Obra rara de Tolstói ganha tradução direta para português

Cossacos, ilustração do  livro

Cossacos, ilustração do livro

Fora de catálogo havia décadas, “Os Cossacos” recebe primeira versão traduzida diretamente do russo.

Pouco conhecida entre as obras de Tolstói, “Os Cossacos” goza de grande reputação entre seus leitores. Um dos entusiastas, Ivan Búnin, que venceu o Nobel em 1933, referia-se ao romance como “um dos mais belos da língua russa”. Esgotado por aqui fazia décadas, ganha pela primeira vez tradução direta do russo, tarefa a que se dedicou a russa radicada no Brasil Klara Gourianova, numa edição do selo Amarilys, da Manole, casa editorial paulistana que deve ampliar seu catálogo de russos.

“Os Cossacos” conta a história de Olénin, bem-nascido mas desencantado jovem de Moscou que se junta ao exército no Cáucaso em fins do século 19. Na convivência com os cossacos, em meio à paixão por Mariana, uma moça da comunidade, passa a questionar os valores da sociedade à qual pertence.

A obra guarda traços autobiográficos: Tolstói, assim como Olénin, parte aos 21 anos em busca de aperfeiçoamento moral no Cáucaso, uma cordilheira montanhosa situada entre o Mar Cáspio e o Mar Negro que separa o sul da Rússia e o norte do Irã. Acredita que o contato com a natureza contribuirá para que cumpra seu intento na jornada. Logo se alista no exército de cavalaria como cadete, para levar a vida de um oficial da nobreza, decisão que acaba por ser frustrante para quem aspirava seguir caminho oposto ao da guerra. Os russos, ao lado dos cossacos, combatiam contra os montanheses pelo domínio da região.

Ainda autor inédito à época, está em vias de concluir o primeiro livro, “Infância” (1852). Observando o Cáucaso daqueles dias, também escreve rotineiramente em seu diário, e faz anotações sobre a paisagem e seus moradores. Anotações que vão ser aproveitadas: por dez anos, se ocupará de recriar o que viu, para enfim publicar “Os Cossacos” (1863), projeto que o habilitaria a conceber outras de maior fôlego, como “Guerra e Paz” (entre 1865 e 1869) e “Anna Kariênina” (1878). Não apenas pelo valor literário, o livro se destaca, portanto, na trajetória do autor por assinalar sua virada de aprendiz para mestre.

Essa obra de Tolstói chegou ao mercado brasileiro quando os russos começam a ser lidos com avidez por aqui, nas primeiras décadas do século 20. Não havia mais edição brasileira desde então. A primeira é provavelmente a que saiu em 1931, por uma pequena editora chamada Marisa, depois se torna parte do catálogo da José Olympio, em 1942, e é editada pelo Clube do Livro dois anos depois, como registra o catálogo online da Fundação Biblioteca Nacional.

A Manole tem colocado livros russos no seu catálogo internacional desde 2011. Os dois primeiros, naquele ano, foram "A morte de Ivan Ilítch e outras histórias", também de Tolstói, e "O duelo", de Tchecov. Ambos, assim como “Os Cossacos”, têm capa, projeto gráfico e ilustrações de Hélio de Almeida. “A ideia de publicar autores russos partiu do dono da editora, Dinu Manole, que é um grande apreciador da literatura russa”, informa um dos editores responsáveis, Enrico Giglio de Oliveira. “A partir daí, entramos em contato com tradutores e estudiosos da área e começamos a receber projetos. Selecionamos aqueles que achamos mais interessantes e começamos a montar uma linha de literatura russa dentro do selo Amarilys”. Saem outros dois volumes ainda este ano, “Águas de Primavera”, de Turguéniev, e uma antologia de contos de Bunin.

Os russos também já estão presentes no catálogo de literatura infantil. No começo de 2012, entraram dois volumes ilustrados que compilam as principais fábulas de Krylov, traduzidas e adaptadas por Tatiana Belinky. Krylov, autor russo em atividade entre fins do século 18 e início do 19, tem a princípio influência de Esopo e La Fontaine, depois adquire um estilo próprio, marcado pela crítica à burocracia. “Para mim foi um desafio publicar os russos principalmente por não ter conhecimento da língua”, diz Giglio de Oliveira, que também responde pelos livros para crianças. “Sempre que ficava com dúvidas em alguma passagem da história, recorria à Klara Gourianova, que é uma tradutora de grande prestígio e domina muito bem o assunto.” Como lembra o editor, publicar autores clássicos é “sempre grande responsabilidade”: “é preciso ter muito cuidado com a tradução, que é a etapa mais importante da edição nesse caso, com o tratamento dado ao texto, com as informações adicionais que se pretende inserir na obra e com a forma em que esse conteúdo será apresentado.”

Há outros autores de países do Leste Europeu no catálogo da Manole. Como Norman Manea, com “O retorno do hooligan”, traduzido diretamente do romeno, e Aharon Appelfeld, com “Badenheim 1939”, traduzido do hebraico – o autor, da mesma região da Romênia de Manea, teve infância marcada pelo nazismo e escreve no idioma judaico. Está prevista ainda edição de um livro de não ficção relacionado com a vida literária russa: trata-se de "The wives: The Women Behind Russia's Literary Giants” [As esposas: as mulheres atrás dos gigantes literários da Rússia], de Alexandra Popoff. Ainda sem título em português, com previsão de lançamento em abril. Aborda o papel das mulheres de grandes escritores russos na criação, proteção e divulgação de suas obras. Entre os casais abordados, incluem-se Tolstói, Dostoiévski, Nabokov, Soljenitísin.

 

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