Livros proibidos ainda são realidade no país

Boris Kupriánov, sócio da livraria intelectual Falanster e diretor de programação do Festival de Livros de Moscou Foto: Kommersant

Boris Kupriánov, sócio da livraria intelectual Falanster e diretor de programação do Festival de Livros de Moscou Foto: Kommersant

Denúncias de conteúdo extremista em títulos de líderes nazistas recém-publicados no país jogam luz sobre proibições nas prateleiras russas. Até literatura infantil é alvo, e obstáculos levam ao fechamento de pequenas editoras.

Nas últimas semanas, duas obras literárias de tiragem limitada publicadas pela editora russa Algoritmo nos anos de 2012 e de 2013 foram retiradas das prateleiras devido ao conteúdo supostamente extremista. Entre os títulos estão o romance " Michael. O diário de um destino alemão", escrito pelo jovem Joseph Goebbels, e "O Terceiro Caminho. Sem Democratas ou Comunistas", de Benito Mussolini.

Os comentários de leitores em sites que abordam o assunto mostram as opiniões mais variadas em relação à censura das obras, com os que repudiam a iniciativa afirmando ser preciso conhecer o inimigo.

O escritor e jornalista Dmítri Bikov compartilha a ideia. "Todos os países publicam livros de conteúdo perverso e até violento, e isso é uma prática necessária. Apenas os livros poderão nos mostrar a verdadeira origem do fascismo. Mas é preciso incluir comentários adequados, tanto de literatos, quanto de psicólogos, que expliquem os motivos do surgimento do fascismo por meio da obra analisada. A proibição é o caminho mais fácil, mas não o mais eficiente", diz.

A legislação russa veda a distribuição de livros com conteúdo radical fascista, nacionalista ou religioso. O controle é feito pelo Ministério da Justiça, que confirma o conteúdo extremista do livro por meio de uma ordem judicial e o inclui em uma lista de obras literárias proibidas.

Além disso, é proibida no país a promoção de pornografia e drogas ilícitas, mas sem mecanismos de censura só a distribuição desse tipo de literatura é punida, não a publicação em si.

As denúncias apresentadas ao Ministério Público são causa de frequentes de discussões populares, e quando as suspeitas não são confirmadas o prejuízo financeiro podem ser irreparáveis.

"Sou contra a censura de livros porque isso sempre aumenta o interesse do público. Tirar um livro das prateleiras é reconhecer sua superioridade", disse Gazeta Russa o diretor de programação da Feira do Livro de Moscou, Boris Kuprianov.

O próprio Kuprianov já foi vítima de sanções em 2007, quando cinco livros seus publicados pela editora Ultra.Cultura foram retirados das prateleiras devido a suspeitas de promoção de pornografia.

Fundada pelo poeta e tradutor Iliá Kormiltsev, a editora já foi acusada de promover pornografia, drogas ilícitas e terrorismo.

Em 2004, as autoridades suspenderam a venda de sete títulos da casa, entre eles "Phenethylamines I Have Known And Loved", de Aleksander e Ann Shulguin, e "Storming Heaven", de Jay Stevens. Em 2006, foi a vez de suas obras "Apocalypse Culture", de Adam Parfrey, e "Inside Clubbing", de Phil Jackson serem destruídas e a oficina de impressão ser multada.

Em 2007, com as atividades suspensas, a editora foi vendida ao grupo AST.

Proibidões infantis

O segundo semestre deste ano foi marcado por um escândalo ligado à literatura infantil. Aleksandr Khinstein, deputado da Duma de Estado (câmara dos deputados), afirmou ter encontrado indícios de russofobia no livro “Bandeiras Mundiais para Crianças”, da escritora francesa Sylvie Bednar, e se referiu à editora como " grupo de fascistas".

O motivo é que o deputado reprovou um trecho em que a faixa vermelha da bandeira da Lituânia  é descrita como representação do "sangue derramado pelo povo lituano na luta contra os conquistadores russos e alemães".

O legislador logo publicou no Twitter suas constatações e avisou que denunciaria o livro ao Ministério Público. As grandes livrarias resolveram não esperar os resultados da investigação e devolveram as tiragens à editora.

"A maioria das livrarias de grande porte não estava disposta a analisar a situação e saiu logo devolvendo todos os exemplares do livro. Só algumas pequenas fizeram diferente ", diz Marina Kadêtova, diretora da editora KompasGuid, que publicou o título.

"Até agora não recebemos nenhuma resposta oficial do Ministério Público. É claro que fomos alvo desse escândalo, por isso o livro só pode ser comprado diretamente na editora, em algumas poucas livrarias ou nos festivais de que participamos."

A comunidade literária apoiou a casa editorial e publicou uma carta aberta afirmando que "a situação atual não traz nenhuma certeza de um bom futuro para o mercado. As livrarias e as distribuidoras se encontram obrigadas a reagir a qualquer declaração das autoridades, mesmo às custas de sua reputação ou estabilidade financeira".

O documento foi assinado por escritores de peso como Liudmila Ulitskaia, Boris Akúnin, Vladímir Sorókin, além de críticos literários e representantes de editoras e livrarias.

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