Reservas de petróleo promovem releitura da Sakhalin de Tchekhov

Retrato de Anton Pavlovitch Tchekhov (1898). Foto: wikipedia.org

Retrato de Anton Pavlovitch Tchekhov (1898). Foto: wikipedia.org

Grandes mudanças ocorreram na ilha desde os dias de colônia penal no regime tsarista. Porém, essa região rica em petróleo e gás ainda guarda leves traços do breve período em que o grande escritor registrou o “inferno” de gelo.

Em 1890, o famoso escritor Anton Tchekhov não dispunha do luxo de pegar um voo de 8 horas e 40 minutos para chegar à longínqua ilha de Sakhalin partindo de Moscou. Em sua jornada de dois meses e meio viagem pela Sibéria, o autor usou vários meios de transporte, incluindo trens, balsas e carruagens a cavalo, para chegar ao local de destino, que na época era uma colônia penal. Apenas sete quilômetros separam o ponto mais ocidental de Sakhalin da Rússia continental, mas, nos tempos de Tchekhov, não havia ponte ligando a ilha ao continente.

Hoje em dia, os serviços regulares de balsa operam de Vanino, na região de Khabarovsk, e Kholmsk, no sul de Sakhalin. Os moradores da ilha reclamam com frequência que a balsa se tornou uma rota popular para criminosos de outras regiões da Rússia e das ex-repúblicas soviéticas. Quando Tchekhov pegou a balsa que atravessa o mar para chegar a um porto no norte de Sakhalin, o escritor usou o mesmo transporte daqueles que eram considerados os maiores criminosos da época.

Aliás, a forma como esses presos eram tratados entristecia o autor. “No barco pelo Amur rumo a Sakhalin, havia um condenado que assassinara sua esposa e usava correntes nas pernas”, escreveu Tchekhov em seu livro “A Ilha de Sacalina”. “Sua filha, uma menina de seis anos, estava com ele. Eu reparava sempre que o condenado movia a menina ao seu redor, segurando-a em suas correntes. À noite, a criança dormia com os presidiários e soldados, todos empilhados".

Quando Tchekhov chegou à ilha, ele testemunhou a brutalidade de seu clima inóspito e a absoluta ausência de instalações para os prisioneiros. Ele chamou o local de “inferno” de gelo.

A cidade de Iujno-Sakhalinsk não existia em sua forma atual quando o escritor visitou a ilha, pois profundas modificações aconteceram depois que os japoneses ocuparam a área no pós-Guerra Russo-Japonesa de 1905. Mas Tchekhov escreveu sobre a aldeia de Vladimirovka, que agora fica nos arredores da maior cidade e centro administrativo da ilha. O lugar tinha 46 casas e 91 habitantes em 1890. Entre seus moradores estavam poloneses deportados. Nomes como Kovalski, Kriminetski e Krakowski ainda são comuns na ilha.

Atualmente, Vladimirovka possui uma coleção de pequenas datchas (casa de veraneio) e alguns poucos casarões de madeira. Os imigrantes de lugares tão distantes quanto a Armênia e o Quirguistão vivem nas casas menores e, para esses trabalhadores manuais que sobrevivem de bicos, é quase impossível alugar um apartamento.

Os moradores russos de longa data também se queixam da infraestrutura pobre da região onde moram, que fica a poucos quilômetros de distância dos edifícios modernos de aço e aço de Iujno-Sakhalinsk – a cidade hoje abriga companhias internacionais de petróleo. As reclamações mais comuns ouvidas nas ruas de Vladimirovka se referem ao abastecimento irregular de água e à falta de segurança à noite.

A área também é estranhamente chamada de Xangai, já que muitos dos coreanos mais pobres, largados na ilha quando os japoneses foram expulsos em 1945, permanecem em Vladimirovka. A ideia por trás do nome, dizem os historiadores locais, é que a ilha era vista como um território asiático. Os visitantes da verdadeira Xangai ficariam surpresos em saber que esse local, mesmo que não oficialmente, compartilha o mesmo nome de sua grande cidade.

Realismo ficcional

Em 1890, Anton Tchekhov se aventurou rumo à ilha de Sakhalin, mesmo depois de saber que estava com tuberculose. Esse “inferno”, como ele descreveu a ilha, abrigava um colônia penal fundada pelo regime tsarista. Durante a sua estada de 3 meses, o escritor testemunhou chicotadas, confisco de suprimentos escassos e prostituição forçada. “A Ilha de Sacalina”, o último trabalho grande do Tchekhov, é mais um relato jornalístico do que literatura, chamando a atenção do leitor para os horrores da vida em uma enorme colônia prisional do século 19.

Aleksandrovsk-Sakhalínski

A maior parte do tempo de Tchekhov em Sakhalin foi gasta na cidadezinha de Aleksandrovsk-Sakhalinski, na porção noroeste da ilha, onde as condições de vida horrorizaram o escritor. Ao que parece, a última parte do conto “O Assassinato” se passa em uma prisão de Aleksandrovsk.

Ali ficava o centro administrativo da ilha na época de Tchekhov, mas agora é uma pacata cidade com cerca de 12 mil habitantes, penhascos verdes com vista para o Estreito de Tartar e uma impressionante formação natural de três rochas sobre o mar chamada Três Irmãos.

Ainda há alguns traços de 1890 na cidade, embora a colônia penal tenha sido fechada em 1906. Naquele período, Tchekhov já pôde observar o ex-prédio da tesouraria, um casarão de madeira construído 10 anos antes de ele chegar à ilha. Acredita-se que essa é mais antiga estrutura criada pelo homem na ilha.

A casa onde o escritor viveu ainda está de pé e agora abriga um pequeno museu com peças da época em que Tchekhov viveu na região.

Imigração voluntária

Apesar de Tchekhov ter se referido à ilha como o pior lugar que havia conhecido, por causa do incalculável sofrimento humano testemunhado ali, os séculos 20 e 21 trouxeram uma série de mudanças para Sakhalin, Os ocupantes japoneses rapidamente desenvolveram a região sul da ilha, e muitos especialistas altamente qualificados foram estimuladas pelas autoridades soviéticas, com bons salários e moradia, a se mudar para a ilha após 1945.

A decisão de explorar ativamente as vastas reservas de gás e petróleo da ilha no início da década de 2000 não só atraiu especialistas estrangeiros de petrolíferas multinacionais, mas transformou a ilha para sempre – do inferno de Tchekhov para o El Dorado dos jovens de todo o Extremo Oriente russo.

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