“Oblomov” ganha primeira tradução direta em edição luxuosa da Cosac Naify

Rubens Figueiredo Foto: Rafael Munduruca

Rubens Figueiredo Foto: Rafael Munduruca

Demorou um século e meio, e enfim “Oblomov”, obra-prima da literatura russa, chega em tradução direta para os leitores brasileiros. Uma demora que, apesar do prejuízo para o público daqui, decerto bem combinava com o estado de alma do protagonista cujo nome dá título à história criada por Ivan Gontcharov (1812-1891).

liá Ilitch Oblomov passa o dia inteiro vestido de roupão sem sair do divã.  Aassim como seu autor, é filho da classe decadente dos senhores rurais russos às vésperas do fim da servidão. A própria imagem da indolência, dorme e boceja todo tempo: “ficar deitado não era nem uma necessidade, como é para um doente ou para alguém que deseja dormir, nem um acaso, como é para alguém que está cansado, nem um prazer, como é para um preguiçoso: tratava-se de um estado normal”, conta-nos o narrador.           

Incapaz de fazer o que quer que seja, até planeja, porém sem ter ânimo para executar. Os dias se repetem sem variação: “assim que acordou, ele prontamente resolveu que iria levantar-se, lavar-se e, após beber seu chá, refletir de modo adequado, chegar a alguma conclusão, anotá-la e, no geral, ocupar-se com aqueles assuntos da maneira devida. Continuou deitado por mais meia hora, atormentando-se com aquela intenção, mas depois considerou que ainda teria tempo de fazer aquilo após o chá e que poderia muito bem tomar o chá como de costume na cama, tanto mais porque nada o impedia de pensar e continuar deitado.”

O constante interlocutor é o criado Zakhar, agregado da família desde criança. Com o patrão, tem uma ligação que varia entre o devotamento à simples pirraça, sem deixar de ser um servo sempre: traz-lhe o que comer, calça suas botas. Nesse convívio, há ainda Olga, cantora lírica que ama Oblomov mas acaba por se casar com o alemão Stolz, um colega de infância do protagonista que é em tudo diferente, trata-se de um grande trabalhador que, pleno de vitalidade, se empenha pelo futuro. 

 

Ao contrário do que o leitor pode pensar, não se trata de um livro em que nada ocorre.  Pois seu protagonista se mete numa inquietante trama de adiamentos, desfazeres e irresoluções. De certo modo, lembra Bartleby, personagem inventado pelo americano Herman Melville mais ou menos na época. Este é um escrivão que, a cada pedido do chefe, numa Nova York em franca expansão capitalista da virada do século, responde com a mesma frase, “prefiro não fazer”, uma das mais conhecidas na história da literatura. Não é resistência, do tipo da alcançada a seu modo por Bartleby, que mobiliza –melhor seria dizer desmobiliza— Oblomov.  Para essa abulia e inércia que o caracteriza, há mesmo uma expressão, o “oblomovismo”, termo que passou a ser adotado na Rússia desde a publicação da obra.

Quem primeiro usou a definição de “obra-prima” foi Tolstói, mestre da literatura russa que era temido como crítico. Preocupado com opinião tão respeitada, Gontcharov escreveu pedindo que, durante a leitura, saltasse a parte que achava ruim, escrita quase uma década antes de publicar: “Não leia a primeira parte se tiver tempo, no entanto, leia por favor a segunda e terceira partes, que escrevi bem mais tarde.” Escreveu-lhe depois, contente com a boa apreciação: “Há muito quero lhe agradecer calorosamente pelos comentários gentis”. Um pouco adiante, na mesma carta, diz: “Suas palavras têm um valor especial para mim, ainda mais sabendo o quão rigoroso é seu julgamento”. A correspondência é de 1859, ano do lançamento. Antes de “Oblomov”, Gontcharov fizera um romance de formação, "Uma História Trivial", depois, publicou "A Queda”, do gênero retrato de artista.

 

Rubens Figueiredo, tradutor de, entre outros, o próprio Tolstoi, teve a missão de trazer a obra para o português. Cuidou também da apresentação. A edição inclui um posfácio do crítico italiano, Renato Poggioli (1907-1963), especialista em literatura russa. A edição tem capa dura, revestida de tecido. Em papel-bíblia, as páginas trazem ilustrações que aludem às estampas de tecidos usados pela aristocracia daquele tempo de Oblomov.

As perguntas seguem para o tradutor. Para quem cumpriu há pouco a longa travessia de verter a nova edição de “Guerra e Paz”, de Tolstói, o “Oblomov” seria uma empreitada mais simples no que se refere a estilo, temática, vocabulário ou contexto? “Pode-se dizer que é um trabalho mais simples”, diz Figueiredo.

A obra de Tolstói, explica ele, “explora dimensões sociais e históricas muito abrangentes, e sua marca é a grande diversidade de situações, de personagens e de seus pontos de vista”.  “Oblomov”, por sua vez, “prima pela concentração, pela fixação num ponto, pela reiteração, pela ausência de desenvolvimento ou pelo menos pelo desenvolvimento muito vagaroso”. Isso dá, com explica, o ritmo do livro. “Em consequência, o vocabulário e o estilo de ‘Oblomov’ é mais restrito, quantitativamente falando.” Sua opção foi, como conta, “seguir, o máximo possível, as preocupações e as características linguísticas do original. As formas dos diálogos, as expressões que servem de marcas nos diálogos foram traços que tentei preservar.”

O tradutor chama a atenção para uma questão-chave: a palavra “oblomovismo”. Diz Figueiredo: “como é tradição, me trouxe uma certa dor de cabeça. O sufixo no texto russo não é o grego –ismo, mas sim um sufixo vernáculo russo. Consultei pessoas que conhecem o russo muito mais do que eu e verifiquei que a questão era controversa e até
polêmica. Poderia optar por algo como oblomovite, também do grego, ou, talvez a  melhor, oblomovice, este um sufixo vernáculo do português. Mas, ao sugerir essa solução para especialistas, a maioria repudiou a ideia. Como não tinha muita segurança e, sobretudo, tratava-se de um detalhe sem maior peso no sentido geral do livro, adotei a forma mais conservadora, digamos assim. Mas hoje não sei se faria o mesmo.”

Entre os projetos de Rubens Figueiredo, também ficcionista premiado --“Passageiro do Fim do Dia”, o mais recente, o fez vencer o Prêmio Portugal Telecom de 2011 --, há a tradução de um grande volume com todos os contos de Tolstói, previsto pela Cosac Naify para o próximo ano.  O “Guerra e Paz” de que cuidou, lançado em fins de 2011, está na segunda edição.

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