Grupo teatral se aventura pelos “sertões de Tchekhov”

Ensaio geral Foto: divulgação

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Peça "O Duelo" estreia nos palcos paulistanos, depois de levar atores da companhia, entre eles Camila Pitanga, ao Cáucaso para pesquisas.

O espetáculo começa com uma luta entre o amor e o enjoo do amor, o tédio. Depois, vários embates se sucedem na peça “O Duelo”, com direção de Georgette Fadel, que estreou no sábado (12) e fica em cartaz até dezembro, no Centro Cultural São Paulo.

Adaptação teatral da novela homônima de Anton Tchekhov (1860-1904), a montagem da mundana companhia (o nome do grupo é grafado com minúsculas) foi produzida pelos atores Camila Pitanga e Aury Porto.

Logo na primeira cena de “O Duelo”, Ivan Laiévski (Porto) confessa a um amigo estar entediado da amante, Nadiejda Fiodorovna (Pitanga), com a qual ele se retirou da civilização para viver no exílio bucólico do Cáucaso. Laiévski recebe a notícia da morte do marido que a companheira abandonou e vacila ao ver seu caminho livre para se casar com ela.

Nadiejda é uma máquina de desejo, indômita como a vida e o mar que banha a cidade onde se passa a história. “Ela tem febres, melancolia, é calcada em sensações, desejos e loucura”, descreve Pitanga para a Gazeta Russa.

A trama se complica a partir das interações entre os 11 personagens da peça. O duelo do título se dá entre Laiévski, um angustiado pré-existencialista, e Von Koren (Pascoal da Conceição), um zoólogo adepto do darwinismo social - teoria da vanguarda do pensamento em 1891, quando a novela foi escrita.

De um lado está o intelectual exilado dizendo que é "melhor ser limpador de chaminés em São Petersburgo do que um príncipe no Cáucaso" e, de outro, o zoólogo obcecado pelos mais aptos, que afirma preferir “ser o primeiro na aldeia ao segundo na cidade”.

Todos estão à beira de um ataque de nervos, nas fraldas do Mar Negro, na periferia do mundo e presos a uma realidade sufocante e medíocre. Querem fugir, mesmo que seja com destino a suas ilusões. São uns desterrados na própria terra.

O sertão e o Cáucaso

O projeto da peça pela companhia sempre teve forte aproximação com as questões brasileiras. Logo o grupo decidiu que o sertão estaria na sua rota e o Cáucaso, retratado na novela original de Tchekhov, permitia paralelos entre esses dois universos.  

No final do século 19, época em que a novela foi escrita, a Rússia era uma sociedade servil, na periferia do capitalismo europeu. Hoje, após o desmanche da União Soviética, o Cáucaso ainda enfrenta certo isolamento da moderna Rússia capitalista após uma série de guerras separatistas sufocadas com brutalidade pela última.

Já o sertão brasileiro, um resquício da sociedade escravista, encontra-se na periferia tanto do liberalismo europeu, quanto das grandes cidades. O paralelo entre o sertão e o Cáucaso foi quase automático.

“Esse foi o ponto que nos serviu de guia: as sociedades provincianas lidando com as ideias que lhes são impostas”, conta à Gazeta Russa o assistente de direção Diego Moschkovich.

Aury Porto (esq.), Camila Pitanga (centro) e Sérgio Siviero (dir.) Foto: divulgação

Pitanga, Porto, Moschkovich e a diretora Georgette Fadel embarcaram para Moscou, de onde viajaram de trem por cerca de 25 horas até Sukhumi, no Cáucaso, cidade à beira-mar e capital da Abecásia. A região separatista encravada na Geórgia teve sua independência reconhecida por pouquíssimos países.

Limite natural entre Europa e Ásia, o Cáucaso é uma região entre os mares Negro e  Cáspio, povoada por diversas etnias e de importância estratégica.

Foi de lá que o grupo trouxe os tons cinzas e ferruginosos de muitos elementos cênicos da peça. A viagem também serviu para observar as pessoas da região, suas vestimentas, sentir cheiros e sabores e vivenciar hábitos.

Preparação no Brasil

Depois do Cáucaso, a trupe embarcou para uma temporada no sertão cearense.

“O litoral do Ceará é muito turístico; para o sertão quase não se vai”, disse Porto à Gazeta Russa. Por outro lado, a diretora do grupo queria afastar os atores do eixo Rio-São Paulo a fim de produzir neles um estranhamento. “Fomos tirados dos nossos centros de pertencimento”, conta Pitanga.

Nas cidades cearenses de Arneiroz, Lavras da Mangabeira e Iracema, todas num raio de 300 a 500 km de Fortaleza, o coletivo realizou ensaios abertos e oficinas com a participação dos moradores.

Foram duas semanas em cada cidade, nas quais a trupe deu forma final à peça. Nesse período, o grupo trabalhou 7 horas diárias diante da população local, com a finalidade de humanizar o teatro e mostrar que o ator é um trabalhador comum, não um ungido.

Objetos como cadeiras de balanço, dessas que o povo do interior coloca nas calçadas para observar o movimento e conversar, foram trazidas para compor o cenário da peça e permaneceram na versão final.

O resultado é um espetáculo composto de 17 cenas e cerca de 3 horas e meia de duração.

A trilha musical, quase toda executada ao vivo, não economiza em estilos. Até o hit brega “O Meu Sangue Ferve por Você”, de Sidney Magal, tem vez em cena. Para o palco também são trazidas a representação de um mar negro e interrupções em que os personagens narram a história.

 “A [direção da] peça é eclética no sentido de ter escolhido todos os meios possíveis para expressar o que o grupo quer contar. Cada cena é construída sob um foco e a música funciona como um dos atores”, explica Moschcovich.

 “Como Tchekhov foi um inovador, quisemos apresentar uma montagem inovadora. Fizemos um Tchekhov do sertão. É uma metamorfose, não uma aclimatação”.

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