Interferência religiosa no Estado afasta fiéis

Apoio à disseminação de convicções religiosas caiu 25% em duas décadas

Apoio à disseminação de convicções religiosas caiu 25% em duas décadas

Reuters
Pesquisa revela mudança radical de atitude em relação à Igreja Ortodoxa Russa ao longo dos últimos 25 anos. Influência religiosa em questões administrativas e profusão de templos em Moscou geram insatisfação e críticas entre os cidadãos.

Uma pesquisa divulgada em julho pelo Centro Nacional de Pesquisa de Opinião Pública (VTsIOM) revelou que apenas 36% dos russos aprovam a disseminação de convicções religiosas, ao passo que, em 1990, esse índice ultrapassava a marca dos 60%.

“A Igreja está interferindo cada vez mais na vida privada”, critica a líder do movimento “São Petersburgo - Capital Espiritual”, Elena Bábitch. “Não existe diálogo com a sociedade, e isso está deixando as pessoas apreensivas e preocupadas."

O mesmo levantamento também apontou que 23% dos entrevistados veem a propagação da fé como “prejudicial para a sociedade”, enquanto, há 25 anos, essa opinião não era sustentada por mais de 5% dos russos.

“Hoje a Igreja está mais preocupada em fazer negócio do que em trabalhar com a população, ela tem mais interesse por projetos financiados pelo Estado”, justifica Bábitch.

Pela Constituição Federal, a Rússia é um país laico. Há alguns dias, porém, a Câmara de Auditoria e a Igreja Ortodoxa Russa assinaram um acordo de cooperação no combate à corrupção.

Recentemente, a Província Eclesiástica de São Petersburgo também pediu às autoridades municipais que a Catedral de Santo Isaac passe a ser de usufruto livre e ilimitado da Igreja Ortodoxa Russa.

O pedido recebeu uma enxurrada de críticas de defensores do patrimônio público e cidadãos, que temem que um dos principais símbolos da cidade venha a ter acesso restrito.

“Ela nunca pertenceu à Igreja, foi sempre propriedade do Estado, construída com dinheiro público. Temos medo de perdê-la como museu, como atração turística”, diz Bábitch.

Templo vs Parque

Moscou possui, entre igrejas e capelas, mais de 1.000 templos. Grande parte das novas construções se deve ao programa “200 igrejas”, que tem por objetivo garantir locais de culto a curta distância para toda a população da capital.

Porém, segundo o estudo do VTsIOM, 18% dos russos se opõem à construção de uma igreja da fé que professam perto de casa e 43% são contra o aparecimento de templos de outras religiões na vizinhança.

“Estamos assistindo a uma construção desenfreada de igrejas, e as pessoas não concordam com isso”, critica Bábitch. “Tomam o espaço de parques e locais de lazer, embora a cidade já tenha muitas igrejas. Mesmo agora, ficam meio às moscas, com pouquíssimas pessoas nos cultos.”

O moscovita Anton Vassiliev conta que em frente à sua casa, nas imediações do metrô Bábuchkinskaia, havia um parque com uma lagoa. “Era o único lugar onde dava para passear com os filhos e, no inverno, costumávamos descer as colinas do parque de trenó. Agora cercaram a área toda e vão construir uma igreja ali”, diz.

Segundo Vassiliev, os moradores da região chegaram a registrar uma reclamação junto à prefeitura, mas não houve resposta. “Eu sou um homem de fé e não vejo problema em andar 15 minutos para chegar à igreja mais próxima, não entendo por que construir uma bem no parque.”

Fé sem Igreja

Apesar de os russos terem começado a separar o conceito de Igreja e fé nos últimos anos, isso não significa que as pessoas deixaram de crer em valores religiosos.

Ainda segundo o levantamento do VTsIOM, 55% dos entrevistados acreditam que a fé os ajuda na vida. Já em 1990, apenas 23% dos russos compartilhavam dessa opinião.

“São muito mais as pessoas de fé, que acreditam em Deus, do que aquelas que frequentam as igrejas e cumprem os preceitos canônicos”, sugere a psicóloga Elena Galítskaia.

“A fé está dentro das pessoas, no coração, e as regras da Igreja são atributos externos. Por isso as pessoas não sentem qualquer contradição em ver fiéis se opondo à Igreja ou à sua gestão.”

 

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