A única filial da companhia russa Bolshoi no mundo vai levar a Brasília, pela primeira vez, o chamado “balé de repertório”. Após meses de trabalho duro, no dia 5 de maio 90 alunos, bailarinos e professores sobem ao palco da Sala Villa Lobos, do Teatro Nacional, dispostos a encantar. “Estamos preparando algo grande, com produção nossa. Vai ter gente que nunca saiu de Joinville, gente que nunca viajou de avião... Vai ser muito emocionante mesmo”, diz o russo Pável Kazarian, supervisor da escola em Santa Catarina.

Assim como Quixote quando lutava contra moinhos de vento, os idealizadores do projeto de montar no Brasil - e longe das capitais - uma escola do mais tradicional balé da Rússia foram vistos, no final dos anos 1990, como loucos. A conquista, agora, deve ser celebrada com o espetáculo “Grande Suíte do Ballet Don Quixote”, uma nova versão coreográfica de Vladímir Vasiliev, considerado o “bailarino do século”.

Do Brasil para o mundo

Uma das estrelas da companhia, a jovem Bruna Gaglianone, de apenas 20 anos, já dançou em alguns dos palcos mais prestigiados do mundo e conhece de perto os desafios das companhias  nos EUA e na Rússia.

Ela conta que, para a apresentação na capital federal, a montagem será de alto nível e deve superar as expectativas. “A gente vem para se igualar aos russos. Dançamos com eles no ano passado e assistimos a muitos vídeos. Vamos fazer bonito”, afirmou a graciosa bailarina de traços leves e jeito de menina.

Gaglianone é resultado da Companhia Jovem, um dos projetos sociais da escola do Bolshoi no Brasil, que, diante da dificuldade para inserir seus recém-formados no mercado mundial, criou um corpo de balé próprio, sediado no teatro da escola, em Joinville. Ali, ficam os grandes talentos brasileiros.

Desde 2007, quando foram contratados cinco formandos, a companhia já absorveu 19 bailarinos da escola. Desse grupo, oito foram empregados por grandes companhias da Áustria, dos EUA, da Polônia, da Alemanha e pela consagrada formação brasileira de dança contemporânea Grupo Corpo.

“Nós damos a eles o primeiro emprego com carteira assinada. Eles ganham dinheiro, ajudam a família e economizam para viajar para as audições. E, se conseguem entrar para uma companhia, para nós é um orgulho”, explica Kazarian.

Estratégia bilateral

A escola tem importância estratégica nas relações entre o Brasil e a Rússia. Além de ser a única filial da tradicional companhia, é o maior projeto de intercâmbio cultural entre os dois países.

“A escola une os governos. E está acima de partidos políticos e de interesses. Tudo na política muda, mas o apoio à escola continua”, ressalta o supervisor, que lembra das autoridades que já estiveram lá para admirar o projeto. “O presidente Lula passou por aqui e virou fã. Assim como o embaixador da Rússia e o diretor do Bolshoi de Moscou”, completa.

Em seus onze anos de existência, mais de mil alunos já ensaiaram nas salas do prédio de 6 mil metros quadrados, em Joinville. Dezenas de alunos brasileiros já fizeram o curso de intercâmbio em Moscou, enquanto muitos outros russos – entre bailarinos, professores e músicos – estiveram em Santa Catarina. Neste ano, a escola conta com 283 alunos, de 15 diferentes Estados brasileiros, além de três alunas argentinas. Desses, 95% são bolsistas.

A maior dificuldade enfrentada pela escola, no entanto, é angariar fundos. “Por isso as pessoas estão sempre atrás de coisas novas”, diz Kazarian. “Quando começamos, tínhamos só um espetáculo. Agora, no nosso repertório tem Gisele, Don Quixote... Isso significa que temos alunos talentosos e evoluímos no ensino”, ressalta Galina Krávtchenko, uma das fundadoras e primeiras professoras da escola.

Até 60 alunos por vaga

Os alunos são escolhidos por professores qualificados, em disputadas audiências - algumas com até 60 candidatos por vaga. Essa competitividade, ao mesmo tempo em que reforça o prestígio do Bolshoi no Brasil, cria uma responsabilidade no ensino, destaca a professora. “Temos uma seleção muito dura, mas recebemos e ensinamos aqueles que atendem aos requisitos físicos. Não há diferenças entre brasileiros e russos”, enfatiza.

Passar pela seleção é apenas o início de uma longa jornada que pode durar até oito anos. Para grande parte dos alunos, significa deixar sua cidade natal e morar em Joinville, o que pode ser um choque. Todos recebem alimentação, atendimento médico, acompanhamento físico e aulas em escolas da cidade. As crianças de fora vão para as chamadas “Casas dos Estados”, espécies de repúblicas estudantis financiadas por alianças entre governos e iniciativa privada e supervisionadas por uma mãe-orientadora.

Na Casa do Piauí, por exemplo, vivem dez estudantes e uma mãe, Maria do Socorro. “Aqui a gente faz de tudo para trazer um pouquinho da nossa terra natal, para ficar com um jeito de casa mesmo”, diz ela.

Entre desenhos de prédios da capital piauiense, Teresina, feitos por universitários da UFPI (Universidade Federal do Piauí), passando por uma sala repleta de redes de dormir e terminando no arroz Maria Isabel, prato típico daquele Estado, tudo ali é amor à terra natal, cercado de organização e disciplina.

Determinação

“Não é fácil para essas crianças abrir mão de tudo, vir para o outro lado do país, um outro Estado, sotaque e clima. A gente ajuda no que pode, mas também mantém o pulso”, explica Socorro.

