Da repressão religiosa ao triunfo capitalista

Foto: Vladímir Petrakov

Foto: Vladímir Petrakov

Eles fugiram da Rússia no século 17, sofreram repressão das autoridades, promoveram o celibato e os sacramentos eclesiásticos e, por fim, criaram muitas igrejas. Contrariando as práticas da Igreja Ortodoxa introduzidas naquele período, esses personagens conhecidos como “Starovéri” (“fiéis antigos”, em português) representaram a força motriz do capitalismo russo no início do século 20 e sobrevivem até os dias de hoje.

Na Buriátia, região entre o lago Baikal e a Mongólia, as pessoas falam uma língua parecida com o mongol e praticam o budismo. Mas lá existem aldeias russas onde mulheres vestidas de sarafans bordados ostentam seus tradicionais trajes russos de até 200 anos de idade. Mesmo antes de adentrar os vilarejos, a mudança de paisagem é marcante: em vez de pastagens e campos improdutivos, é possível ver grandes áreas cobertas por trigo.

Essas são as propriedades dos “Starovéri”, os chamados “semeiskie”. No final do século 17, eles fugiram para a Polônia durante a reforma da Igreja Ortodoxa Russa, e mais tarde, após a conquista de parte deste país pelo Império Russo, foram expatriados para uma região onde ficava a fronteira com a China. 

Infográfico:

 

A cisão da Igreja Ortodoxa Russa foi desencadeada pelo desejo do Patriarca Nikon de celebrar os cultos conforme os padrões antigos bizantinos, aperfeiçoar a alfabetização do clero, livrar-se dos rituais que haviam perdido sentido e devolver força à oração. No século 17, a Rússia já era oficialmente cristã há 600 anos. Mas, nesses tempos, os inúmeros erros cometidos por pessoas que copiavam os livros litúrgicos haviam deturpado o seu sentido. Poucos sacerdotes eram alfabetizados e muitos sequer entendiam aquilo que estavam a repetir.

A reforma da Igreja era necessária, mas a intransigência de Nikon durante a sua implantação acabou levantando suspeitas. Muitos sacerdotes e leigos não entenderam nada das inovações introduzidas. Por que a “Santa Rússia”, que sobreviveu à invasão dos tártaros e polacos e permaneceu em pé diante do sofrimento, deveria ser orientada pela sabedoria grega, sobretudo porque toda a hierarquia ortodoxa grega estava sob o comando dos sultões turcos? Os dissidentes tornaram-se, então, os “fiéis antigos”.

Como é frequente nas disputas religiosas, as diferentes posições pareciam, de certa forma, espontâneas e incompreensíveis. O sinal da cruz deveria ser feito com dedos ou três dedos? O correto era escrever Jesus ou Iesus? Alguns nomes foram corrigidos no Credo, mas em nome dessas mudanças as pessoas estavam prontas para fugir do país ou serem torturadas e queimadas na fogueira. Ser um raskolnik (dissidente, em português) virou um crime e o delator recebia a propriedade do condenado.

Perseguição

Os dissidentes também foram se dividindo em diferentes cultos e práticas. A questão principal era onde encontrar os líderes religiosos, já que os padres ortodoxos deveriam ser crismados e pertencer a uma hierarquia chefiada por um bispo ou outra entidade espiritual. Por muito tempo não houve nenhum bispo-raskolnik e, consequentemente, não havia ninguém para dar ordens aos padres.

Parte dos dissidentes resolveu esse problema de maneira radical, abandonando de vez o sacerdócio e os padres (tornando-se os chamados “bezpopóvtsi”). Outra parcela nomeava entre si os sacerdotes determinados por bispos que haviam assumido a reforma. Mais tarde, conseguiram criar algumas h bezpopóvtsi ierarquias para os “fiéis antigos”.

