Um passeio pela Moscou do autor de “Doutor Jivago”

Na foto, Conservatório de Moscou, em que Pasternak ingressou ainda em 1905, nos tempos do liceu, vindo a terminar o curso por correspondência.  Foto: Elena Potchetova

Na foto, Conservatório de Moscou, em que Pasternak ingressou ainda em 1905, nos tempos do liceu, vindo a terminar o curso por correspondência. Foto: Elena Potchetova

Tarefa fica fácil com a as dicas de especialistas que esmiuçaram literalmente cada ponto da cidade relacionado com o grande poeta e autor do famoso “Doutor Jivago”.

 

“Para um sonhador e um notívago, não há nada melhor do que Moscou”, escreveu Boris Pasternak, cujo nome está ligado à capital russa como o de Dostoiévski a São  Petersburgo. Especialistas estudaram literalmente cada ponto da cidade que está relacionado com o grande poeta e autor do famoso “Doutor Jivago”. Sobretudo, um itinerário “obrigatório” do programa turístico moscovita, ou seja, a rua Tverskaia e suas zonas adjacentes.

Quem sai do metrô Maiakóvskaia e se encaminha para a rua Tverskaia-Iamskaia verá, alguns metros depois, um edifício amarelo de três pisos, na travessa Orujeini, n.º 3A, um pouco perdido entre bancos e cafés. Numa placa memorial lê-se: “O poeta Boris Pasternak nasceu neste edifício, a 29 de Janeiro de 1890”. No entanto, a memória de Boris não podia ter sido guardada ali, já que, um ano depois, a família mudou-se para o n.º 42 da mesma travessa, pertencente então ao comerciante Lijin. A casa já não existe, pois o espaço que ocupava é agora atravessado pela circular Sadóvoie Koltsó.

Placa memorial diz: "O poeta Boris Pasternak nasceu neste edifício" Foto: 

O topônimo Tverskaia-Iamskaia lembra-nos dos arraiais dos cocheiros (“iamchik”, em russo) que, ao serviço do czar, conduziam carruagens puxadas por cavalos. O escritor conhecia bem este bairro desde criança e o menciona em “Doutor Jivago”: Komarovski aluga, para madame Guichard e Lara, quartos mobilados na hospedagem Tchernogória, situada na travessa Orujeini.

Se percorrermos a Sadóvoie Koltsó até à rua Delegátskaia, que nos tempos de Pasternak se denominava travessa Bojedomski, veremos um parque onde Boris era levado para passear pela ama nos primeiros anos da sua vida, o Seminarski.

Parque Seminarski Foto: Elena Potchetova

Voltamos à rua Tverskaia-Iamskaia e caminhamos em direcção ao Kremlin. Deixamos para trás a estação ferroviária Bielorusski (na época, chamava-se Brestski), em frente da qual se erguia o Arco de Triunfo, posteriormente transferido para outro local. O arco também é referido no romance: “Madame Guichard adquiriu um pequeno negócio, uma casa de costura, perto do Arco de Triunfo”.

Depois da Praça Púchkin, entramos na travessa Bolchoi Putinkovski.No nº 5, no lugar anteriormente ocupado pelo mosteiro Strastnoi, surgiu a redação da revista “Novi Mir” (Novo Mundo), fundada em 1925, junto do jornal “Izvéstia”.Do mosteiro, que se situava no atual largo em frente ao cine-teatro, resta apenas a parte correspondente à estalagem (travessa Mali Putinkovski, n.º1/2), para onde a redação da “Novi Mir” se mudou nos anos 1960, aí continuando até hoje.

Escritotrio da revista “Novi Mir” Foto: Elena Potchetova

Pasternak colaborava com a revista assiduamente. A “Novi Mir” publicou seus versos –uma parte do poema “Ano 905” e “Tenente Schmidt”, outra obra poética. Também estava nos planos da editora publicar “Doutor Jivago”, o que só não se concretizou por razões ideológicas. Foi precisamente na redação da revista que Pasternak conheceu seu último amor, Olga Ivínskaia. Este encontro esteve na gênese de uma relação difícil e apaixonada entre os dois. No dizer de muitos investigadores, Ivínskaia inspirou a Lara do célebre romance.

