei melhor as imagens referentes a Maia. São melhores para o espaço. Pois eu utilizo como base imagens reais, movimentos reais. Encontramos a foto da Maia no Museu do Teatro Bolshoi. Embora o grafite tenha cores, ele  é real, o movimento é real. As pessoas podem identificar o movimento no mural com o da Maia. 

Como ocorre o processo da transferência da imagem do papel à parede?

Tudo é pintado à mão. Obviamente, eu faço o projeto antes. Quando já tinha a parede [para pintar], peguei as medidas dela, fiz o projeto no papel fazendo testes de qual imagem poderia ficar melhor, qual desenho seria mais interessante, qual forma da Maia se adaptaria melhor. Depois eu utilizo esse desenho para pintar. Mas toda a pintura é manual. Não há projetor ou qualquer tecnologia.

No início, o grafite atraía a atenção das pessoas para os problemas sociais. Agora é diferente. O que você acha disso?

Eu tenho duas linhas no meu trabalho. Uma linha faz menção não só aos problemas sociais, mas ambientais também. Por exemplo, a agressão do homem ao ambiente e aos animais. Eu faço trabalhos contra as touradas e contra os navios no Japão que caçam os baleias, por exemplo. Tenho trabalhos ligados à proteção dos animais. Quando surgiu, o grafite tinha  esse preocupação, falava dos problemas. Mas hoje eu não vejo mais isso no grafite. Poucos grafiteiros fazem isso. A maioria deles tem apenas a estética como preocupação.

O fato do grafite se tornar legal é uma coisa negativa ou positiva?

Depende de como o artista vê isso. Eu nasci na periferia de São Paulo, num bairro pobre. Aprendi tudo nas ruas. Eu não tive apoio. Isso significa que não tinha dinheiro para comprar as minhas tintas. Para fazer um bom trabalho, para elaborar as coisas, é preciso  dinheiro. É um meio de vida. A vida do artista é como a vida de qualquer pessoa. Não vejo problema quando uma empresa, ou uma marca,  quer contratar um artista. Desde que o artista permaneça na origem das ruas. Se o arista surgiu nas ruas  e abandona as ruas para trabalhar apenas com uma galeria ou um restaurante, ele não é mais um artista de street art. Isso acontece hoje com a maioria.

Mas eu acho positivo o fato de os artistas ganharem dinheiro porque eles têm que sobreviver. Qualquer artista de qualquer nível precisa sobreviver. Eu acho radicalismo o fato de dizer que o grafiteiro não pode fazer mais nada.

Hoje eu tenho trabalhos legais e tenho trabalhos ilegais. Eu faço as duas coisas. Uma faz com que eu consiga fazer a outra. Eu necessito das duas para ter o equilíbrio.

O que você gostou mais em Moscou?

Eu não vi muito. Vi a Catedral de Cristo Salvador. Mas gosto bastante da Catedral de São Basílio por causa das cores, porque eu uso as cores. Também fui até lá. Eu acho bonitas as cores porque combinam com o meu trabalho.

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