Não é à toa que um dos maiores problemas enfrentados pela escola de Joinville (SC) é a evasão. Além de ter a rotina alterada, os alunos enfrentam rigorosos ensaios.

Bruna Gaglianone lembra que, quando entrou, havia duas turmas de 40 alunos. Em um determinado momento, as turmas se juntaram e, dos 80, apenas 10 se formaram. “É uma vida de muito sacrifício. O balé é muito egoísta, ele quer tudo”, disse.

Ainda assim, como bons adolescentes, eles tentam driblar os limites com saídas noturnas. “Às vezes, a gente faz festinha na sexta, quando é aniversário de alguém. Aí, chega na segunda e você pensa: meu Deus, por que eu fui sair?”, brinca a jovem bailarina. Desta vez, a festa será em Brasília e, certamente, a comemoração vai atravessar o mundo.

  Entrevista

   Diego da Cunha, 20 anos, aluno do balé Bolshoi no Brasil

 Diego da Cunha começou na dança quando ainda morava em Salvador (BA). Não conhecia a escola e  nem sabia o que era balé, mas já trabalhava com dança folclórica e contemporânea para ajudar no sustento da família. Em 2006, um teste mudou sua vida: foi selecionado para estudar no Bolshoi. Hoje, dança e impressiona gente do mundo inteiro com seus passos.

 

Quando você chegou, estranhou a disciplina da escola?


A disciplina, a cultura, a estrutura, o sotaque… Tudo é muito diferente, a adaptação é difícil. A comida foi um dos pontos mais difíceis, o horário e o frio [de Joinville]. Mas o sacrifício vale a pena se você pensa que vem de uma família pobre, chega aqui e consegue subir na vida e ter uma formação. Agora eu posso chegar em qualquer escola e dizer que tenho diploma e sou formado pelo Balé Bolshoi. Para ser professor, coreógrafo ou o que seja, agora eu tenho essa possibilidade.

Qual foi a influência do balé na sua vida?

Foi fundamental. Tenho irmãos que trabalham na Europa há anos, ganham seus salários, moram lá... Subiram de vida, né? Graças à arte, ao projeto.

É uma rotina difícil. Você já pensou em largar tudo?


Eu sabia que aqui eu tinha um futuro, que ia ser diferente, que ia conseguir mostrar algo diferente para as pessoas. Mesmo com dor, com sacrifício, vim muito determinado. Não é à toa que você larga sua família inteira, sua cultura, para vir para outro Estado completamente diferente. É para melhorar. Ou quer ou quer, não tem outra opção.

O que você planeja para depois que se formar?


Aqui é ótimo, mas chega uma hora que tem que sair. Não pode ficar parado em um só lugar. As companhias pedem dois anos de experiência e eu já tenho isso.

Você enfrentou preconceitos?


Até tem preconceito, mas é mais medo de perder o lugar. Além de ser negro, brasileiro. Os europeus dizem: “tinha de ser brasileiro para dançar desse jeito diferente”. Eles sempre ficam maravilhados com essa energia, com a nossa vida. Outros povos são muito frios. Às vezes, falta “arte” para eles.

Entrevista

Galina Krávtchenko, fundadora e uma das primeiras professoras da Escola de Balé do Teatro Bolshoi em Joinville (SC)

Galina Krávchenko praticamente fundou a Escola do Bolshoi Brasil, onde está há 11 anos. Veio para viver o sonho do marido Aleksandr Bogatirev, que faleceu antes de ver o projeto que idealizou realizado. Rígida nos treinos, ela se derrete ao falar dos alunos. “Minhas meninas são recebidas bem em qualquer lugar. Elas  dominam a técnica e isso me deixa muito orgulhosa”, diz.

Como vocês trabalham com os alunos mais novos?

Se na Rússia toda menina sonha em ser bailarina, aqui muitas crianças sequer viram isso na televisão. Quando eles começam a entender, descobrem que é preciso muito trabalho. Aula e apresentação são coisas completamente diferentes. Por isso, nas primeiras séries, eles vão aprendendo o que é o amor pelo balé. A cada aula, eles vão se tornando fanáticos pelo trabalho. E, nas últimas séries, se tornaram apaixonados.

E como eles recebem o trabalho duro?

Ninguém costuma reclamar. Ficam chateados quando há alguma contusão. Você aprende pela exaustão e, em algum momento, vai ter dor. Isso é normal, mas é difícil para eles. Embora todos entendam que isso faz parte da profissão.

Nas suas aulas, muitas vezes a senhora se dirige aos alunos com palavras em russo...

Não é tão frequente assim. Quando eu digo em russo ‘horoshó’, significa que é muito, muito bom! Mas outras palavras eu até que falo pouco…

Após 11 anos, mudou a receptividade dos brasileiros em relação ao balé?

É difícil dizer. Eu conheço o trabalho excepcional das grandes companhias do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nosso trabalho, além de trazer um pouco da nossa escola para cá, é fazer o público brasileiro conhecer um pouco da tradição. Por exemplo, quando o Bolshoi começou a se apresentar no Japão, ninguém sabia quando aplaudir. Às vezes, nós saíamos do palco sob um silêncio total. E agora, quando voltei lá, recentemente, eles sabem quando aplaudir, quando calar, quando há algum momento dramático. Eles já conhecem o balé. Então, depois de alguns anos, eles entenderam. Está sendo assim com o Brasil.

Aniversário em grande estilo

Escola de Balé do Teatro Bolshoi comemora 11 anos de existência com apresentação do "Grande Suíte do Ballet Don Quixote" no dia 5 de maio, em Brasília. Veja o ensaio de um trecho do espetáculo.