A atual situação no Oriente Médio permite falar da proximidade do fim do conceito de mundo multipolar. O contexto geopolítico que está se constituindo no mundo parece não tanto uma ordem internacional multipolar, mas um mundo sem polos, em que as funções de liderança são exercidas muito mal, independentemente de quem as assume.

Os EUA estão enfraquecendo devido à redistribuição da economia mundial, à crise financeira e difusão de tecnologia (incluindo de aplicação militar) nos países antes dominados pelo Ocidente.

Enquanto concorrente econômico dos Estados Unidos, a União Europeia tornou-se vulnerável e inconsistente. As mortes de soldados tornaram a Otan suscetível a críticas, enquanto os altos gastos com operações militares da aliança fora das fronteiras nacionais dos países membros trouxeram desgastes à organização.

Na ausência de um inimigo ideológico tão forte quanto a União Soviética, cujo papel dificilmente pode ser hoje assumido pela Rússia ou China - países em vias de integração ativa ao sistema político e econômico mundial - as tentativas de mobilizar a sociedade ocidental contra um novo “eixo do mal” não têm surtido efeito como nos tempos da Guerra Fria.

Os atores principais e secundários

 

Como conseqüência, países como a Turquia, Irã e China, condenados, já no início do século 20, a obedecer e ser divididos, seguem uma política independente, recuperando suas esferas de influência históricas. O mesmo pode ser dito sobre a Índia, Japão, Coreia do Sul, África do Sul, alguns países do Sudeste Asiático e países árabes do Oriente Médio e Próximo, cujos interesses estão deixando de depender do Ocidente.

A crescente oposição do Irã xiita à aliança árabe sunita liderada pelas monarquias conservadoras da Península Arábica, unidas no Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo Pérsico (CCG), pode levar a região a uma guerra.

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Possivelmente, será uma “guerra de desgaste”, menos perigosa para Teerã do que ações como o bloqueio do Estreito de Ormuz ou um ataque contra a “ilha dos árabes” para o resto do mundo, uma vez que provocarão inevitavelmente uma reação dos EUA e outros países da Otan, responsáveis pela segurança das monarquias árabes. Na expectativa desse conflito, a Arábia Saudita e o Bahrein reprimiram as manifestações xiitas com a ajuda do corpo ocupacionista do CCG.

A luta pelo poder na “primavera árabe” foi perdida tanto pelos círculos outrora ligados à União Soviética quanto pelos liberais pró-ocidentais. No Magreb e no Egito, o poder é disputado entre a “Irmandade Muçulmana” e seus numerosos clones, salafistas e tradicionalistas, incluindo as ordens sufis influentes, patrocinadas política e financeiramente pelas monarquias árabes. O Ocidente é seu parceiro e mercado em potencial. A Rússia não lhes interessa.

Os paradoxos da situação atual


 A queda dos regimes autoritários no Norte da África criou um vácuo de poder e deixou disponível uma grande quantidade de material de guerra, incluindo mísseis antiaéreos e anticarros portáteis, minas pesadas etc, dando início a uma nova fase de guerra subversiva e terrorista travada pela Al-Qaeda no Iraque, na Península Arábica e nos países islâmicos do Magreb, além de grupos na Somália, Nigéria,  Afeganistão e Paquistão. Todos esses grupos, movimentos e organizações, com raras exceções, como o braço sírio do movimento palestino Hamas, lutam não só contra os governos laicos, xiitas ou contra o Ocidente, mas também contra a Rússia.

A Jordânia e o Marrocos, países com relações estáveis com a Rússia e convidados para o Conselho de Cooperação do Golfo, têm grandes problemas internos e dependem mais do apoio do Ocidente e das monarquias do Golfo Pérsico do que das relações com Moscou.

O governo militar da Mauritânia conta com o apoio da França e Estados Unidos, embora não se tenha juntado à aliança anti-síria. A Argélia se mantém à parte, sendo a última autocracia laica do Magreb.

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A única fronteira através da qual na Síria não se infiltram armas nem extremistas armados, é com Israel. Jerusalém, formalmente em guerra com Damasco, está interessada em uma Síria estável, já que o colapso do país teria como consequência inevitável uma reação em cadeia no Líbano, Jordânia e Cisjordânia.


