“Devemos agradecer aos comunistas por resgatar o balé”

"Lago dos Cisnes", de Piotr Tchaikovsky, será apresentado em pelo menos 19 cidades brasileiras até 19 de junho Foto: Vladímir Viatkin/RIA Nóvosti

"Lago dos Cisnes", de Piotr Tchaikovsky, será apresentado em pelo menos 19 cidades brasileiras até 19 de junho Foto: Vladímir Viatkin/RIA Nóvosti

Acompanhando temporada no Brasil, vice-diretor do Balé Nacional da Rússia explica por que os russos ainda são os melhores bailarinos do mundo e denuncia a “tragédia” das companhias particulares de balé.

Sucesso de público e de crítica, o Balé Nacional da Rússia está realizando a sua maior temporada no Brasil, iniciada no último dia 11 de maio, em Brasília. Até o último dia de apresentação, que acontecerá em 19 de junho na cidade de Joinville, o grupo percorrerá 20 cidades de todas as regiões brasileiras.

Poucos acreditaram quando o cônsul-geral da Rússia em São Paulo, Mikhail Troiânski, plantou as primeiras sementes. Nas cidades de Brasília, São Luís, Recife e Olinda, onde já foram apresentados “O Lago dos Cisnes”, de Piotr Tchaikovsky, e “Giselle”, de Adolphe Adam, os espetáculos foram aplaudidos de pé pelo público brasileiro, que lotou as salas de espetáculo.

Em entrevista exclusiva à Gazeta Russa, o vice-diretor da companhia, Vitor Davidov, que lidera o grupo 34 bailarinos até a chegada do mestre Viatcheslav Gordeev para as apresentações de 28 e 29 de maio no Teatro Municipal de São Paulo, falou sobre a excelência do balé russo e o desenvolvimento dessa arte tanto na época soviética como nos dias de hoje.

Gazeta Russa: Quem fundou o Balé Nacional da Rússia?

Vitor Davidov: O diretor artístico e diretor do teatro Viatcheslav Gordeev, consagrado como “artista da pátria”, há 35 anos. Mas até hoje é uma companhia estatal. Ele recebeu o status em vida, foi a estrela do Teatro Bolshoi e do mundo do balé. Recebeu muitos prêmios como bailarino e venceu competições internacionais. Ele e sua parceira, Nadejda Pavlova, foram considerados o melhor par do mundo do balé. Quando, nos anos em que ele era muito jovem, a companhia esteve na Inglaterra, a rainha Elizabeth chamou Gordeev de “o último dançarino romântico”. Eles eram chamados de Slava e Nadejda. Slava é Glória – ele não é somente a Glória do Teatro Bolshoi, mas era a Glória da União Soviética. Nadejda também é um nome que fala por si próprio: esperança. O casal era chamado Nadejda e Slava – Esperança e Glória. Eu sou o assistente e vice-diretor de Gordeev. Todos os países têm seus balés, mas há uma unanimidade no mundo inteiro em termos de qualidade: o balé russo.

GR: Por que o balé russo é considerado o melhor do mundo?

V.D.: Essa questão os chineses respondem bem. Eles não convidam para seu pais nenhum balé do mundo, somente o russo. Isso se deve às peculiaridades físicas dos bailarinos russos, como linearidade, sutileza e harmonia, bem como pela característica especial do povo russo – sentimentos profundos, profundas e trágicas experiências mentais e físicas. O balé é a forma mais dura de trabalho e integração do corpo com a alma.

GR: E como ele se tornou o melhor de todos?

V.D.: Tenho 73 anos e nasci na União Soviética. Estudei muito, fiz conservatório, fui bailarino por muitos e muitos anos. Acredito que devemos ser gratos aos comunistas, por eles terem resgatado todos os tipos de arte imperial e por terem desenvolvido sobretudo a ópera e o balé. Naqueles anos foram construídos em quase todas as cidades centenas de teatros, óperas e balé, foram criadas escolas de balé, havia um número infinito de escolas de música. O país inteiro estava dançando, cantando e tocando instrumentos musicais. Portanto, a partir dessa massa nasciam os talentos especiais. A União Soviética ocupava um território muito grande, os professores viajavam por diferentes cidades, distritos e aldeias procurando talentos em potencial. Milhares de crianças eram observadas. Nadejda, por exemplo, foi encontrada numa aldeia na República de Tchuvach.

GR: Depois do fim da URSS, como ficou a situação do balé russo?

V.D.: Lamentavelmente, o balé russo enfrenta um momento difícil. Essa arte é preservada em sua forma original, mas vive um momento complicado, pois não há financiamento do governo. As autoridades estão cortando verbas, porque pensam o seguinte: será que é preciso tanto investimento para essa arte de elite? Mas o problema é que se não houver uma grande quantidade de bailarinos, não poderemos encontrar as estrelas.

A tragédia é que, com o colapso da União Soviética, chegou o pensamento democrático que pressupõe “o que eu quero, eu faço”. Apareceram muitas pessoas querendo montar seu grupo para ganhar dinheiro. Mas para isso não há fundos, não há bons talentos, o que significa que eles usam o velho cenário, os trajes antigos e por aí em diante. Grupos privados de balé são uma tragédia, pois não seguem o mesmo rigor e disciplina.
Eu gostaria de citar as palavras de Sócrates, que viveu há 2.500 anos. Ele disse que só existe um coisa boa – o conhecimento – e apenas um mal – a ignorância. Agora, todo o país está indo para a ignorância. Você sabe, quando era a União Soviética, nós tínhamos as melhores instituições do mundo. E todas as instituições eram do Estado.

GR: Qual é a solução para sobreviver a essa tragédia?

V.D.: Desde que a União Soviética entrou em colapso, estamos viajando muito mais ao redor do mundo. Durante a presente temporada, já visitamos 11 países, e o Brasil é o décimo segundo. E há mais outros antes do fim da temporada. Nos países que visitamos, facilmente encontramos bailarinos e bailarinas russas que se mudaram para esses lugares. Por onde passamos, nossos artistas recebem convites para ficar por muito dinheiro. Isso aconteceu recentemente no México. Eu recusei, porque minha terra é a Rússia, mas muitos artistas não resistem à tentação. Em todos os países, vejo nossos mestres, professores de física, química, matemática. O país gigante que acumulou um número incontável de talentos, em termos de educação, entrou em colapso e todo mundo foi para o exterior.
Eu sou grato ao retorno de Pútin. O Ocidente não está gostando, especialmente os Estados Unidos, porque Pútin está restaurando o Estado e a força do país. O poder da criatividade, mas, acima de tudo, os poderes econômico e militar.

GR: Pútin voltou a investir no balé?

V.D.: Sim. Nos anos 1990, tudo desmoronou e o país foi simplesmente roubado. O Ocidente estava roubando nossas fábricas, empresas e instituições. Todo o pensamento científico e técnico estava indo para á. Tivemos a infelicidade de ter tido Iélstin e Gorbatchov, e isso foi uma desgraça para o país. Acredito que agora tudo vai dar certo. Pútin deu para Gordeev a Ordem do Mérito e isso já diz muito.

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