Relação entre música e arquitetura é tema de debate em Moscou

No último mês, o Museu Judaico foi palco de uma palestra-concerto dedicada à relação entre música e arquitetura Foto: divulgação

No último mês, o Museu Judaico foi palco de uma palestra-concerto dedicada à relação entre música e arquitetura Foto: divulgação

Compositor e musicólogo Fiódor Safronov falou sobre a união criativa entre o compositor de música contemporânea franco-grego Iannis Xenakis e o suíço Le Corbusier, pioneiro do modernismo arquitetônico.

No último mês, o Museu Judaico –que funciona dentro do Centro de Tolerância, em Moscou­– foi palco de uma palestra-concerto dedicada a um assunto não muito usual: a relação entre música e arquitetura.

O compositor e musicólogo Fiódor Safronov falou sobre a união criativa entre o compositor de música contemporânea franco-grego Iannis Xenakis e o suíço Le Corbusier, pioneiro do modernismo arquitetônico e professor do proeminente arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. No evento, o conjunto Estúdio da Música Nova executou composições musicais de  Xenakis.

A palestra foi realizada no salão onde estão expostas páginas do livro de Le Corbusier "Poema do Ângulo Reto", que conta com ilustrações e textos do arquiteto. Devido ao design, o próprio espaço da exposição lembra uma página de um caderno de música. E a escada em espiral de metal junto a uma enorme janela é uma espécie de referência a Corbusier.

Foi nesse local que o público, composto por crianças, jovens músicos, apreciadores da arquitetura modernista e amantes da arte, ouviu as obras de Xenakis.

O compositor e musicólogo Fiódor Safronov

Antes da apresentação dos músicos, Safronov falou sobre a ligação entre as duas diferentes modalidades da arte:

"As relações entre a música e a arquitetura, por vezes, parecem idílicas, mas, ocasionalmente, acabam sendo muito conflituosas. Uma não existe sem a outra, elas estão sempre em interação. Parece que foi exatamente no século 20 que as essas ligações se tornaram visíveis e audíveis. Por exemplo, a carreira de Xenakis como compositor começou quando ele transferiu para a música as ideias de seus antigos projetos de arquitetura e vice-versa.”

Como confirmação disso foi apresentado o filme “O Poema Eletrônico", rodado há mais de meio século. Em 1958, sob a orientação de Corbusier, Xenakis projetou o edifício da companhia Philips para a exposição internacional Expo. No projeto do pavilhão, Xenakis encarnou as suas ideias musicais. O design curvo lembra uma técnica  musical, o glissando, que consiste no deslizar de um som para outro.

Foi exatamente nas paredes do interior desse pavilhão que foi projetado o "Poema Eletrônico", que foi apresentado ao público de Moscou. Todo o alcance visual do filme foi criado e montado por Corbusier, enquanto Xenakis participou da composição da trilha sonora.

Devido às peculiaridades do local, dessa vez, estavam sendo apresentadas, basicamente, obras de câmara, como "Karizma”, não características de Xenakis. Geralmente, o compositor trabalhava com formas grandes, o que se manifestava na música e em seus projetos arquitetônicos.

De acordo com Safronov, o próprio Xenakis respondia da seguinte maneira à pergunta sobre a ligação entre as duas modalidades da arte:

"A arquitetura abrange o espaço tridimensional em que vivemos. Superfícies côncavas e convexas são de grande importância tanto para a esfera visual quanto para a sonora. O principal aqui é a observância de proporções. A arquitetura é o arcabouço. Ela está associada com a esfera visual na qual existem componentes que estão relacionados à área racional, e essa área integra também uma parte da música."

Graças à utilização de novas formas e linhas, a arquitetura no século 20 encarnou os conceitos fundamentais da música moderna. Esses princípios se revelaram, por exemplo, nas linhas curvas da capela de Notre-Dame-du-Haut, de Corbusier, e no design da catedral de Brasília e do Palácio do Planalto, projetadas por Niemeyer.

No início do século 21, o famoso arquiteto brasileiro escreveu:

“O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo.” 

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