O gosto amargo do embargo à UE

Produtores rurais franceses levam suas reclamações e 1.500 tratores às ruas de Paris.

Produtores rurais franceses levam suas reclamações e 1.500 tratores às ruas de Paris.

Getty Images
Após sanções europeias, restrições russas a alimentos da UE estão inundando os mercados internos e arruinando produtores.

A crise da Ucrânia se tornou uma questão vital para os agricultores europeus. A guerra das sanções entre Rússia e União Europeia levou a um excesso de oferta de alimentos e à queda dos preços.

Por outro lado, a integração da Ucrânia à UE poderia gerar nova concorrência. “Os agricultores não querem a Ucrânia na UE. Em primeiro lugar, eles têm trigo muito barato. Se o euro cair ainda mais e as taxas de juros subirem, haverá um colapso de todo o setor”, diz o agricultor irlandês John Ryan.

No dia 3 de setembro, milhares de agricultores, acompanhados por 1.500 tratores, bloquearam as principais vias de Paris em protesto contra o aumento dos impostos e a imposição de padrões ambientais cada vez mais rigorosos, que, aliados à queda dos preços dos alimentos, derrubaram os rendimentos agrários. Após o episódio, o presidente francês François Hollande prometeu socorrê-los.

Efeito dominó

Frase

"A agricultura foi o único setor a sentir o baque resultante da política externa e da decisão russa. A Rússia é destino de 10% dos produtos lácteos do mundo, e a Europa era seu fornecedor número um."

Phil Hogan

O descontentamento se espalhou como erva daninha pela Europa. Ao longo da fronteira espanhola, em Santiago de Compostela, ocorreu manifestação semelhante apenas uma semana depois.

Na Irlanda, os agricultores despejaram todo o leite à venda em supermercados locais para manifestar sua raiva. Em Bruxelas, produtores de regiões tão distantes como a Finlândia se reuniram para exigir uma intervenção da UE.

Logo, 500 milhões de euros foram alocados para medidas de socorro ao setor. Mesmo assim, Albert Jan Maat, líder da principal organização de agricultores da UE, a Copa-Cogeca, não ficou satisfeito.

“Os produtores da UE perderam seu principal mercado de exportação, a Rússia, no valor de 5,5 bilhões de euros ao ano. Um pacote de ajuda de 500 milhões não irá compensar isso”, afirma.

Resposta russa

Os preços dos alimentos, principalmente leite, carne e legumes, caíram bastante neste ano. O motivo é simples: aumentou a oferta interna devido ao embargo alimentício imposto pela Rússia à UE, como resposta às sanções alavancadas pela crise ucraniana em 2014. A Rússia também sofre, e sua economia está em profunda recessão.

Mas a jogada do Kremlin se revelou extremamente eficaz. No final de agosto, o comissário europeu para a agricultura, Phil Hogan, afirmou que são os agricultores locais que pagam pela política externa da UE.

“O único setor a sentir o baque que a política externa e a decisão russa causaram foi a agricultura”, disse. Ele afirmou ainda que se estabeleceu uma “situação muito difícil”, porque a Rússia era destino “de 10% dos produtos lácteos do mundo” e “a Europa ocupava o primeiro lugar entre seus fornecedores”.

Em 2013, antes da disputa causada pela crise ucraniana, um terço das exportações de frutas frescas e verduras da UE tinha como destino a Rússia, assim como um quarto da carne bovina. Quase 75% do repolho, 63% do tomate e 52% de todas as maçãs europeias vendidas no exterior rumavam ao gigante vizinho do leste. De 2003 a 2013, o comércio bilateral saltou dos 90 bilhões para os 325 bilhões de euros.

Como resultado, cresceu a dependência de muitos exportadores europeus em relaçao à Rússia, o que se acentuou ainda mais a partir da crise financeira de 2008.

Mudança de rumo?

À medida que a crise ucraniana parece enfraquecer, surgem sinais de mudança por parte da União Europeia. O ministro da Agricultura francês, Stéphane Le Foll, visitou Moscou em outubro e pediu a seu homólogo, Aleksandr Tkatchov, a revogação dos embargos.

O Kremlin fez objeção, afirmando que o passo seria dado apenas quando a UE cancelasse as sanções à Rússia.

No dia seguinte, o chefe da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, fez um anúncio surpreendente.“Não podemos permitir que nossa relação com a Rússia seja ditada por Washington”, afirmou.

A declaração foi interpretada como um ataque à política norte-americana de submissão da Europa à aplicação de sanções. Junker acrescentou ainda que o Ocidente tem que “tratar a Rússia como se deve” e dialogar com ela de igual para igual.

Números

1.500 tratores tomaram as ruas de Paris em setembro com produtores rurais franceses que protestavam contra a queda dos preços agrícolas

500 milhões de euros foram alocados por Bruxelas para salvar o setor de agricultura da União Europeia. Os lácteos tiveram a maior queda de preços.

5,5 bilhões de euros constituem a perda anual estimada da UE após o embargo russo aos produtos europeus.

 

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