Criado no estaleiro Vimpel, em Ribinsk, o Kometa-120M, o primeiro modelo de hidrofólio russo dos últimos 20 anos, promete ressuscitar o mercado de transporte fluvial de cargas e pessoas entre grandes cidades e regiões russas, que quase deixou de existir após a queda da União Soviética.

O lançamento ocorreu em julho, durante a feira militar de São Petersburgo.

Paradoxo

Apesar da existência de rios em muitas cidades e regiões russas, como a unidade federativa de Kaliningrado, afastada do território principal do país, a península Kamtchatka e a ilha de Sakhalin, o transporte fluvial de passageiros regular não é praticado nessas áreas, o que reduz a capacidade de locomoção e piora a situação econômica.

O desenvolvimento do setor também poderá aproximar essas regiões à parte continental do país, assim como favorecer o seu crescimento econômico. No entanto, até agora esses processos encontravam-se parados devido à ausência da indústria de fabricação de hidrofólios no território russo.

Liderança perdida

Há pouco tempo, a Rússia foi considerada líder de engenharia e construção de navios de alta velocidade, com uma empresa especializada em Nijni Novgorod, que no passado foi responsável pela criação de navios fluviais famosos tanto no território nacional quanto no exterior.

O Raketa, primeiro hidrofólio soviético, saiu do estaleiro em 1957, cinco anos depois dos primeiros navios suíços e americanos. Logo após, foram criados os modelos Meteor, com capacidade para 128 passageiros (1959), Kometa, com capacidade para 118 passageiros (1961) e Voskhod-2, com capacidade para 71 passageiros (1979). Os hidrofólios russos ganharam fama no mundo todo e foram exportados para EUA, Grã-Bretanha, Itália, Grécia e países de Oriente Médio.

A criação dos veículos fluviais civis foi acompanhada pela construção dos hidrofólios para fins militares, como, por exemplo, do modelo Polesie, fabricado em série na União Soviética no período entre 1984 e 1996. Em 2000 e 2005, os estaleiros russos fabricaram os últimos navios, que foram encomendados pelo governo chinês e destinados à navegação pelo rio Yangtzé. Atualmente, a frota russa de transporte fluvial de alta velocidade inclui apenas os barcos fabricados na década de 1990.

Mais confortável que avião

Serguêi Platonov, diretor do departamento de engenharia de Níjni Nóvgorod especializado em hidrofólios, afirma que o novo modelo Kometa-M tem capacidade para o transporte de 120 pessoas e terá duas versões, sendo uma para o uso em água doce e outra no mar. A última versão é maior que a primeira e possui maior calado, assim como proteção contra a corrosão reforçada. A velocidade máxima é de 60 nós (acima 100 km/h), e a cabine de controle possui certa semelhança com uma cabine de pilotagem de um avião moderno.

Os sistemas de comunicação e controle do navio baseiam-se na tecnologia sem fio. Além disso, do ponto de vista dos passageiros, seus assentos são mais confortáveis que as cadeiras de um avião. Segundo os engenheiros, o hidrofólio é muito econômico e compensará o investimento em até cinco anos. O período de vida útil supera 25 anos.

Na opinião de Andrêi Tretélnikov, analista da agência de investimentos Rye, Man & Gor Securities, a situação atual na Rússia prevê o uso de hidrofólios apenas nos trajetos turísticos (nos rios e canais das cidades de São Petersburgo e Sôtchi, por exemplo). No mercado internacional, o novo hidrofólio russo concorre com os navios ucranianos e japoneses do fabricante Kawasaki, líder atual no mercado asiático.

"Comparando com outros meios de transporte fluvial, os hidrofólios foram criados para andar em alta velocidade, portanto, eles não podem ser econômicos. E esse fato poderá ser comprovado pelo alto preço da passagem", opina Tretélnikov.

"O futuro dos veículos fluviais para o uso civil depende do apoio financeiro do governo, pois a construção dos navios militares está incluída nos programas estatais, enquanto a dos civis depende apenas da atual demanda do mercado", explica Mikhail Barabanov, editor-chefe da revista “Moscow Defense Brief”.

“No momento, não temos uma imagem clara desse mercado, assim como não conhecemos os concorrentes e o volume de tráfego. Portanto, o futuro de qualquer projeto de fabricação dos veículos fluviais de alta velocidade ainda é desconhecido.”