Filme sobre o Holocausto ganha destaque no Festival de Cinema de Moscou

Chakirov levou as irmãs em uma excursão ao Museu Memorial, erguido no local do ex-campo de concentração de Auschwitz, na Polônia Foto: Site oficial do MMKF

Chakirov levou as irmãs em uma excursão ao Museu Memorial, erguido no local do ex-campo de concentração de Auschwitz, na Polônia Foto: Site oficial do MMKF

Em 2011, duas participantes do programa de auditório “Insanamente Belas”, as gêmeas de 21 anos Ksénia e Evguênia Karatígini, deram a seguinte resposta à pergunta “O que é o Holocausto?”: “Parece que é uma cola para papéis de parede.”

No Festival de Cinema de Moscou, uma das estreias de maior repercussão foi o documentário de Mumin Chakirov, “O Holocausto é uma Cola para Papel de Parede?". 

A razão para o desenvolvimento do projeto foi um evento que causou muito barulho na blogosfera russa há dois anos. Em 2011, duas participantes do programa de auditório “Insanamente Belas”, as gêmeas de 21 anos Ksénia e Euvguênia Karatígini, deram a seguinte resposta à pergunta “O que é o Holocausto?”:

“Parece que é uma cola para papéis de parede.”

O vídeo foi parar imediatamente na internet, ganhando um enorme número de visualizações e milhares de comentários, principalmente condenando e ridicularizando a má formação das garotas. Após o incidente, as irmãs ganharem uma popularidade maior do que poderiam esperar ao participar de um programa de TV.

Foi então que o jornalista da rádio “Svoboda” Mumin Chakirov teve uma  ideia: levar as irmãs em uma excursão ao Museu Memorial, erigido no local do antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. Chakirov contou aos jornalistas que não sabia qual seria a reação das moças e não planejou nada antecipadamente.

"Eu estava pronto para qualquer reação. Aliás, elas poderiam não reagir de modo algum. Poderiam dar uma olhada e seguir em frente para percorrer as lojas. Se as meninas tivessem outra reação, bem, então haveria um enredo muito diferente”, conta.

Em Auschwitz, as moças sofreram um choque: após a excursão, uma delas era incapaz de conter o choro. Como um jornalista expressou de maneira muito apropriada, “depois de visitar Auschwitz, as garotas envelheceram 70 anos”.

Sem julgamentos

O final muito positivo decepcionou os espectadores da geração mais velha: eles esperavam um tom de reprovação em relação à juventude no filme. No entanto, Chakirov não tinha a intenção de fazer um  filme publicitário, assumindo sim uma  posição neutra e de distância, buscando compreender as causas de pessoas ainda desconhecerem o fato.

Como contou o cineasta, não foi fácil convencer as moças a embarcar nessa viagem e a concordar com as filmagens:

"Acima de tudo, elas temiam ser mostradas como burras.”

Origens

O estudo do ambiente de onde vêm as moças é quase mais interessante do que a "parte polonesa" do filme. Chakirov  fez uma viagem à terra natal das garotas, a vila Krásnaia Gorbatka, na região de Vladímirskaia, e conversou com sua mãe e sua professora de história da escola (hoje, as irmãs estudam no Instituto de Design de Moscou).

Levando em consideração que as garotas não tiveram uma infância desfavorecida, o fato de nunca terem ouvido falar sobre o Holocausto torna-se ainda mais surpreendente. E não apenas elas, como fica claro através do filme.

Sua professora de história admite que se sente culpada por não ter contado aos alunos sobre o Holocausto; diz que ainda não está madura para esse tema, mas que  irá falar sobre ele assim que encontrar uma “forma adequada”.

Durante o debate com a plateia no festival, Chakirov contou sobre aquilo que permaneceu nos bastidores: depois de ter assisto ao material filmado, a professora quis se recusar a participar do filme, percebendo que com essas declarações ela estava descreditando a si própria e o sistema de ensino da Rússia.

De acordo com o diretor, o filme manteve os trechos "mais neutros" de sua fala, mas “os espectadores inteligentes vão entender de qualquer maneira".  A mãe das meninas, embora condene as filhas, traz como desculpa o seguinte argumento: "Pedi a todos os vizinhos, amigos, colegas de trabalho, e nenhum deles pôde me responder o que é o Holocausto".

Tudo isso é bastante inesperado, considerando que a propaganda do patriotismo feita pelo governo (que inclui histórias sobre a guerra e de suas vítimas) é o principal trunfo da ideologia de Vladímir Pútin. E as garotas são típicas representantes da chamada "Geração Pútin".

“A história das irmãs se transforma no retrato de uma geração que não tem nenhuma ideia sobre os crimes do nazismo. Estamos diante de um fenômeno, muito mais complexo do que a negação do Holocausto: nos deparamos com o completo desconhecimento dele”, diz o diretor.

No entanto, reconhece Shakirov, esse problema diz respeito não apenas à Rússia: na Europa, na América e até mesmo em Israel, muitos representantes da geração jovem preferem “não se interessar por esse tema”.

O filme tornou-se uma sentença não tanto para as garotas, mas para o sistema de ensino vigente nas escolas russas. É verdade que, na União Soviética, a palavra Holocausto também era desconhecida e a detruição em massa dos judeus durante a guerra era rodeada de silêncio pela propaganda soviética, que preferia o jargão "massa de vítimas entre a população civil".

Após a visita a Auschwitz, as moças dizem ter se tornado aquela "minoria que agora sabe sobre o Holocausto e tem a obrigação de contar sobre ele para a maioria”. Após as filmagens, ao visitar as moças em sua república, Shakirov  descobriu em suas prateleiras alguns livros sobre o tema.

Na Rússia, a projeção do filme está prevista para apenas uma sala: 10 sessões no Centro de Documentários, em Moscou.

Mais tarde, Chakirov pretende promover o filme na internet de maneira independente.

“O filme, que poderia contar com o apoio do governo, não tem nenhuma chance no mercado, ele não tem nenhum potencial comercial. Entretanto, ele poderia fornecer uma ajuda inestimável aos professores russos, que, 70 anos depois do fim da guerra, ainda estão reunindo o material sobre o Holocausto e não encontram as palavras certas para descrevê-lo.”

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