São Paulo ganha russo “executivo”

Ambiente do restaurante, Oladi de salmão defumado com sour cream e Salada Vinegret

Ambiente do restaurante, Oladi de salmão defumado com sour cream e Salada Vinegret

'Camarada Bistrô' encontrou lugar entre órfãos da comida russa na cidade e conquista novos amantes da especialidade.

Com o fechamento de seu último restaurante russo, o Café Pittoresque, São Paulo já não tinha mais um endereço fixo para a comida russa. Entre as alternativas restantes aos saudosos do arenque, dos blini e do salmão defumado, restaram apenas as festas culinárias que acontecem periodicamente na Vila Zelina  ou um “pulinho” no Rio de Janeiro para se deliciar com a comida do Dona Irene, onde também se destila o próprio “samogon” (vodca artesanal). 

Desde o final de novembro, porém, a cidade conta com uma nova alternativa. É o Camarada Bistrô, que, apesar do nome remetendo ao socialismo, não tem nada de simplório.

O empreendimento nasceu como um projeto de MBA idealizado pelo casal russo-brasileiro Gustavo Makhoul, 28, e Daria Muzychenko, 31, que se conheceram trabalhando em uma empresa de navegação na Bélgica.

“Chamamos o restaurante de 'Camarada' porque era a maneira como os comunistas se tratavam uns aos outros, uma espécie de irmandade. A maneira como a gente quer receber as pessoas é assim, muito aberta e aconchegante”, conta Gustavo.

bistrô que muita gente associa com o francês, é uma palavra de origem russa, “быстро” (que pronuncia-se “bístra”, e significa “rápido”).

Com diferentes ambientes bem decorados, como o salão com sacada e estantes recheadas de livros, e o terraço aberto no andar superior, o casal parece ter atingido seu objetivo.

Clima belga e nicho de mercado

“Na verdade, a Daria não me pegou pelo estômago”, brinca Gustavo. “Sempre lembro que das primeiras vezes que fui à casa dela, quando começamos a namorar, só havia iogurte na geladeira”.

O clima belga – e depois inglês, já que os dois partiram juntos para o Reino Unido para fazer o MBA - ajudou o casal a descobrir o novo nicho de mercado.

“Lá é chuvoso, é sempre meio friozinho, e não tem nada mais gostoso do que ficar em casa para cozinhar junto, comprar um vinho e alugar um vídeo. Foi aí que começamos a desenvolver os dotes culinários da Dasha [apelido de Daria], sempre comigo como ajudante de cozinha”, conta Gustavo.

Localizado na Rua Melo Alves, no Jardins, à noite o novo russo da cidade fica envolto no burburinho dos bares vizinhos, e já está virando destino também dos boêmios, com sua degustação de vodcas.

A casa mostra aos visitantes que a bebida vai muito além da Stolítchnaia, que oferece junto à Rússki Standart (Russian Standart), a Pravda, além da suíça Xellent e da polonesa Wyborowa, entre outras.

A degustação consiste de quatro doses de vodca e acompanhadas de conservas variadas (pepinos, brócolis, cenoura, couve-flor), uma tradição russa. “As conservas neutralizam o sabor entre uma dose e outra”, explica Gustavo.

Além da bebida na sua forma clássica, outro sucesso do bar tem sido o coquetel “White Russian”, com cor de café e preparado à base de creme de leite e vodca. Suave e balanceado, seu teor alcóolico, porém, não é exatamente baixo.

Segundo os proprietários, cresce o público que frequenta o espaço para degustar as entradinhas e se deliciar com coquetéis a noite toda.

Fora do bar

No salão, os visitantes têm opções de pratos variados desde as famosas panquecas russas (“bliní”), até novidades para o paladar brasileiro, como o “golubtsi”, uma mistura de carnes bovina e suína enrolada em folhas de repolho ao creme de dill, e o “oladi”, panquequinha de batata temperada com sabor mais suave e certeiro, além do pelmêni artesanal, a massa recheada que, de tanto os clientes russos insistirem, foi incorporada ao cardápio diário.

Um best-seller de verão foi a “limonada russa”, que ganhou ainda mais apreciadores com a “lei seca” por não conter álcool. A bebida tem inspiração no refrigerante russo “tarhun”, e é preparada à base de limão siciliano, tahiti e xarope de estragão.

Durante o almoço, de segunda a sexta (exceto feriados), a casa também oferece cardápios “executivos”, e já começa a incoporar marcas de vale-refeição como opção de pagamento. No futuro, o restaurante deverá também ter a opção de bufê para o almoço.

Com a chegada do frio, o casal quer pôr em prática sua especialidade e alavancar também as sopas, entre elas, o famoso “borsch” e o “schi”. “Os que pedem nosso 'borsch' saem maravilhados, mas por enquanto as sopas têm feito maior sucesso com estrangeiros que com brasileiros”, conta Gustavo.

Entre as dificuldades encontradas no estabelecimento do negócio esteve também a busca de fornecedores capazes de abastecer a cozinha com os produtos necessários. Um deles foi o pão russo “borodínski”, muito diferente do pão preto vendido no Brasil.

“Trouxemos a receita da Rússia, pesquisamos os ingredientes e tentamos fazer em forno caseiro, mas não dava muito certo, então desenvolvemos junto a uma panificadora aqui do Jardins, que fornece para nós, e os cliente e nós adoramos!”, diz Gustavo.

Manter um restaurante russo em São Paulo nunca foi fácil, como mostraram as experiências anteriores.  A falta de fornecedores, a distância entre os países e o pouco conhecimento mútuo estão entre os motivos. Mas o “Camarada” está superando os obstáculos e mostrando que veio para ficar.

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