Quando, há três anos, Cláudio Lucchesi completou 40 anos, seus pais lhe perguntaram o que ele queria ganhar de aniversário. “Um manche de Mig 25”, respondeu prontamente.

Neto de piloto e dono de avião, ele cresceu vendo exibições da esquadrilha da fumaça e admirando fotos de Migs russos nas revistas que chegavam a Guaratinguetá, cidade do Estado de São Paulo onde nasceu.

Hoje ele é responsável pela “Asas”, uma das publicações de aviação mais conceituadas do Brasil e especialista em aviação, mais especificamente, a russa. A edição de agosto da revista é dedicada aos 100 anos da aviação no país.

Gazeta Russa: Quantas vezes você já foi a Moscou?

Cláudio Lucchesi: Em 1997 fui pela primeira vez para ver o show aéreo. Desde então, a única vez que eu não apareci foi em 2009. Durante muitos anos eu era o único jornalista brasileiro a comparecer.

Gazeta Russa: Por que os brasileiros ainda têm esse estranhamento com a Rússia?

C.L.: O noticiário da Rússia no Brasil ainda é muito ideológico. Como se o regime não tivesse caído. O pessoal fala do [presidente Vladímir] Pútin. Não quero dizer que o cara é santo, mas ele botou ordem na casa... E quando se faz pesquisa de opinião na Rússia ele tem muito apoio.

Falam que o Pútin é ex-KGB. De todos os soviéticos ele era o que mais conhecia o que era o Ocidente, por ser da KGB. Ele também sabia muito bem onde o regime soviético estava podre, por ser da KGB.

As Forças Armadas Soviéticas eram gigantescas, o país não tem como bancar aquilo hoje em dia. Mas não se pode de uma hora pra outra jogar os militares pra fora.

Se for pra rua, esse cara vai parar no crime organizado, como aconteceu na década de 90. Para qual outra atividade é preciso ter a especialidade que ele conhece?

Gazeta Russa: Sabemos que os russos são bons em foguetes. São bons também em aviação?

C.L.: A aviação sempre foi um orgulho para os russos. A história da aviação russa é muito rica. Eles fizeram o primeiro bombardeiro pesado, de quatro motores, construído por Ígor Sikórski.

Hoje temos o helicóptero Sikórski nos Estados Unidos, mas Sikórski era russo. Ele emigrou para os Estados Unidos depois da revolução de 17. E lá dedicou-se a estudar helicópteros.

O primeiro caça com trem de pouso recolhível e cabine fechada foi russo, o Policarpov 16.

A russa é a segunda maior indústria aeronáutica do planeta. O avião mais produzido na história mundial, civil ou militar é russo, o Antonov 2.

Um dos jatos militares mais produzidos da história é russo também, Mig 21.

Gazeta Russa: Se a Rússia é tão boa como você diz, por que o Brasil eliminou os russos da concorrência para a compra dos 36 caças, que está dividida entre França, Suécia e Estados Unidos?

C.L.: O Sukhôi 35 é uma máquina fantástica, não deve nada ao Rafale francês ou ao Superhorn americano, ele é mais barato que o francês e tem preço igual ao americano. Não haveria problema com a caixa preta.

A Índia comprou o Sukhôi num pacote que lhe dá direito de fabricar sob licença, e com o Brasil não seria diferente. Mas o Brasil não tem o hábito de comprar aviões da Rússia ou da União Soviética.

A Força Aérea Brasileira importou o primeiro helicóptero russo há apenas três anos: um MI 35 que foi também a primeira nave russa a operar no Brasil. Tanto para fins civis quanto militares.

No ano passado, uma empresa de helicópteros do Rio de Janeiro que tem contrato com a Petrobras se tornou a primeira operadora da história do Brasil de uma aeronave civil russa ao comprar o MI 171. Tem três ou quatro desse modelo, um helicóptero médio pesado, de carga, operando na Amazônia.

Agora em agosto, uma empresa de São Paulo, a Helicargo trouxe o primeiro exemplar de um outro helicóptero russo, o Kamov 32 para prestar serviços de guindaste aéreo para cargas especiais.

É uma aeronave fantástica para operações anti-incêndio. É capaz de levar uma carga de cinco toneladas de água num único voo.

O Museu da TAM tem três Migs antigos. Dois deles – Mig 21 e o Mig 17 - fomos eu e um negociante de armas russas da Segunda Guerra chamado Berger que trouxemos para a TAM.