“Morreu o homem mais importante do mundo”

Foto: AP

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No 60° aniversário da morte de Stálin, a Gazeta Russa reúne relatos que recontam como a notícia foi recebida em 1953.

A morte do líder soviético Joseph Stálin foi anunciada há exatamente 60 anos. No dia seguinte ao anúncio, a urna com os restos mortais de Stálin foi exposta para visitação pública na Casa dos Sindicatos, no centro de Moscou, para que as pessoas pudessem prestar uma última homenagem.

A quantidade de pessoas que chegaram chorando para dar o último adeus ao líder soviético era tão grande que muitas [o número de vítimas é desconhecido até hoje]) morreram pisoteadas pela multidão aglomerada na praça Trubnaia.

Dalila Ovanesova, aluna escolar

No dia da morte de Stálin, fomos reunidos na sala onde estava o busto do líder soviético. Ao pé dele, estava uma guarda de honra de pioneiros e ouvia-se música fúnebre. Todos os alunos e

professores estavam chorando de luto. Eu não estava chorando, estava perdida. As aulas foram suspensas e todos os alunos foram liberados para casa. Quando cheguei em casa, senti que meus familiares estavam felizes e tentavam esconder sua alegria. Vi um brilho especial nos olhos de minha mãe, ela estava invulgarmente feliz. Quando digo “minha mãe”, refiro-me à minha avó, pois ela foi responsável pela minha criação e a de meu irmão. Meu tio (filho da minha “mãe”), o escritor Iúri Dombrovski, foi preso e colocado em um campo de concentração e nunca falamos sobre ele. Naquela época, não se podia discutir tais coisas com ninguém e muito menos com as crianças. Como um dos meus familiares estava no campo de concentração, os pais de uma amiga da escola, Valia Neskuchaeva, proibiram que ela mantivesse amizade comigo. “Meus pais me dizem que eu não posso ser tua amiga porque você é de uma família duvidosa”, disse ela. Naquela época eu não entendia o significado dessa palavra.

Aleksandra Grigorieva, estudante de pedagogia

Eu estava no 4º ano do Instituto de Pedagogia da cidade de Balei, no Transbaikal. Éramos obrigados a aprender as citações de Stálin de cor. Estávamos na aula quando alguém bateu à porta. Nossa professora saiu e, ao retornar, sentou-se à mesa, colocou as mãos no rosto e começou a chorar. Depois, olhou para nós e disse em voz baixa: “Stálin morreu”. Todos nós choramos. Nossa turma, em sua maioria, era constituída por moças e três rapazes. Eles também choraram. Eu e duas amigas minhas alugávamos um quarto em um apartamento que era partilhado com um velho comunista. Ele trabalhou toda sua vida em uma mina de ouro. Quando chegamos do Instituto, ele estava sentado em um banco no pátio chorando: “E aí, mocidade, como vamos viver agora? Nosso pai morreu”. Nós realmente não sabíamos como iríamos viver sem Stálin.

Víktor Erkovich, aluno escolar

Eu morava em uma vila de operários nos arredores da cidade de Nijneudinsk, na região de Irkutsk, e cursava a oitava série. Toda a vila estava chorando sem tentar conter as emoções. A vida parecia estar parada. Para nós, militantes do Komsomol (União da Juventude Comunista), a morte de Stálin foi mais trágica do que a Grande Guerra Patriótica [como é chamada a Segunda Guerra Mundial na Rússia]. Eu estava deitado em cima da carteira em nossa sala de aula entendendo que devia chorar, mas, por algum motivo, não conseguia. Sentia-me incomodado por não estar chorando nesse momento trágico, então, passei a saliva debaixo dos olhos para simular o choro.

Félix Kvasha, estudante do Instituto de Máquinas e Ferramentas

Eu estava no segundo ano da faculdade e morava em um alojamento estudantil em Cheremetievo, nos arredores de Moscou. Os quartos eram grandes, com capacidade para cerca de 20 alunos. Soubemos da morte de Stálin pelo rádio ao fim da tarde, depois das aulas. Todos ficaram chocados e começaram a chorar. A sensação era de que o fim do mundo tinha chegado. Mas eu não chorava nem me descabelava.

No dia seguinte, fomos levados à Casa dos Sindicatos para prestar a última homenagem ao líder soviético, onde pelo menos 500 pessoas faziam fila para entrar. Quando entardeceu, entramos na praça Trubnaia e ali havia milhares de pessoas amontoadas. Naquele momento, poucos de nossa turma restavam na fila. A
lguns fugiram, outros foram dispersos pela multidão. Ao longo da avenida, havia caminhões e soldados. A multidão era tão grande que permaneceu imobilizada durante a noite inteira. Alguns tentaram sair e passar por baixo dos caminhões, mas foram empurrados de volta com violência por soldados, outros acabaram presos e metidos nos caminhões. A pior coisa era ficar apertado contra um caminhão.

Passamos de pé a noite inteira sem comer, nem beber, nem ir ao banheiro. Eu estava a cerca de 300 metros da praça. De repente, veio um grupo de rapazes de 16 ou 17 anos discutindo a possibilidade de fugir pelos telhados. No fim das contas, esses garotos me salvaram, empurrando-me para dentro de um prédio. Subimos no telhado e ficamos em uma rua paralela, na Tsvetnoi Bulvar; exaustos, porém vivos.

Valentina Chichkina, aluna escolar

Estávamos em casa quando soubemos da morte de Stálin pelo rádio. Todos começaram a chorar e eu também chorei muito. Morreu o homem mais importante do mundo, amado mais do que a mãe e o pai. No dia seguinte, fui à escola para participar de um ato de luto. Lá todos também choravam. Minha irmã mais velha, Tamara, e sua amiga foram assistir ao funeral, embora nossa mãe fosse terminantemente contra. Percorreram a pé seis ou sete quilômetros, porque a circulação dos bondes havia sido suspensa. Quando chegaram à praça, viram que ela estava cheia de gente e que o tumulto já estava começando. Elas ficaram com medo, passaram por debaixo de um caminhão e voltaram para casa. 

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