Eram quase 9h do último domingo (14) quando Nicanor Tkatsch, 55, subia as escadas da paróquia São João Evangelista, na pequena localidade de Linha Paca Sul, a cerca de 10 quilômetros do centro de Campina das Missões, no noroeste do Rio Grande do Sul.

Terceira geração de uma das primeiras famílias russas a emigrarem para o Brasil, há 103 anos, e que se instalaram naquele pedaço de terra, Nicanor aguardava ao lado da mãe, Maria, e de um dos irmãos o início da missa que marcou os 100 anos da fundação da primeira Igreja Ortodoxa Russa no Brasil.

“Meu pai foi um dos que ajudaram a colocar essa igreja de pé”, conta Nicanor.

Foram três construções nesses 100 anos. A primeira, feita de madeira, acabou destruída em um incêndio nos anos 1940. A segunda, também de madeira, deu lugar à atual, erguida na década de 1950. 

Ali, cerca de 50 fiéis acompanharam ao lado da família Tkatsch a celebração do último domingo, comandada pelo pároco local, Dionísio Zazantsev, pelo procurador-geral da Diocese de São Paulo e do Brasil, Anatolie Topala e pelo padre Bartolomeo Oviedo, da Argentina.

O evento contou também com a presença do embaixador da Rússia, Serguêi Akopov.

Após a missa, o grupo seguiu de ônibus para a praça São Vladimir, no centro da cidade, para a inauguração de um portal em homenagem à data.

Em um breve discurso, Akopov destacou a importância do trabalho dos imigrantes que colonizaram o local e “conservaram sua fé e cultura, sempre com a Igreja Ortodoxa ao seu lado.”

O prefeito da cidade, Ademir Renato Nedel, também atendeu ao evento, complementando o discurso do embaixador. “Esta obra representa não somente a cultura e a religiosidade do povo russo na cidade, mas também de todos os povos da região”, disse o prefeito.

Um almoço no salão paroquial da igreja, com os pratos típicos russos dando lugar ao churrasco gaúcho, encerrou as festividades. 

“A Igreja é uma parte da cultura russa que esses imigrantes trouxeram para cá. Na minha opinião, a Rússia está baseada em dois pilares: o Estado e a formação espiritual, sustentada pela Igreja”, disse Akopov à Gazeta Russa.

Renovação

Hoje, cerca de 80 famílias compõem a comunidade russa de Campina das Missões, distante quase 600 quilômetros da capital do Estado, Porto Alegre - uma viagem que consome mais de oito horas de ônibus.

O padre também comanda a paróquia de São Pedro e São Paulo, na cidade vizinha de Santa Rosa, onde vive com a mulher e a filha, nascida no Brasil.

Natural da Sibéria, Zazantsev, de apenas 30 anos, passou ainda pela Coreia do Norte, China e Coreia do Sul antes de chegar ao Rio Grande do Sul. Além do russo, fala chinês, coreano, inglês e japonês.

Desembarcou em Santa Rosa há dois anos e meio, quando ainda não falava uma palavra de português. Sem escolas na localidade para aprender a língua, estudou sozinho e hoje reza grande parte das missas em português.

Nas celebrações, faz questão de explicar aos fieis o significado dos rituais da liturgia e dos trechos lidos e cantados em russo.

“Apesar de os mais velhos entenderem russo, muitos repetem trechos automaticamente, sem entender o significado. Mas é importante saber o que está se rezando”, disse à Gazeta Russa.

“Agora estamos promovendo cursos de língua e cultura russa. Visito as famílias quase de porta em porta e vamos iniciar aulas de catequese. Ainda é um desafio trazer os jovens para a igreja”, completa.

Para Tkatsch, um dos fiéis mais assíduos da paróquia, o padre Zazantsev comanda uma pequena revolução na igreja.

“Ele explica tudo em detalhes, tem criatividade. Estamos gostando muito”,  conta Tkatsch.

A renovação também é estética: nas idas à Russia, Zazantsev retorna com novos ícones e trajes para celebrar as missas.

Além disso, a paróquia teve os vidros trocados e ganhou um novo calçamento no entorno.

Akopov, pela segunda vez na cidade, aprovou as mudanças. “As coisas melhoraram muito desde minha última visita. Padre Dionísio está fazendo um belo trabalho”, arremata.