Estrago olímpico já foi feito

Ekaterina Koneva, do salto triplo, é uma das representantes do atletismo russo afetada por proibição

Ekaterina Koneva, do salto triplo, é uma das representantes do atletismo russo afetada por proibição

AP
Recente escândalo de doping minou a credibilidade da Rússia e causou danos irreparáveis ​​à potência esportiva. Para os atletas russos, evento no Rio se converteu em uma luta não só por medalhas, mas para recuperar a reputação do país.

A equipe olímpica da Rússia recebeu sinal verde para participar nos Jogos no Rio, após o veredito emitido pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) no domingo. Mas é sinal verde mesmo? A imagem que fica é de alguém chegando a um restaurante chique, mas o maître não quer deixá-lo entrar, mesmo que tenha reservado uma mesa, e, só depois de um longa batalha com o gerente, é convidado a entrar em meio a escárnio. Tem como não estragar o humor e o apetite? É exatamente assim que os membros da equipe russa estão se sentindo à beira dos Jogos Olímpicos.

O COI não proibiu a Rússia, mas o delegou a aprovação da participação dos atletas às federações esportivas internacionais, que podem negar a entrada daqueles que não preencham os requisitos definidos pelo COI e pela Wada (Agência Mundial Antidoping). Isso significa que o futuro dos competidores russos está nas mãos das federações globais, mas alguns atletas já chegaram ao Rio no domingo. O que devem fazer agora? Sentar-se sobre a mala ainda fechada aguardando a aprovação final? Ou refazer a mala e retornar humildemente à Rússia, como no caso dos nadadores barrados que já haviam chegado ao Brasil e foram barrados do evento nesta segunda?

Não há dúvidas de que o humor da equipe foi estragado por todos os acontecimentos escandalosos envolvendo o país recentemente. Imagine só a sensação de treinar sob tal pressão sem saber o que iria acontecer no futuro próximo. O Comitê Olímpico Russo chegou até mesmo a cancelar um bota-fora cerimonial para seus atletas, uma vez que a participação da equipe nos Jogos era incerta até o último momento.

Apenar por ter considerado a possibilidade de assumir uma proibição geral, o COI já manifestou desconfiança em relação ao Ministério dos Esportes da Rússia e aos atletas do país. A reputação da Rússia foi substancialmente manchada e levará anos para reverter essa imagem e restaurar o antigo prestígio.

Participantes de outros países agora lançarão olhares desconfiados para os campeões russos, cujas vitórias serão constantemente questionadas. Como resultado, os membros da equipe passarão inúmeros testes adicionais iniciados pela Wada. O mais recente escândalo de doping minou a credibilidade da Rússia e causou danos irreparáveis ​​a sua imagem de potência esportiva.

Apenas lembrando, os representantes do atletismo russo foram banidos da Rio-2016, e de outros campeonatos mundiais, devido a violações das normas antidoping. No entanto, 68 membros foram injustamente punidos, incluindo a bicampeã olímpica do salto com vara Elena Isinbaieva. Além disso, os próximos Jogos Olímpicos serão realizados também sem a campeã mundial de salto em altura, Maria Kuchina, e o campeão mundial dos 110 metros com obstáculo, Serguêi Chubenkov.

Os Jogos Olímpicos são o pináculo do esporte e a meta mais elevada de todos os atletas do mundo. É, portanto, desastroso perceber que se tem a chance de lutar por um lugar no pódio, mas não permissão para competir.

O ex-corredor de média distância norte-americano Don Paige, por exemplo, lamenta até hoje ter perdido a chance de ganhar uma medalha nos Jogos de 1980, em Moscou. Paige, que possuía naquele ano o tempo mais rápido para a corrida de 800 metros, poderia ter lutado pelo ouro, mas não compareceu ao evento devido ao boicote dos Estados Unidos. No final, Steve Ovett acabou vencendo a prova na Olimpíada, enquanto Sebastian Coe, que havia conquistado outo nos 1.500 m, ficou com a prata. Quem diria, porém, que, 36 anos mais tarde, este homem iria tomar a decisão de defender a proibição da equipe olímpica de atletismo russa?

Curiosamente, Sebastian Coe, que participou dos Jogos Olímpicos de 1980, colocou-se a favor de medidas duras contra a Rússia, enquanto Thomas Bach, ex-campeão olímpico alemão de esgrima e atual presidente COI, que não pôde participar dos Jogos em Moscou, insiste que os atletas limpos não sejam punidos.

Escândalos de doping sempre existiram nos esportes. Basta lembrar dos famosos velocistas norte-americanos Marion Jones e Tim Montgomery, que perderam todas as suas medalhas e registros por conta do uso de substâncias proibidas. O caso de doping de Lance Armstrong também produziu um efeito-bomba no ciclismo. No entanto, a equipe olímpica dos EUA não sofre retaliações devido a seu histórico de doping.

Na Olimpíada anterior, em Londres, a equipe da Rússia terminou em quarto lugar na classificação geral, com um total de 23 medalhas de ouro. Agora, na ausência do atletismo, esse resultado será dificilmente superado. Os Jogos Olímpicos sempre foram o maior evento do mundo esportivo, mas, infelizmente, para a seleção nacional da Rússia, a competição já se converteu em uma luta não só por medalhas, mas para recuperar a reputação do país.

Elena Dilber é uma jornalista esportiva internacional baseada em Moscou.

Publicado originalmente pela agência de notícias TASS

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