Cartilha de ética para cineastas vai regulamentar produção nacional

Fundo Estatal para o Cinema Russo Foto: Kommersant

Fundo Estatal para o Cinema Russo Foto: Kommersant

Apoiada pelo governo, iniciativa da União de Cineastas da Rússia pretende evitar excessos negativos nos filmes.

Tudo começou em novembro de 2011, quando o presidente Vladímir Pútin, que na época ocupava o cargo de primeiro-ministro, propôs aos cineastas a criação de um conjunto de regras éticas. Na ocasião, Pútin citou como exemplo o “Código Hays”, aplicado em Hollywood de 1930 a 1960. No mês passado, o presidente da União de Cineastas da Rússia e diretor Nikita Mikhalkov finalmente respondeu à proposta e iniciou a elaboração de uma cartilha para a indústria cinematográfica.

O cineasta Karen Chakhnazarov, que também é o diretor do maior estúdio de cinema russo “Mosfilm”, entrou  no grupo de trabalho para o desenvolvimento da cartilha, juntamente com o patriarca do cinema intelectual russo Marlen Huciev, o diretor  e documentarista Serguêi Mirochnitchenko e o crítico de cinema Kirill Razlogov, entre outros cineastas e teóricos.

Lembrança comunista

Além do “Código Hays”, muitos cineastas recordaram a era soviética com o seu “Código moral do construtor do comunismo”, elaborado em 1961. O código continha vários itens, sendo o mais famoso deles “quem não trabalha, não come”. No mesmo ano em que começou a falar sobre a cartilha de ética para os produtores de filmes, Pútin citou o antigo documento ao dizer que “perdemos determinados valores do período soviético”.

“Será possível falar sobre os benefícios desse código para o cinema russo somente depois de se saber como ele será elaborado”, diz Chakhnazarov. Ele está certo de que não haverá nenhuma censura na carta, apenas autolimitações de ordem moral. O presidente da Guilda dos produtores, Renat Davletiarov, acrescenta que “um código baseado no bom senso e na boa vontade dos criadores de filmes irá aliviar as tensões no debate sobre a exibição de violência e cenas brutais no cinema.”

O “Código Hays”, citado por Pútin há dois anos, foi adotado pela Associação dos Produtores e Distribuidoras de Filmes em 1930 e proibia as obras de apresentar crimes e vícios de tal modo que provocassem simpatia. Também era proibido zombar da lei, mostrar personagens nuas ou usando drogar, desrespeitar a religião etc. O código não tinha caráter de censura, mas, por ter sido aceito pelos principais estúdios de Hollywood, as chances de um filme que violasse o código chegar às telas dos cinemas eram pequenas. Nos anos 1960, o código perdeu funcionalidade e Hollywood assimilou o espírito livre do cinema europeu.

Porém, o especialista em história do cinema Serguêi Chestakov defende que a liberdade absoluta leva à exibição de qualquer forma de violência, erotismo e expressões grosseiras, e, por isso, a autorregulação é indispensável. “Quando a mensagem vem do chefe de Estado, acaba parecendo uma pressão do governo sobre o setor. É errado introduzir algo assim de cima para baixo, pois irá provocar rejeição”, explica Chestakov.

De acordo com Nikita Mikhalkov, a cartilha deverá ficar ponta até o final deste verão.

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