Um hino contra a repressão - Parte I

Na Rússia contemporânea, pode-se ver que quase todas manifestações públicas contaram com apresentações musicais. Esse tipo de música de protesto vem sendo produzida nos últimos 60 anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando canções eram compostas pelos prisioneiros de Stálin, até chegar as bandas punk de hoje em dia, como o caso das polêmicas Pussy Riot. A Gazeta Russa produziu um breve histórico sobre essas músicas para perceber como o país caminha rumo a uma sociedade mais democrática.

Em uma sociedade democrática, as pessoas podem expressar livremente as suas opiniões sobre os acontecimentos correntes. Esses tipos de expressões podem ser feitas de várias formas, tais como publicações, documentários, reportagens, peças de teatro etc. As canções de rock como forma de protesto são um movimento mundial que teve início na década de 1960. O famoso festival Woodstock apresentou muitas canções de protesto interpretadas por Jimi Hendrix, The Who, Creedence Clearwater Revival, Richie Havens e Joan Baez, entre outros. Na época, as músicas do Woodstock representaram um grito contra a Guerra do Vietnã.

Creedence Clearwater Revival - Fortunate Son (Woodstock, 1969)

   

Ao olhar para trás na história da Rússia moderna a partir de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim, não é possível ver uma leva tão grande de músicas de protesto quanto presenciado nos últimos 5 anos. Também estranha não haver tantas canções do gênero das gerações anteriores de roqueiros russos, impossibilitando, assim, identificar uma continuidade ou espécie de tradição de compor músicas de protesto no país. 

É bastante óbvio que, durante a União Soviética, as canções de protesto eram patrocinadas pelo Estado totalitário e tinham como meta atingir os “inimigos externos”, como o militarismo e o imperialismo americano, a exploração da classe trabalhadora no sistema capitalista e os tipos de ditadura militar que suprimiam os direitos dos cidadãos. A seguir está uma canção do gênero dedicado a Victor Jara (Víctor Lidio Jara Martínez; 1932-1973), poeta, escritor, diretor de teatro, ativista político e membro do partido comunista chileno, que foi violentamente assassinado durante o golpe de Estado organizado pelo general Augusto Pinochet. A canção foi escrita pelo compositor oficial soviético Igor Lutchenok, que também escreveu muitas músicas refletindo a ideologia soviética, com letras sobre Lênin, patriotismo e guerra.

Apresentação de Víktor Vuiatchitch

      

Porém, essas canções de protesto soviéticas eram hipócritas, porque a própria URSS não deixava de ser uma ditadura e seu povo sofria diariamente sob as duras regras comunistas e ausência de direitos humanos. Havia muitos manifestantes entre os cidadãos da União Soviética, mas seus protestos ficavam escondidos nas cozinhas da casa, onde amigos permaneciam até tarde da noite sussurrando sobre a injustiça e a repressão do sistema. As pessoas escreviam músicas de protesto, mas escondiam a mensagem nas entrelinhas, porque esse tipo de expressão poderia levar à prisão.

Provavelmente, as primeiras músicas de protesto antissoviéticas conhecidas na URSS após a Segunda Guerra Mundial foram “Vanínski Porta”, composta por um autor desconhecido em um campo de trabalho forçado (Gulag), e “Tovarisch Stálin”, de Iuz Alechkóvski, escritor e poeta que havia sido condenado ao Gulag no início dos anos 1950 e forçado a imigrar da URSS em 1979, após a publicação de suas letras no Ocidente. Atualmente, Alechkovski vive nos EUA.

Iuz Alechkovski - “Tovarisch Stalin” (Camarada Stálin)

     

Nas décadas de 1960 e 1970, um novo tipo de compositores e intérpretes que tocavam violão surgiram na cena underground. Eram atores, roteiristas, engenheiros, médicos e outros tipos da classe intelectual soviética. Eles escreviam o seu próprio material e faziam apresentações não oficiais na casa das pessoas e clubes de cultura. Eram geralmente chamados de “Bárdi”, que em russo significa “homem que canta sua própria música acompanhada por um violão”.

Aleksander Galitch (1918-1977) foi um dos bardos famosos. Seu humor negro e carregado de política levaram à proibição de executar suas músicas em público. Suas peças de teatro também não receberam permissão para publicação. No final, acabou sendo expulso de um sindicato de escritores. Tudo isso levou à sua imigração em 1974, bem como à morte misteriosa em Paris três anos depois.

Aleksandr Galitch - "Silêncio é precioso"

     

Esses são apenas alguns exemplos que mostram a existência de músicas de protesto na Rússia para expressar a insatisfação das pessoas com o sistema.

Hoje em dia, na cena rock da Rússia, observa-se uma onda de canções de protesto como nunca antes visto antes – essas músicas são geralmente compostas e interpretadas por uma nova geração de jovens músicos. Trata-se de um fenômeno inédito, porque essa nova geração se afastou de uma carreira convencional no showbiz, na qual fama e fortuna representam um objetivo final. Pouco tempo atrás, em meados dos anos 2000, a cena rock em Moscou era representada por diversos grupos chamados “klúbnaia vetcherinka” (“festa de clube”), isto é, bandas de rock, pop e hip hop tinham como única intenção entreter os moderninhos entediados e os chamados “novos ricos”. Os clubes e bandas faziam um bom dinheiro, especialmente em festas particulares e corporativas. Algumas bandas famosas quase desapareceram para o grande público durante a década de 2000, pois faziam somente esse tipo de evento, onde os honorários eram inúmeras vezes maiores em comparação às apresentações tradicionais. Mas algo estava sendo silenciosamente nascendo por debaixo de todo esse dinheiro, tédio, brilho e glamour.

A primeira manifestação chamada “Marcha da Oposição” foi organizada em Moscou no ano de 2006, gerando uma série de protestos ao longo dos anos seguintes em diferentes cidades russas. Muito rapidamente diversos músicos começaram a participar das marchas de dissidentes, realizando apresentações curtas sobre o palco. Mikhail Borzíkin, da banda Televizor, participou da Marcha da Oposição na cidade de São Petersburgo em 2009 com a música “Zakolotite podval”, cuja letra prega contra os criminosos no governo e suas ligações com a Igreja Ortodoxa Russa.

Mikhail Borzikin se apresenta durante Marcha da Oposição, em 03.03.2008

    

 

Quer saber mais sobre as canções de protesto na Rússia contemporânea? Confira a continuação desta reportagem no sábado 05/10.

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