“Tropicália” desembarca na Rússia

Para Machado, movimento tropicalista pode "dar um exemplo de mistura" à música russa  Foto: stockholmfilmfestival.se

Para Machado, movimento tropicalista pode "dar um exemplo de mistura" à música russa Foto: stockholmfilmfestival.se

Na última segunda-feira (10), o diretor de cinema Marcelo Machado chegou a Moscou para participar da estreia do seu filme “Tropicália” no festival de documentários “Beat Film Festival”. Em entrevista à Gazeta Russa, Machado falou sobre arte russa, mistura de culturas e música.

Gazeta Russa: Quais são as suas impressões da Rússia?

Marcelo Machado: Passei somente três dias em Moscou, mas consegui ver muito. No primeiro dia visitei o Kremlin e a Catedral de Cristo Salvador. No dia seguinte, fomos para o parque Kolômeskoe. Fui para ver a igreja branca, chamada por Púchkin de “harmonia arquitetônica” – afinal, sou arquiteto de formação. Hoje finalmente consegui ver um pouco da arte russa. Visitei a galeria Tretiakov; queria muito ver os suprematistas e os construtivistas, e lá pude encontrar os originais de Tatlin, Kandinski e Malevitch.

GR: Como você avalia a organização do "Beat Film Festival”?

MM: Acho que o festival é muito agradável e bem organizado. A sala onde foi exibido o documentário era bastante confortável. Em São Paulo não temos esses espaços construídos apenas para documentários. É um exemplo que Moscou está dando. A receita é simples: uma sala pequena, porque o público dos documentários é menor do que o público dos filmes de ficção – e um café gostoso pra discussões.

GR: O movimento Tropicália promoveu a ideia da mistura de culturas. É possível imaginar a mistura entre as tradições musicais da Rússia e do Brasil?  

MM: Eu posso! A mistura dos músicos, às vezes, nasce por condições históricas. Mas hoje é possível também promover esses encontros com apoio das organizações e embaixadas. Naturalmente, é difícil acontecer uma mistura da música russa com a brasileira, porque estamos muito distantes. E percebi que aqui na Rússia as pessoas estão ainda um pouco fechadas por conta do idioma.

Fazia tempo que não ia a uma cidade grande como Moscou onde as pessoas falam tão pouco inglês. Vejo que o povo russo está interessado mais em sua própria cultura e ainda está pouco aberto ao diálogo. Mas a apresentação do filme e a noite hoje mostraram que existe público interessado em música brasileira – talvez não seja a maioria dos moscovitas, mas existem entusiastas.

GR: O movimento dos tropicalistas poderia influenciar a música russa? 

MM: Os tropicalistas podem ser referência para os músicos russos de hoje.  É importante entender bem a mensagem que eles queriam trazer ao mundo. Aqui as pessoas me perguntam sobre a questão política envolvida, porque o tropicalismo é visto como um movimento revolucionário contra a ditadura.

Tenho receio de falar sobre revolução aqui na Rússia. Não podemos comparar o nosso movimento com a Revolução de 1917. Seria melhor chamar o que eles fizeram de revolução musical. E o mérito mais importante dessas músicas foi a possibilidade de absorver qualquer tipo de cultura. Foi uma espécie de tolerância. Na verdade, eu não vim aqui para promover uma “catequese tropicalista” nos músicos russos. Mas acho que estsa experiência brasileira pode dar um exemplo de mistura e hibridismo.

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