Bom, de início, vamos relembrar. O que chamamos de ‘Ucrânia contemporânea’, a despeito dos patriotas inflamados e apaixonados, engloba áreas que, em diferentes épocas, pertenceram a diferentes ‘estados’. Basicamente, pode-se dividir o país em oriental e ocidental. Geograficamente óbvio, o alinhamento dos orientais é sempre maior com a Rússia – e com projetos mais ‘eslavistas’-, enquanto os ocidentais tendem a um nacionalismo-progressista radical, sempre favorecendo uma união maior com a Europa.

Numa análise primária, trata-se de uma grande metáfora de um estado que praticamente divide a Europa da Rússia. Aparentemente tudo, na Ucrânia, gira em torno do ‘complexo de colonização’. Como escreveu Roman Szporluk, professor de História Ucraniana das Universidades de Harvard e Michigan, ‘A diferenciação ucraniana da Rússia e da Polônia não garante, necessariamente, a união dos ucranianos que recusam as nacionalidades russa e polonesa’. Ou seja, trata-se de um país virtualmente rachado – embora ainda os apaixonados nacionalistas insistam em negar isso – onde impera o medo, tanto do leste, quanto do oeste. Isso se reflete nos nomes que a própria imprensa usa ao se referir a determinadas áreas do país: ‘falante de ucraniano’ x ‘falante de russo’, ‘margem esquerda’ x ‘margem direita’, ‘soviética’ x ‘polaca’, ‘nacionalista’ x ‘colonizada’, ‘rural’ x ‘industrial’ e até ‘velha’ x ‘nova’.

Voltando ao contemporâneo, a Ucrânia ainda vive um momento delicado. Desde sua independência da União Soviética, em 1991, o país fervilha e sofre com desilusões políticas. Após uma ditadura branca de 11 anos, o então presidente Leonid Kuchma deixou o poder na famosa Revolução Laranja. Desde então, o país vive praticamente um rodízio de líderes, no qual se alternam Viktor Yuschenko, Yulia Timoschenko (pró-nacionalistas ucranianos) e Viktor Yanukovich (pró-russos), o atual presidente.

Em maio, o Партія регіонів (algo como ‘Partido das Regiões’, que tem um acordo de aliança com o Edinnaya Rossia, o Rússia Unida), que detém a maioria no Congresso, já havia tentado votar a medida. Mas a incursão acabou em pancadaria. Nesta quinta-feira, mesmo com alguns atritos, o ato foi aprovado, o que gerou uma onda de protestos.

Efetivamente, dar à língua russa um status maior é um sinal de Yanukovich, o presidente cuja língua nativa é o russo e que conta com o apoio maciço das regiões ‘russificadas’ da Ucrânia, pode estar se voltando para o Kremlin. E o motivo é simples: o país vem sendo marginalizado da Europa desde a prisão da ex-primeira-ministra Yulia Timoschenko, rival de Yanukovich, em 2011. Para a União Europeia, sua prisão tem motivações unicamente políticas.

Ainda nesta semana, a Corte Europeia de Direitos Humanos declarou que o ex-ministro do Interior da Ucrânia, Yuri Lutsenko, também foi vítima de perseguição política e teve direitos violados ao ser preso, ainda em 2010.

E, para dar uma ‘maquiada’ na nova lei, o Partido das Regiões não fala de exclusividade da língua russa. De acordo com o texto, também podem ganhar status oficial outras línguas, como polonês, romeno, tártaro, alemão, húngaro moldávio, grego, ídiche, eslovaco, búlgaro e o russo, claro.

Para o principal partido da oposição – que era liderado por Yulia Timoschenko -, o Батьківщина (Batkivischina, ou pátria-paterna, algo assim), trata-se de um ‘crime contra o estado’. ‘Yanukovich conseguiu fazer tudo o que os imperadores russos e os secretários-gerais soviéticos não conseguiram. É uma sentença de morte para a língua ucraniana’.

O grande dilema ucraniano, de se equilibrar entre dois mundos poderosos, a União Europeia e a Rússia, parece estar se entranhando cada vez mais dentro do próprio estado e caminhando para um momento de decisão, com altíssimo potencial explosivo. Apesar de a língua ucraniana continuar sendo a única oficial no país, a possibilidade de russificação regional promete dar um gás ainda maior às aspirações secessionistas – e de integração à Rússia. Até que ponto isso pode comprometer a unidade nacional ucraniana, só o tempo dirá.