Invasão vinícola no país da vodca

Em 2012, foram vendidos 485,1 milhões de garrafas de vinhos Rússia, dos quais 63,2% eram de fabricação russa Foto: DPA / Vostock Photo

Em 2012, foram vendidos 485,1 milhões de garrafas de vinhos Rússia, dos quais 63,2% eram de fabricação russa Foto: DPA / Vostock Photo

Para a maioria das pessoas nascidas fora da antiga União Soviética, falar em “vinho russo” parece tão absurdo quanto apreciar a “vodca da [região da] Champanhe”. No entanto, uma das marcas de vodca mais populares do mundo, a Grey Goose, é produzida justamente na província francesa famosa por sua champanhe e conhaque. Pela lógica, não é de se estranhar, então, que o vinho russo possa ganhar espaço nas prateleiras internacionais.

Se você tiver a oportunidade de provar um vinho russo, muito provavelmente não vai gostar ou, na melhor das hipóteses, vai achá-lo estranho. O problema é que 80% dos vinhos vendidos atualmente na Rússia são meio doces. Os vinhos secos e até mesmo algumas marcas célebres não são do agrado dos russos por serem, em sua opinião, demasiadamente ácidos.

Segundo a União de Vinicultores da Rússia, hoje em dia, os vinhos meio doces e doces respondem por uma fatia de cerca de 80% do mercado nacional e mais de 90% no segmento de classe econômica. Ao observar a lista dos maiores fabricantes de vinho russos, percebe-se que sete das 10 empresas líderes distribuem os vinhos mais baratos em embalagens Tetra Pak de um litro a preço não superior a US$ 3. No mês passado, o Serviço Federal para Controle da Circulação de Bebidas Alcoólicas (Rosalkogol) suspendeu a licença de três das cinco empresas vinícolas da região de Krasnodar, pois os produtos não atendiam aos padrões nacionais, e muito menos dos internacionais.

Os fabricantes russos de vinho de qualidade sugerem há muito tempo estabelecer o preço mínimo de uma garrafa de vinho a, pelo menos, US$ 4, pois não podem competir com os fabricantes de vinhos baratos. Os enólogos mais radicais pedem até para o governo encerrar a atividade de tais empresas, já que sua existência descredibiliza a vinicultura como um setor da economia. “Qual o sentido de manter empregos para um vinicultor ruim e um fabricante de conservantes iraniano? Não seria mais prático estimular bons vinicultores no sul do país?”, questiona a especialista Elena Denisova.

No ano passado, as vendas de vinho na Rússia sofreram uma queda devido à pressão exercida pelos fabricantes de destilados e cervejarias multinacionais. De acordo com o Serviço Federal de Estatística (Rosstat), a queda na produção de vinhos na Rússia em 2012 foi de 9,2%, enquanto a produção de vodca aumentou 13,2%. As importações de vinho, no entanto, cresceram 4,5% e a entrada de vinhos de qualidade diminuiu 2,4 vezes para 60,4 milhões de garrafas.

Ainda assim, é cedo para retirar a Rússia do mapa quando se fala em produção de vinho. Desde 2006, surgiram novas vinícolas cujos produtos podem agradar os apreciadores mais exigentes do produto. Além da cada vez mais conhecida Abrau Durso, localizada nos arredores de Novosibirsk, é possível destacar a Chateau le Grand Vostok, Lefkada, Vedernikov, entre outras.

No ano passado, a Rússia lançou, pela primeira vez, um “Guia Nacional de Vinhos” que descreve 55 produtos fabricados em 13 vinícolas espalhadas pelo país. O guia foi elaborado com a participação dos melhores sommeliers russos, segundo os quais o aparecimento de “grandes vinhos russos” é uma tendência para o futuro próximo.

É culpa de Stálin!

O problema não está no mau gosto dos russos, mas na tradição herdada dos tempos soviéticos que, 20 anos depois da queda do comunismo, continua viva. Acredite ou não, Stálin é também responsável por isso.

De acordo com o Bureau Internacional de Vinho, nos finais dos anos 50, a União Soviética ocupava o 5º lugar no mundo em territórios ocupados por videiras e o 7º lugar em produção da bebida. A jovem vinicultura soviética contava com o apoio da liderança do país desde o início. Isso porque Stálin era georgiano e o então ministro da Indústria Alimentar, Anastas Mikoian, armênio. Ambos representavam os povos que tinham ricas tradições históricas na produção e no consumo de vinho.

Durante o período de industrialização, o governo soviético elaborou um programa de abastecimento alimentar para atender às necessidades da população quando o assunto era alimentos e vinhos. Antes da revolução de 1917, os vinhos de qualidade só estavam disponíveis para aristocratas. Como a URSS tinha poucas terras adequadas para o cultivo de uvas de qualidade, a ideia era reduzir o custo de  produção de vinho e torná-lo disponível para as pessoas comuns.

Para resolver o problema, cientistas de diferentes ramos da ciência foram mobilizados. Como resultado, foram criadas espécies de videiras de elevado rendimento resistentes ao frio que, entretanto, geravam consequências negativas para a qualidade do produto final. Os vinhos obtidos das videiras experimentais eram quase intragáveis devido a seu elevado teor de acidez, de modo que adoçantes (a partir de açúcar de uva ou álcool etílico) passaram a ser adicionados. Essa tecnologia continua sendo aplicada até hoje.

Naquela época, os proletariados soviéticos brindavam nas festas com vinhos que dificilmente poderiam agradar a um morador de Bordeaux, por exemplo. Apesar de terem se passado 80 anos, não existir mais União Soviética nem Stálin, o apego dos russos pelos vinhos doces se mantém e não tende a desaparecer.

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