Na última sexta-feira, 26 de outubro, o mundo muçulmano celebrou o Курбан-Байрам (Kurban-Bairan em russo, Eid al-Adha em árabe e Festa do Sacrifício, em português). As imagens impressionantes - de ruas inteiras lotadas de seguidores  do Islã em posição de reverência -, impressionam o mundo a cada ano que passa. Afinal, poucos sabem, mesmo dentre os russos, que o país está caminhando a passos largos para ser um dos grandes pólos muçulmanos do planeta. Vale lembrar que Moscou, por sua vez, já é a cidade mais "muçulmana" da Europa. Mas, isso é um problema?

Para começo de conversa, vamos falar do Kurban-Bairam. A Festa do Sacrifício celebra a disposição de Ibrahim, um dos profetas, a sacrificar seu próprio filho, Ismail, sob o que seria a vontade de Deus. A principal marca do Kurban-Bairan é o sacrifício de animais, nos países onde a legislação não restringe essa prática.

No que tange Moscou, ano após ano a capital bate recorde de sacrifícios de bode - para desespero da população não-muçulmana. O animal é vendido em caminhões por valores que variam de 3 a 10 mil rublos (entre US$ 100 e US$ 400). Apesar de proibida desde 2006 e coibida pela polícia, a prática cada vez mais vai entrando na rotina da capital russa, bem como em suas outras cidades do país.

De acordo com o censo populacional realizado na Rússia em 2010, o número de muçulmanos no país gira em torno de 16,5 milhões, de um total de 143 milhões de habitantes. Ou seja, 11,5% do total de russos segue o Corão. Se o número parece elevado, afinal temos em mente o estereótipo de que a Rússia é um país de eslavos e, consequentemente, cristãos ortodoxos, ele seria bem menor do que se fala.

Em matérias de jornais, nas rodas de conversa e até mesmo presidentes e primeiros-ministros não cansam de repetir: "Na Rússia vivem, hoje, 20 milhões de muçulmanos". Ou ainda "Cerca de 20% da população da Rússia é muçulmana". Tal dado, aparentemente, é incorreto. Trata-se de uma adaptação dos números do último censo da União Soviética, realizado em 1989 - que incluía em sua população os cidadãos das então repúblicas socialistas do UZbequistão, Cazaquistão, Azerbaijão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Quirguistão. Na época, um em cada cinco soviéticos era, de fato, muçulmano. Hoje, no entanto, o número fica em praticamente um em cada dez.

Por outro lado, por conta de desequilíbrios econômicos e profunda instabilidade social nas repúblicas centro-asiáticas, a migração desenfreada fez disparar o número de seguidores do Islã, sobretudo em Moscou. Hoje, a cifra é estimada em 2,5 milhões. E continua crescendo.

Segundo pesquisa realizada em 2011 pelo instituto americano Pew, o número de muçulmanos na Rússia vai pular dos atuais 16,5 milhões para 18,6, um aumento da ordem de 15% em cerca de 20 anos. O crescimento do Islã na Rússia, no entanto, não acompanha o êxito da fé no mundo. Ainda segundo a projeção, em 2030 teremos 2,2 bilhões de muçulmanos no mundo - um quarto da população mundial - contra 1,6 bilhões atuais.

Para efeito de comparação, nos Estados Unidos, que registrava uma população islâmica de 2,6 milhões em 2010, terá praticamente o triplo de muçulmanos em 2030, cerca de 6,6 milhões, de acordo com o Instituto Pew. Número praticamente igual ao total de judeus e anglicanos no país.

Mas uma sutileza deste número é que, na verdade, ele parece preocupar muito mais as autoridades islâmicas do que as representações locais e militantes de direita, sobretudo na Rússia. De acordo com o "Sunna Press", os xeques se mostram muito perturbados com o efeito das "tentações" das grandes metrópoles sob seu rebanho. "A vida nos países não-muçulmanos é um enorme perigo para a vida islâmica. Nós vimos mudanças em muitos daqueles que viveram em tais países, que acabam retornando completamente diferentes de quando partiram", diz o site.

No caso de Moscou, especificamente, a cada ano organizações locais tentam impedir, ao menos, a matança dos bodes. Aparentemente, sem sucesso, já que os sacrifícios continuam nas varandas, nas ruas e até mesmo nas praças. Por outro lado, diligentemente, as autoridades moscovitas já conversam com os representantes locais do Islã para a construção de novas mesquitas - uma vez que o complexo atual não parece dar conta.

O Kurban-Bairam em Moscou, e no resto das cidades da Rússia, veio para ficar, levando-se em consideração que a mão-de-obra dos países centro-asiáticos e caucasianos é indispensável para o crescimento econômico e demográfico russo. Pragmaticamente, o cosmopolitismo e a globalização não deixam espaço para quaisquer sentimentos ultra-direitistas, que levem a raciocínios tais como "essa terra é minha" ou "meu país para os nativos". A terra é de quem trabalha, tem a competência necessária para estar ali e se adapta.

Se ainda dá tempo, Eid Mubarak aos muçulmanos e que a Rússia se torne um exemplo de convivência e tolerância entre os povos.