“Evguêni Onêguin”, de Tchaikóvski, abre nova temporada do Metropolitan Opera

Na encenação de Deborah Warner, no Metropolitan, o papel de Tatiana é representado por Anna Netrebko (dir.) Foto: Lee Broomfield / Metropolitan Opera

Na encenação de Deborah Warner, no Metropolitan, o papel de Tatiana é representado por Anna Netrebko (dir.) Foto: Lee Broomfield / Metropolitan Opera

Por meio do projeto “Live in HD”, espectadores de 64 países poderão assistir à nova encenação da ópera “Evguêni Onêguin” no Metropolitan Opera, com Anna Netrebko no papel de Tatiana e Valéri Guérguiev na direção da orquestra.

A nova encenação de “Evguêni Onêguin”, de Tchaikóvski, abrirá a nova temporada do Metropolitan Opera, em Nova York. Para os espectadores teatrais, ela começará no dia 23 de setembro; para o auditório global, em 5 de outubro, quando o espetáculo será transmitido em formato HD para 64 países.

Assim, o Metropolitan torna-se pioneiro em globalização no âmbito da ópera. O projeto “Live in HD” leva espetáculos líricos para as telas cinematográficas em tempo real, onde o público nas salas de cinema desfruta da ópera como um filme envolvente, com intervalos preenchidos por reportagens sobre bastidores e entrevistas com estrelas. Há uma variante para quem não gosta de sair de casa: o serviço “Met Opera on Demand” permite assistir aos espetáculos através dos computadores pessoais, em formato HD, embora em gravação.

Tanto ouvir como ver “Evguêni Onêguin” realmente vale a pena, pois é uma das obras russas mais significantes do século 19. É curioso que, em ambas as versões, trata-se de gêneros singulares: a obra literária de Púchkin não é um poema, mas o “romance em verso”, enquanto a obra musical de Tchaikóvski não é uma ópera, mas “quadros líricos”.

A propósito do “romance” de Púchkin em que se baseia o libreto da ópera: hoje em dia, na Rússia, é difícil imaginar uma obra poética mais conhecida. Alguns fragmentos são decorados ainda na escola primária. Muitos dos versos são tão citados que já se tornaram provérbios. Vários especialistas em filologia afirmam que Púchkin, com o seu “romance”, traçou o caminho da literatura russa e, mediante toda a sua obra, foi o reformador da linguagem literária russa.

À primeira vista, o enredo de “Evguêni Onêguin” não tem nada de especial: após um janota da capita de nome Evguêni aparecer em uma província, uma jovem calma e sonhadora, de nome Tatiana, logo se apaixona por ele. Desafiando a moral do século 19, dirige-lhe uma carta com a declaração de amor, recebendo em resposta um frio sermão.

Onêguin mata um amigo num duelo, o noivo da irmã mais nova de Tatiana, e vai embora. Passados alguns anos, em um baile na capital, ele encontra Tatiana, casada com um general de renome. Chegou a vez de Evguêni de escrever cartas apaixonadas para Tatiana, mas esta, apesar do amor que ainda nutre por ele, faz questão de ser fiel ao marido. Com base nesta história, Púchkin escreve a verdadeira “enciclopédia da vida russa”, com genuínas cenas do cotidiano de São Petersburgo, Moscou e da província russa do início do século 19.

Em parte, foi essa “genuinidade russa” que atraiu a atenção de Tchaikóvski quase meio século mais tarde. Em 1877, o compositor escreveu a Nadejda von Meck, sua amiga e mecenas:

Na nova temporada, o Metropolitan Opera exibirá dez obras com encenação própria em formato “Live in HD”, das quais três são óperas de origem russa: “Evguêni Onêguin” de Piotr Tchaikóvski (5 de outubro de 2013), “O Nariz”, de Dmítri Chostakovitch (26 de outubro de 2013) e “O Príncipe Igor” de Aleksandr Borodin (1 de março de 2014). Detalhes podem ser obtidos em metopera.org.

“É claro que a ópera não terá forte movimento dramático, mas em contrapartida será interessante pela sua cotidianidade; há tanta poesia naquilo tudo.”

Tchaikóvski apreciava muito a poesia de Púchkin e considerava que ele, “pela força do seu talento genial, liberta-se com frequência dos círculos estreitos da composição poética para a musicalidade infinita”.

A elaboração da ópera coincidiu com uma estranha e trágica virada no destino de Tchaikóvski. Não foi por acaso que, de todas as passagens de “Evguêni Onêguin”, o compositor se sentiu mais inspirado com a cena da escrita por Tatiana da carta-declaração, concluindo-a em primeiro lugar. Tal e qual o protagonista do “romance”, o próprio compositor recebeu certo dia uma carta, escrita por uma jovem pouco conhecida, com uma declaração de amor. Tchaikóvski não seguiu o exemplo de Onêguin e, em vez de dar um sermão à remetente pela liberdade tomada, começou a trocar correspondência com ela.

No verão de 1877, no auge de laboração da ópera, casou com a sua correspondente. Mas o resultado foi lastimável: muito em breve o compositor percebeu que nada tinha em comum com a sua mulher, que nem podia estar ao seu lado, tanto menos compor obras musicais. Para superar a situação e recuperar a saúde enfraquecida pelo grande estresse, Tchaikóvski foi à Suíça e à Itália, onde terminou a composição da ópera, no início de 1878.

Durante a elaboração de “Evguêni Onêguin”, Tchaikóvski estava atormentado pelas dúvidas: parecia-lhe que “esta ópera nunca faria parte de repertórios de teatros notáveis. Não é suficientemente dinâmica, nem interessante ao ponto que o público possa gostar dela”. O compositor depositava todas as esperanças na “sinceridade” com que a obra foi composta, bem como no fato de que, trabalhando na ópera, ele “obedecia ao irresistível ditame da alma”.

Outras incertezas que o afligiam provinham da dificuldade de encontrar cantores adequados aos papeis principais. As tradições de palcos líricos daqueles tempos impunham intérpretes de idade avançada e de tamanha corpulência, mas Tchaikóvski recusava redondamente a possibilidade de deturpação das aparências das personagens por ele idealizadas, sobretudo da imagem de Tatiana, que amava ternamente.

Na encenação de Deborah Warner, no Metropolitan, o papel de Tatiana é representado por Anna Netrebko, que corresponde aos requisitos: é jovem, bonita, talentosa e virtuosa cantora. A diva russa brilha nos melhores palcos líricos do mundo. Em 2007, foi uma das primeiras personalidades da música clássica incluídas pela “Time” na lista de 100 pessoas mais influentes do mundo.

A batuta estará na mão de Valéri Guérguiev, “padrinho” de Anna Netrebko na ópera. Foi precisamente sob a orientação dele, no Teatro Mariínski, dirigido pelo maestro Guérguiev desde 1988, que Anna estreou como cantora lírica. A parte de Onêguin será executada pelo barítono polaco Mariusz Kwiecien. A ópera será interpretada em língua russa, com legendas em inglês, alemão e espanhol.

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