A vida a 2.000 metros

Foto: Lori/Legionmedia

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O casal Tatiana e Ibram Kurbanov trabalha em uma das mais remotas estações meteorológicas russas, na República de Altai, a 2.000 metros acima do nível do mar, onde de tempos em tempos chegam alpinistas, pintores, xamãs, ufólogos e arqueólogos.

Tatiana Kurbanov trabalha em uma das mais remotas estações meteorológicas russas, na República de Altai.

A 2.000 metros acima do nível do mar, às margens do Lago Akkemsky, onde de tempos em tempos chegam alpinistas, pintores, xamãs, ufólogos e arqueólogos, existem duas pequenas casas de madeira. Uma é habitada e a outra abriga a instalação da estação meteorológica.

Todos os dias, de dia e de noite, Tatiana lê os indicadores dos equipamentos a cada três horas, os criptografa e transmite por rádio para Novosibirsk e Gorno-Altaisk.

Seu marido, Ibram Kurbanov, nascido no Daguestão, veio para a estação meteorológica do Altai Montanhoso ainda durante a União Soviética, por designação.

Tatiana, nativa do Altai, trabalhou inicialmente como motorista de caminhão nas estradas locais. Depois formou-se meteorologista.

O futuro marido, no início um novo colega, veio para ela do céu —em um helicóptero. Naquela época, a comunicação entre as áreas remotas do Altai era feita pelo ar.

Hoje, os Kurbanov têm quatro filhos: o caçula, Aivar, vive e trabalha com os pais, a mãe está lhe ensinando a profissão.

Uma estação como a Akkem deve ter seis colaboradores em seu quadro. Logo, cada membro da família Kurbanov literalmente trabalha por dois.

Além das obrigações profissionais, os meteorologistas têm ainda os trabalhos do dia a dia, afazeres rurais corriqueiros, ajustados para a altitude e a distância. Juntar lenha, aquecer os fornos, assar pão. No inverno, limpar a neve. No verão, cuidar da horta.

Os produtos, entre eles a carne, chegam à estação de helicóptero. Às vezes, no entanto, a carne é obtida com a caça na taiga.

Visitantes

Tatiana mostra dois álbuns grossos de fotografias:

“Aqui estão cientistas do Japão e um professor japonês, ufólogo famoso. Nessa outra uma garota da Austrália. Aqui, um xamã da Finlândia.”

Ela mostra uma foto de um homem vestido com peles.

“Ele é um bom xamã. Tem seu próprio site. Gostou muito daqui. E aqui está Carol Hiltner, de Seattle. Uma dia, ela sonhou com a Belukha, sobre a qual ela não sabia nada. Mas encontrou a montanha. E agora vem aqui a cada verão.”

Na foto, Carol está de cabelo curto, sorrindo e com uma marca registrada de todos os que visitam a Belukha, um nariz brilhante e queimado.

Carol é pintora e depois das viagens pelo Altai criou mundos mágicos sobre a tela, nos quais adivinham-se as montanhas familiares, os rios e as cachoeiras. Ela também escreveu artigos e um livro sobre as suas viagens, onde conta que a terra do Altai é especial e que dela terá início o renascimento da Terra.

Trabalho

Mas é hora de coletlar os indicadores meteorológicos. Na gíria dos profissionais da área se diz que “é hora de ir para os prazos”.

Os sinóticos prevêem o tempo, enquanto que os meteorologistas o observam, explica Tatiana.

“Basicamente, fazemos leituras nos equipamentos, mas algumas coisas definimos visualmente. Nuvens, por exemplo. Aqui você olha e vê simplesmente nuvens, não é?”, indaga Tatiana.

Ela ergue novamente os olhos para o céu.

“Mas eu distingo muitos tipos de nuvens. Aqui estão as chamadas cumulus. Estas são as de forma de espinha de peixe. Estas aqui, em forma de ganchos, cirrus uncinus. Estas são as cirrus intortus. E estas, Stratocumulus undulatus. Aqui estão as de forma de charuto. Quando essas nuvens aparecem, pode esperar por chuva, ou mesmo furacão. Ele pode estar a milhares de quilômetros, mas olhando as nuvens é possível identificá-lo."

Quando todos os indicadores estão registrados, ela compõe um telegrama codificado e passa por rádio uma longa lista de números.

No meio da cadeia numérica surge um nome: Shura.  

"Significa seis, é usual entre os operadores de rádio", explica Tatiana, que pede para o filho  continuar a sessão de comunicação.

"Ele é meteorologista nato," diz a mãe rindo. 

Aivar, o caçula de quatro filhos dos Kurbanov, passou toda a sua vida na estação meteorológica, exceto durante os anos de escola, quando foi morar com familiares na capital.

Antes da estação meteorológica Ak-kemskaia, Tatiana e Ibram trabalhavam em outra região do Altai Montanhoso, também em um local remoto.

Na década de 1990, quando as estações meteorológicas passaram a ser fechadas devido à falta de financiamento, os Kurbanov começaram complementar a renda com dinheiro próprio. Depois de trabalhos de conservação, ganharam a vida abrindo o seu café.

Mas no outono de 2005, receberam a nomeação para a estação meteorológica Akkem.

Na despedida, Tatiana informa sobre mudanças:

“Teremos a instalação de uma estação americana automática. Ela coletará os dados e os enviará para um computador.”

“E a senhora não vai mais precisar correr para fora com qualquer tempo, dia e noite?”, pergunto.

“Não, nós também vamos correr, coletar os dados. Automação é bom. Mas o ser humano é mais confiável.”

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