Dostoiévski em traços

Abertura da exposição "Noites Brancas" Foto: divulgação

Abertura da exposição "Noites Brancas" Foto: divulgação

Exposição em São Paulo traz obras de artistas brasileiros e alemães que interpretaram as narrativas do escritor russo por meio de ilustrações.

Considerado por muitos o maior escritor russo de todos os tempos, Fiódor Dostoiévski (1821-1881) é tema de uma exposição inaugurada no museu Lasar Segall, em São Paulo, no final do mês de julho.

A mostra “Noites Brancas: Dostoiévski Ilustrado”, que fica em cartaz até o dia 29 de setembro, conta com obras de Lasar Segall (1891-1957), Oswaldo Goeldi (1895-1961), Alfred Kubin (1877-1959) e outros 11 artistas que com seus desenhos e gravuras buscaram realizar interpretações gráficas da obra de Dostoiévski.

Das 64 obras expostas, 44 vieram das instituições alemãs Gabinete de Gravuras de Dresden e Museu Lindenau, de Altenburg, e foram trazidas pela primeira vez ao Brasil para a mostra. São gravuras, desenhos e livros originais editados no Brasil e na Alemanha.

Com curadoria de Samuel Titan Jr., professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, a exposição enfoca o diálogo entre os artistas da mostra e a obra de Dostoiévski através do expressionismo alemão.

CINEMA

Para complementar a exposição, o museu organizou a mostra “Dostoiévski e o Cinema”, um ciclo de oito filmes inspirados na obra do autor russo, que serão exibidos durante os finais de semana do mês de agosto.

Escolhida pela pesquisadora e crítica de cinema Ilana Feldman, a programação da mostra traz títulos que vão de “O Idiota” (1951), de Akira Kurosawa, até “Crimes e Pecados” (1989), de Woody Allen, passando por obras de cineastas como os italianos Luchino Visconti e Bernardo Bertolucci e o brasileiro Heitor Dhalia. 

“A ideia da exposição surgiu um pouco por acaso. Em 2005, ganhei uma bolsa para estudar em Berlim e decidi procurar ilustrações de Alfred Kubin, pois já conhecia a ligação dele com Goeldi. Encontrei uma edição de 1913 do livro 'O Duplo' com 60 ilustrações de Kubin e, pesquisando mais, fui me dando conta de que Dostoiévski foi adotado pelo expressionismo alemão como uma figura de destaque”, disse Titan Jr. à Gazeta Russa.

“Entre os autores do século 19, Dostoiévski era aquele que, para os alemães, parecia ter o caráter mais visionário. Mais do que um romancista, ele era um autor que soube fazer com precisão o diagnóstico da crise do homem de sua época”, explica o professor.

A admiração por Dostoiévski fez com que diversos artistas do expressionismo alemão se dedicassem a ilustrar contos e trechos de seus romances. “Max Beckmann, que ilustrou episódios do romance ‘Recordações da Casa dos Mortos’, dizia: ‘Quero ser para Dostoiévski o que Botticelli foi para Dante’”, conta Titan Jr, fazendo referência à relação do pintor italiano Sandro Botticelli com o autor de “Divina Comédia”.

Segundo o professor, dúzias de edições ilustradas de seus contos e romances surgiram na Alemanha entre o início da décade de 1910 e a ascensão do nazismo, quando o expressionismo passou a ser reprimido e entrou em declínio. Além de ilustrações, houve o surgimento de uma série de gravuras em pedra, madeira e metal, além de portfólios em formato de revista, com artistas mostrando suas interpretações da obra do escritor russo.

“Somente na Alemanha Dostoiévski foi objeto de uma recepção gráfica tão coerente. Essa tradição morreu no país, mas ressurgiu algum tempo depois no Brasil, com as edições de suas obras pela editora José Olympio”, diz Titan Jr.

Para o professor Bruno Gomide, coordenador do programa de pós-graduação em Literatura e Cultura Russa da Universidade de São Paulo, as ilustrações feitas para as edições da José Olympio da obra de Dostoiévski são um dos pontos altos da coleção e receberam o mesmo cuidado dedicado à tradução dos textos. “As ilustrações têm um peso muito grande até hoje e talvez sejam a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas quando pensam nessa coleção.”

Fazem parte da exposição diversos desenhos e gravuras feitos por Oswaldo Goeldi para ilustrar os livros do autor russo por encomenda da José Olympio, durante as décadas de 1930 e 1940. Entre as narrativas que ganharam interpretações de Goeldi na forma de desenhos estão “Memórias do Subsolo”, “O Idiota” e “Humilhados e Ofendidos”.

O público também poderá ver uma série de cinco litografias que Lasar Segall realizou em 1917 em torno da novela “Uma criatura dócil”, além de gravuras de artistas alemães como Erich Heckel, Max Beckmann e Otto Möller e 40 das 60 gravuras de Kubin que fazem parte da edição de 1913 de “O Duplo” encontrada por Titan Jr. em Berlim.

Gomide acredita que a exposição do museu Lasar Segall é uma das facetas de uma onda de redescoberta de Dostoiévski no Brasil, com reedições de obras do escritor feitas por várias editoras, encenações teatrais e filmes.

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