Uma peça sem fronteiras

Apesar de estar envolvido em diversos projetos teatrais, Batalov decidiu contar sobre si mesmo em “Uzbek” Foto: Maria Turchenko/Press Photo

Apesar de estar envolvido em diversos projetos teatrais, Batalov decidiu contar sobre si mesmo em “Uzbek” Foto: Maria Turchenko/Press Photo

Indicado na categoria “Experiência” do maior prêmio teatral da Rússia, o espetáculo “Uzbek”, de Talgat Batalov, aborda o colapso da União Soviética e as dificuldades de imigração na Rússia atual.

Talgat Batalov é um jovem tártaro do Uzbequistão que mudou-se há alguns anos para Moscou com o intuito de trabalhar como ator e diretor.

Antes de chegar à capital, Batalov trabalhou no teatro uzbeque Ilm, considerado “um reduto da liberdade”. Porém, quando os radicais islamitas mataram o diretor do teatro, Mark Vajl, o jovem percebeu que não conseguiria exprimir sua criatividade como desejava.

Batalov passou a viver então na periferia de Moscou, uma área residencial e distante onde até mesmo os taxistas se recusam a ir, e arranjou o primeiro emprego como garçom. “No meu crachá estava escrito Tolik [abreviação para o nome russo Anatóli], porque, segundo os gerentes do café, Talgat era um nome difícil”, conta.

Atualmente, o ator e diretor participa de uma grande variedade de projetos teatrais como, por exemplo, a peça “Hora Dezoito”, que retrata a história do advogado Magnítski, morto na prisão e objeto de conflito entre a Rússia e os Estados Unidos.

Em “Uzbek”, contudo, Batalov decidiu contar sobre si mesmo. “Nem uma palavra sobre gays. Nem uma palavra sobre fascistas. Nem uma palavra sobre as antifascistas. Nem uma palavra sobre o Rússia Unida, nenhuma palavra sobre órfãos. Simplesmente uma hora e meia sobre mim”, anuncia em sua página no Facebook.

O próprio ator classifica sua peça como stand-up: apresentação solo, humor e abordagem de temas importantes. Mas também fica entre uma espécie de documentário público e apresentação artística.

Logo no início do monólogo, Batalov brinca que todos os habitantes do Uzbequistão estiveram pelo menos uma vez em Moscou, mas podem nunca ter visitado sua capital Tachkent. Em seguida, conta como conseguiu o passaporte na região de Tver, vizinha a Moscou, enquanto outros uzbeques e tadjiques aguardavam em uma fila quilométrica que levaria anos.

Na conversa com a mãe por Skype, Batalov fala também sobre sua origem soviética e o fim da livre circulação entre Moscou e Tachkent após a década de 1990. Cabe lembrar que, de acordo com os dados do Serviço Federal de Imigração, existem de 10 a 12 milhões de estrangeiros vivendo na Rússia, dos quais aproximadamente 70% são cidadãos dos países das ex-repúblicas soviéticas e de 3 a 5 milhões estão em situação irregular.

No Uzbequistão, Batalov era chamado de russo; na Rússia, tornou-se subitamente um uzbeque. Ao final do espetáculo, percebe-se que o tom de comédia camufla a realidade trágica e a nostalgia de pessoas que sonham em deixar o Uzbequistão para ganhar dinheiro, mas gostariam de retornar, porque lá ficaram os seus lugares e entes queridos – sejam eles russos, uzbeques ou tártaros.

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