A parada seguinte do nosso itinerário é o n.º 25 do Tverskoi Bulevard, um palacete tipicamente moscovita dos séculos 18 e 19, onde está hoje o Instituto Literário. Em 1932, cederam a Pasternak um apartamento no primeiro piso de um anexo do palacete. Praticamente não viveu aqui, cedendo as instalações ao filho Jénia e à ex-mulher, Evguénia, que visitava frequentemente.

Tverskoi Bulevard, 25 Foto: Elena Potchetova

Aqui, no n.º 23 do Tverskoi Bulevard, atrás do Teatro Púchkin, havia uma cafetaria sem nome, que os clientes chamavam Café Grec, devido à forma do pavilhão. Era aí que Pasternak e os amigos se encontravam. Foi neste café que Boris ouviu, pela primeira vez, a tragédia “Vladímir Maiakovski lido pelo próprio Maiakovski.

Caminhamos até ao fim do Tverskoi Bulevard e viramos para a rua Bolchaia Nikítskaia. Aqui fica o Conservatório de Moscou, em que Pasternak ingressou ainda em 1905, nos tempos do liceu, vindo a terminar o curso por correspondência. Na ala esquerda do conservatório, há um café onde podemos sentar e folhear  “Doutor Jivago”, que cita aquela rua diversas vezes.

No início do século 20, os primeiros edifícios de ambos os lados da rua Nikítskaia eram ocupados por instalações da Universidade de Moscou, onde Pasternak ingressou em 1908 para estudar Direito, transferindo-se, em 1909, para a faculdade de História e Filologia. Posteriormente, a maior parte das faculdades da universidade foi transferida para Léninskie Gori, mantendo-se na rua Bolchaia Nikítskaia apenas as faculdades de Jornalismo, Psicologia, Artes e o Instituto de Ásia e África.

Rua Nikítskaia Foto: Elena Potchetova

A rua Bolchaia Nikítskaia desemboca na rua Mokhovaia, que nos leva à praça Manéjnaia e ao Kremlin, citados em “Sobre o Campanário de Ivan, o Grande” e “Kremlin na Tempestade de Neve de 1918”, poemas de Pasternak.

Viramos à esquerda e, cem metros depois, estamos de novo na rua Tverskaia. Subimos até a travessa Kamerguerski. O que nos interessa aqui é o Teatro de Arte de Moscou, também ligado ao destino de Pasternak. Vladímir Nemirovitch-Dántchenko planejara encenar “Hamlet” aqui, traduzido por Pasternak, mas o projeto acabou por ser cancelado. Entretanto, “Maria Stuart”, de Schiller, peça em cuja tradução o poeta trabalhou em 1955 e 1956, foi encenada no local.

A travessa Kamerguerski Foto: Elena Potchetova

A travessa Kamerguerski assume grande importância em “Doutor Jivago”. Pavel Antipov está conversando com Lara antes que esta dispare contra Komarovski, num dos quartos do edifício contíguo ao Teatro de Arte. Foi aqui que “a vela ardia em cima da mesa” e foi vista por Iúri Jivago quando passava de trenó. Por ironia do destino, Iúri viveu os seus últimos dias no mesmo quarto e foi aqui que Lara o viu no caixão.

Hoje em dia, a travessa Kamerguerski é uma zona de pedestres com restaurantes e cafés para todos os gostos. Quem se interessa pode ainda andar pela rua Arbat e pelas travessas em seu redor, passear pela cidadela dos escritores, em Peredélkino, ou pelas ruas que rodeiam Kuznetski Most, locais guardados no “músculo frouxo do coração” do poeta.

 

Confira outros destaques da Gazeta Russa na nossa página no Facebook

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.