Os bezpopóvtsi dividiram-se também por várias razões, como, por exemplo, sacramentos da Igreja. Afinal, uma vez que não existia sacerdotes, não havia quem oficializasse batizados, funerais e casamentos. Em algumas de suas práticas, as funções de um sacerdote passaram a ser exercidas por cidadãos de maior respeito, como em outras seitas protestantes. Em outros casos, simplesmente desistiram de determinados sacramentos, como o matrimônio. Isso significa que eles também se afastaram do casamento e da procriação, pois “não iriam ter filhos no pecado”.

Os “fiéis antigos” foram, assim, perseguidos no Império Russo e na União Soviética. Exemplo disso foram os “semeiskie” realocados a força do território da atual Bielorússia para a costa do Baikal. Ali conservaram o idioma russo, bem como o vestuário, as tradições e as músicas dos tempos de Pedro, o Grande, na virada do século 18. Muitos também se refugiaram voluntariamente nos montes Urais, na Sibéria e até mesmo no exterior. Tanto é que existem comunidades de “fiéis antigos” russos no Canadá, nos Estados Unidos e na América do Sul.

O percursos de suas viagens era igualmente surpreendente. Alguns fugiram das autoridades soviéticas para a China, estabelecendo-se nos arredores da cidade de Harbin, região que antes da Revolução havia sido praticamente uma colônia russa. Após a Segunda Guerra Mundial, eles foram levados para os Estados Unidos, e muitos acabaram se fixando na América do Sul ao longo dos anos.

Impulso capitalista

O final do século 19 na Rússia foi marcado por um crescimento econômico frenético, e uma das locomotivas desse crescimento foram os “fiéis antigos” capitalistas que não haviam fugido. Mamontov, Morozov, Riabuchinski e Tretiakov (amante da arte e fundador da conhecida Galeria Tretiakov) são todos nomes de Rothschilds e Rockefellers russos.

Apesar da tentação de associar a prática dos Starovéri à “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, e comparar a riqueza dos “fiéis antigos” russos com a acumulação de bens materiais e a salvação pelo trabalho típica dos protestantes, esse é um erro cometido com frequência.

Mas, na realidade, a diferença é muito grande.  O dinheiro dos Starovéri não pertencia a eles. As comunidades de diferentes cultos criavam uma verdadeira economia paralela, concediam empréstimos preferenciais e isentos de juros aos correligionários, e eram engajados no que pode-se chamar de seguro social. Os empresários dessas comunidades se ocupavam da gestão de todo o capital da região, e declaravam os bens como sendo de sua propriedade para diminuir a tributação, assim como evitar a pressão e extorsão por parte das autoridades. No início do século 20, esse grupo de capitalistas entraram de cabeça na política, facilitando a vida dos trabalhadores em suas fábricas na tentativa de implantar uma legislação trabalhista inteligente, baseada em “responsabilidade social”.

Paralelamente, alguns membros dos clãs das finanças e das indústrias flertavam com os revolucionários e os supriam com dinheiro. Isso era feito principalmente para pressionar o governo imperial. Já no início da Revolução de 1917, os “fiéis antigos” eram fortes o suficiente para exercer pressão sobre o rei.

Atualmente existem na Rússia milhares de Starovéri, embora continuem enfrentando problemas graves. As maiores dificuldades são enfrentadas pelos bezpopóvtsi, pois a urbanização prejudica as formas tradicionais e a transmissão das regras da vida de geração para geração. O número de bezpopóvtsi, até mesmo na povoada Pomerânia, está caindo vertiginosamente, conforme mostra o relatório do sacerdote Ioann Sevastianov, prior da Comunidade de Fiéis Antigos de Pokrovskaia, na cidade de Rostov-na-Donu. Ainda assim, “a velha crença está aos poucos superando os limites daquele grupo ao qual foi destinado, está lentamente se livrando daquela mancha cultural que mascarava a verdade, tornando-se a imagem da Verdadeira Igreja de Cristo para um grande número de pessoas”, afirma o documento.

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