A Turquia tem um papel especial na situação em torno do Irã e da Síria, controlando os grupos de oposição armados nas regiões fronteiriças da Síria, acolhendo em seu território nacional refugiados sírios e apoiando os oponentes de Bashar al Assad. Caso decida atacar a Síria, o país não terá nenhuma chance de repelir a agressão turca.

Como alternativa, a Turquia pode introduzir no norte da Síria um contingente de tropas, assim como aconteceu no Iraque, e será apoiada pelo mundo árabe e ocidental. Assim, a Otan, da qual a Turquia faz parte, se veria envolvida no conflito.

A ONU realiza uma função técnica na crise sírio-iraniana. Ainda que os Estados Unidos não necessitem de aprovação das Nações Unidas para realizar uma operação militar, a julgar pelo o que aconteceu no Iraque, o congresso norte-americano e os parlamentos europeus se mostram mais maleáveis nos debates dos orçamentos militares quando uma operação militar tem aprovação da ONU.

O sistema das Nações Unidas permitiu que Rússia e China usassem seu poder de veto para impedir a aprovação da resolução sobre a Síria, mas não devemos exagerar o significado desse veto. A opção militar é importante para a Otan, que falhou em coordenar as ações das forças aliadas na Líbia, onde até mesmo o papel da Alemanha, um dos principais países europeus, foi passivo e simbólico.


 
O que a Rússia deve fazer?


A Rússia tem poucas opções em relação à situação em torno da Síria e do Irã. Por um lado, poderia apoiar uma ação contra o Irã, e agir de acordo com os liberais domésticos, monarquias árabes e o Ocidente. Por outro, poderia se colocar ao lado do Irã na luta contra os países árabes e ocidentais para atender às exigências das forças patrióticas e conservadoras no país e do lobby iraniano. Finalmente, a Rússia poderá manter sua atual política, consciente dos riscos e vantagens daí decorrentes.

Em nenhum momento ao longo dos últimos 25 anos, o apoio do Ocidente proporcionou à Rússia aquilo que ela esperava nem aquilo que lhe foi prometido. Moscou não é considerada pelo Ocidente como parceiro igual.

Prova disso foi a situação na Líbia, ou melhor dizendo, as perdas sofridas naquele país pelas corporações russas, apesar da posição neutra assumida pelo país na ONU. Portanto, se alguém precisar do apoio da Rússia no caso da Síria - e muito mais no caso do Irã - deverá oferecer ao país um bom preço e não ignorar os interesses geopolíticos da Rússia, anunciados reiteradas vezes pelo atual governo e menosprezados ao longo de todo o período pós-soviético pela comunidade internacional.

A tentativa de transformar Moscou em aliado político e militar de Teerã e colocá-la contra o Ocidente também é destrutiva para a Rússia. A atual estratégia do país lhe permite “salvar as aparências” e ganhar tempo.

Taticamente, entregar seus aliados a Washington pode ter efeito positivo, mas arriscado. Um flerte com os islamistas não trará nada além de outro 11 de setembro, embora as monarquias do Golfo demonstrem como o os EUA dependem de seus aliados árabes.

Para a Rússia, nem os islamistas, nem o Ocidente, nem a Turquia nem o Irã são aliados, nem podem sê-los. Seus interesses são contrários aos da Rússia, mesmo que eles não busquem um domínio econômico e religioso nas ex-repúblicas soviéticas, não insistam, como o Irã, na divisão do Mar Cáspio nem construam, como o Qatar, unidades de liquefação de gás natural nos centros europeus onde existem gasodutos russos. A atual situação é perigosa e problemática e não será diferente em nenhuma circunstância.

Um ataque ao Irã ou à Síria, caso venha a acontecer, irá enfraquecer também seus autores.

A ameaça aos sunitas por parte dos xiitas fará com que as duas correntes islâmicas se virem uma contra a outra, diminuindo a gravidade do problema do radicalismo islâmico dentro da Rússia. Ciente das conseqüências que teve para os EUA o apoio prestado pelos mesmos à Al-Qaeda, a Rússia dificilmente tentará seguir o mesmo caminho suicida.

A Rússia não deve se importar com a mudança do regime no Irã. A julgar pelo que acontece no Iraque e no Afeganistão, é impossível controlar externamente a situação no Oriente Médio e Próximo.

Evguêni Satanóvski, Presidente do Instituto de Estudos sobre o Oriente Médio.

Para a versão na íntegra do artigo em russo, acesse http://rg.ru/2012/02/06/primakov.html