Manuscrito do romance "Vida e Destino", de Vassíli Grossman, deixa os arquivos secretos

Somente em 1988 "Vida e destino" foi lançado na URSS, em uma versão incompleta Foto: Press Photo

Somente em 1988 "Vida e destino" foi lançado na URSS, em uma versão incompleta Foto: Press Photo

Rascunhos e os capítulos inéditos da obra, que ficava em um arquivo de acesso restrito, ficarão disponíveis para pesquisadores.

O Serviço de Segurança Federal transferiu para o Arquivo de Literatura e Arte do Estado o manuscrito completo do romance "Vida e Destino", de Vassíli Grossman, que ficava em um arquivo de acesso restrito. Agora, pesquisadores poderão analisar os rascunhos e os capítulos inéditos da obra.

A filha e a neta do escritor estiveram presentes na cerimônia de transferência.

Grossman escreveu a obra clássica ao longo de dez anos, de 1950 até 1960, mas nunca chegou a vê-la publicada: por causa da crítica a Stálin e ao seu regime, o livro foi considerado antissoviético.

Em 1961, após uma busca minuciosa no apartamento do escritor, os oficiais da KGB apreenderam não apenas os exemplares datilografados do romance, mas também o manuscrito original e com ele todos os esboços e rascunhos dos capítulos não incluídos na versão final, partes que foram excluídas a conselho de amigos como sabidamente “censuráveis em virtude do teor político".

Filha de Grossman (centro) transfere o manuscrito para o Arquivo de Literatura e Arte do Estado Foto: Arquivo Federal 

Grossman ficou muito deprimido com a apreensão do livro e escreveu ao primeiro secretário do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Khrushchev:

"Os métodos com os quais querem deixar em sigilo tudo o que aconteceu com o meu livro não são métodos de combate à mentira ou à calúnia. Não é assim que se luta contra a mentira. Assim se luta contra a verdade. Não há nenhum sentido em minha liberdade física, quando o livro ao qual eu dediquei a minha vida encontra-se preso. Peço liberdade para o meu livro."

Os materiais foram mantidos na KGB, embora eles não contivessem a indicação de sigilo oficial, e uma cópia do romance sobreviveu aos cuidados de um amigo do escritor, o poeta Semion Lípkin. Em 1970, foi possível levar essa cópia para o exterior. O romance foi publicado com forte repercussão pela primeira vez na Suíça, em 1980. Somente em 1988 a obra foi lançada na URSS, em uma versão incompleta.

Importância dupla

A transferência da obra de Grossman não tem apenas o significativo caráter político de “libertação” da obra “presa”, mas principalmente o de grande importância para os estudos da arte literária.

"A transferência dos manuscritos de uma das mais importantes obras literárias do século 20 para o Arquivo de Literatura e Arte do Estado provavelmente poderá dar um impulso para a edição realmente completa de ‘Vida e Destino’, incluindo os fragmentos que restaram apenas nos rascunhos e que na época haviam sido excluídos pelo autor devido à sua perspicácia política. No mínimo, permitirá a publicação de uma edição acadêmica séria, com comentários e metodologia científica adequada”, disse a historiadora Julia Kantor.

Em 2007, o “Wall Street Journal” considerou a obra como um dos melhores romances do século 20.

Screenshot do filme russo "Vida e Destino" Foto: kinopoisk

No outono de 2011, na Rádio 4 da BBC, foi apresentada uma série contendo 13 episódios baseada no romance. Depois disso, “Vida e Destino” passou a fazer parte do ranking de best-sellers na Grã-Bretanha.

Em 2012, foi filmado um seriado de televisão baseado no romance e apresentado pelo Tele Canal Central na Rússia. Sua estreia despertou o interesse do público: de acordo com os dados de uma pesquisa da empresa TNS Rússia, o primeiro episódio atraiu 18% dos telespectadores de Moscou com 18 anos ou mais.

 

Com material da Agência Federal de Arquivo e do Canal Moscou-24 

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