Clima, fuso horário, língua e cultura são fatores que afetam, diariamente, a vida do intercambista. Imagine uma intercambista, na Rússia! Sim, pois o machismo faz parte do cotidiano de cada russa, principalmente com sobrenomes que só podem ser herdados da família do marido e a vida ditada pelos costumes da época dos tsares. Então, imagine na Sibéria, mais precisamente na cidade de Ulan-Ude, capital da República da Buriátia.

As temperaturas eram de +40°C ou -40°C. Verão e inverno extremos nessa região, até mesmo para os brasileiros, pois o clima é de deserto com a baixa umidade do ar. Acrescente-se um fuso horário de 13 horas de diferença e, para finalizar, uma língua com alfabeto de 33 letras e gramática mais complicada que a portuguesa, com seis tipos de declinações de nome. Difícil? Não, diferente.

Músicas típicas impressionaram a jovem, principalmente a balalaika e o acordeão Foto: arquivo pessoal

No entanto, o que mais impressiona é a cultura. O banho russo, com a disparidade da sauna de temperatura de +120°C e o “pulo” na neve a -35°C servem para a abertura dos poros e, como diz a tradição russa, “para não adoecer durante o ano”. Se na maior parte da Rússia a religião é ortodoxa, na Buriátia predomina o budismo, com direito aos templos de arquitetura mongol e o corpo de um Buda que faleceu há 180 anos, conservado sob seus estranhos +37°C. Seus cabelos e unhas continuam a crescer e, de acordo com a lenda, ele voltará para salvar a terra dos próprios homens. Verdade ou não, a lenda faz parte deste local riquíssimo em histórias.

Histórias de guerras, revoluções e comunismo, até hoje fazem parte do cotidiano e foi o que me fez escolher a Rússia como país para o intercâmbio. Escutar como foram esses períodos pela boca de pessoas que passaram por tantos momentos importantes e horrendos, algo que a maioria dos brasileiros nunca passou e provavelmente nunca passará, faz você entender porque o povo russo é fechado e conhecido no cinema - obviamente americano -como "mau".

Durante um "banho russo", que se contrapõe à sauna de 120° a um pulo na neve a -35° Foto: arquivo pessoal

Para não assustar ninguém, é melhor começar no final da última década do século 19, com a primeira revolução russa fracassada. Depois, no início do século 20, vem a segunda revolução russa, em plena Primeira Guerra Mundial. Como se não bastasse, então começa a Segunda Guerra Mundial. A vitória sobre a Alemanha leva ao fim do nazismo, porém a então vitoriosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas teve o maior número de mortos em guerra. E, é claro, para completar um século de mudanças, chega a Guerra Fria, seu fim e o início da reabertura e democratização daquela que novamente é chamada Rússia. Cansou? Isso foi apenas um resumo.   

Em frente à catedral de São Basílio Foto: arquivo pessoal

Agora, pense. Você conseguiria, depois de 70 anos fechado abrir-se em apenas duas décadas? Entender um povo é entender sua história. A comida gordurosa do país não se deve apenas às baixas temperaturas locais, mas também à falta de alimentos na URSS, que fez com que o povo valorizasse o pouco que tinha. Por isso, ainda hoje se come gordura pura, todas as partes possíveis do porco e do peixe, e se toma suco de pão (o famoso “kvas”). Era só o que lhes restava.

A expectativa de vida na Rússia é de 60 anos. Comparada ao Brasil, onde é de 78 anos, parece algo estranho. No entanto, é preciso analisar a vida de cada população. A dos russos se resume em estudar, trabalhar e formar uma família. Cerca de 80% da população adulta fuma e bebe, em conseqüência da pressão do novo sistema capitalista, do governo que aspira a que o país seja a maior potência mundial e da própria sociedade, que ainda conserva costumes e tradições antigas. E o Brasil? Bom, vocês sabem.

No Dia da Vitória, principal feriado nacional Foto: arquivo pessoal

Aliás, essas tradições são o que faz a cultura russa encantadora. As danças dos cossacos, povo que viveu séculos atrás na Sibéria, a felicidade no rosto das “babushkas” (em russo, “avós”), dançando com suas saias enormes e coloridas, o som da balalaika e da sanfona, a beleza da taiga, com pinheiros exclusivos dessa região, e a tentativa de um povo de ser feliz, apesar de sempre estar esperando pela próxima bomba e a perda de algum ente querido.